segunda-feira, 29 de março de 2010

Cai o pano














Dentro de dois dias, Dilma Rousseff abandona a postura de ministra para assumir, em definitivo, a de presidenciável. Sim, porque embora viesse agindo como tal há muito, e tenha sido saudada no encontro nacional do PT como tal, ela jamais admitiu publicamente a postulação.


Bom, mas a saída do governo só acontece daqui a dois dias. Hoje, ainda ministra, Dilma lançou a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2), ao lado do presidente Lula, seu grande cabo eleitoral. Sem ele - e o PT sabe disso - ela no máximo continuaria ministra. Candidata, jamais.

Assim como o primeiro, o PAC2 foi colocado sob a coordenação de Dilma. Pelo menos durante os próximos dois dias. Trata-se de um pacote que prevê investimentos da ordem de R$ 1,59 trilhão, entre 2011 e 2014. Verbas direcionadas para projetos sociais em áreas delicadas como saúde e habitação.

Mas as declarações de hoje do próprio presidente sugerem que tudo ainda é mera promessa. Ao lançar o PAC2, Lula admitiu que na primeira etapa o governo concluiu bem menos obras do que esperava. Levantamento da ONG Contas Abertas, feito com base nos relatórios do comitê gestor do PAC, revelou que que somente 11,3% dos projetos previstos na primeira etapa do programa foram executados. Traduzindo: somente 1.378 obras foram concluídas.

Acha muito? Pois a previsão atrevida do governo era realizar 12.163 empreendimentos por todo o País em quatro anos. Foi o que Lula prometeu, lá no começo, ainda sem noção da burocracia e das dificuldades de alocar recursos e gerenciar projetos. Os relatórios revelam que pelo menos 54% dessas promessas sequer saíram do papel.

Mesmo assim, o governo lançou o segundo PAC. Na presença de ministros, governadores, prefeitos e parlamentares ansiosos por tirar uma "casquinha", não só financeira, mas também política, do programa. Embora a maioria estivesse bem consciente de que a solenidade de hoje não passava de uma festa de despedida para Dilma. Uma última ajudinha oficial da máquina administrativa à campanha petista.

E aí, engana-se quem pensar que Dilma, a partir de quarta-feira, ficará por sua própria conta e risco, em plena pré-campanha presidencial. Não é o estilo de Lula criar um projeto político e abandoná-lo. Ela não poderá mais aparecer nos palanques ao lado do presidente.

Habilidoso como ninguém, ele certamente dará um jeitinho de continuar impulsionando sua candidata. E sem nenhum temor de sofrer punições da Justiça Eleitoral.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Um aliado incômodo












Depois de uma bem-sucedida parceria que durou oito anos, o PSDB agora não sabe como se desvencilhar do aliado DEM. Abalados com a comprovação das denúncias de mensalão no Distrito Federal - que excluíram do partido seu único governador, José Roberto Arruda - os ex-pefelistas tinham recolhido as bandeiras e já nem falavam mais em disputar a eleição presidencial.


Antes do escândalo, o nome do governador do Distrito Federal figurava entre os mais cotados para a vice do tucano José Serra. Ganhava corpo a ideia de repetir a dobradinha FHC-Marco Maciel, que governou o País por dois mandatos consecutivos.

Até Arruda jogar "panetone" no ventilador. Depois da divulgação dos vídeos com distribuição de dinheiro entre o governador e seus auxiliares, o papo da vice mixou de vez e o DEM até passou a apoiar a tese da chapa puro-sangue do PSDB, composta por Serra e o governador mineiro Aécio Neves.


Agora que tudo indica que Aécio não vai mesmo topar a parada, o presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia, voltou a falar na aliança e na vaga de vice. Até ventilou um nome: o da senadora Kátia Abreu (TO), presidente da poderosa Confederação Nacional da Agricultura.

O perfil da senadora guarda certas semelhanças com o da ex-candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin. Sobretudo na defesa dos interesses da elite produtora. Só que o
jeitão conservador de Sarah foi apontado por pesquisas como um dos fatores que puxaram para baixo a candidatura de John McCain, derrotado pelo superliberal Barack Obama.

Kátia Abreu, por sua vez, defende abertamente as elites ruralistas do País e não esconde a antipatia pelos ambientalistas. Também não tolera os sindicalistas rurais ligados à esquerda, que a apelidaram de "Miss Desmatamento" e a criticam duramente por seu posicionamento contrário à Reforma Agrária.


Mas não é o perfil da senadora do Tocantins que incomoda o PSDB. É o próprio DEM. Depois do mensalão de Brasília, os tucanos já não parecem tão confortáveis com a possibilidade de ter o partido na vice. Tem gente que, mesmo reconhecendo a integridade de Kátia Abreu, avalia que um democrata - qualquer que seja ele - na vice de Serra vai, inevitavelmente, trazer o Arrudagate para as telinhas de TV nos programas do guia eleitoral dos adversários.

O problema é que o DEM sempre foi leal ao PSDB, nos bons e nos maus momentos do governo FHC. E continua tão fiel que, ao anunciar a disposição de brigar novamente pela vice, Rodrigo Maia deixou claro que o partido não criará dificuldades para os aliados.

O que torna ainda mais difícil encontrar uma maneira suave de dizer "não".

sexta-feira, 19 de março de 2010

Acabou o inferno astral?









Há duas semanas, durante um encontro tucano no Recife, comandado pelo presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra, a repórter Sheila Borges, do Jornal do Commercio, ouviu de um aliado de José Serra que o governador é muito supersticioso. Por isso, era capaz de apostar que ele só confirma a candidatura presidencial depois que fizesse aniversário.


Filho de imigrantes italianos e criado no bairro da Mooca, o paulistano José Serra crê em olho gordo, acha que gato preto dá azar e jamais passa por baixo de escada aberta. Além disso, ele acredita que nada deve ser decidido nos trinta dias que antecedem a data de aniversário. É o que os astrólogos chamam de período de transformação. Mais conhecido como "inferno astral".

Pois bem. Hoje pela manhã, Serra foi despertado pelos familiares ao som de "Parabéns pra você". Tomou café, fez a barba, vestiu-se e foi dar uma entrevista na TV Bandeirantes, marcada com antecedência. Uma vez no ar, pela primeira vez deixou de lado as manjadas respostas evasivas e disparou: "Não estou negando (a candidatura). Estou dizendo que neste momento não vou fazer campanha. Faltam poucos dias".

Se para os mais céticos essa declaração ainda não convence, que tal observar a postura de candidato do governador, quando indagado sobre a escolha do vice? "Essa coisa é para mais adiante. Só vai ser resolvido no fim de maio". Mudou ou não mudou o tom?

Parece que o "inferno astral", enfim, acabou. Não só o de Serra, mas dos tucanos de um modo geral. Afinal, o clima de indefinição estava engessando as articulações do PSDB com os aliados nos Estados, e a cada rodada de pesquisa a coisa ficava mais infernal para o lado da oposição.

No próximo dia 3, o governador paulista deve renunciar ao cargo para ser oficializado candidato. O que acontecerá no dia 10, em Brasília, numa festa há muito preparada pelo partido. E em Pernambuco, é provável que as oposições façam outra festa, no mesmo dia. Mas para comemorar a decisão do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB).

Jarbas condicionou o anúncio da sua decisão de enfrentar ou não o governador Eduardo Campos (PSB) nas urnas à oficialização de José Serra como presidenciável. E graças à hesitação do governador paulista, teve bastante tempo para pensar. Agora, depende do senador acabar ou não com o "inferno astral" das oposições no Estado.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Robalinho rebate críticas

Por Chico Ludermir, do Blog de Jamildo


Em meio a uma pré-candidatura polêmica ao Senado, Guilherme Robalinho (PPS) disse ao Blog de Jamildo que veio para somar em uma oposição ainda indefinida. Segundo o médico, diversos representantes tucanos e do DEM estão migrando para os braços do governo.

Muito criticado pelos próprios aliados por uma candidatura que supostamente dividiria uma oposição que já tem nomes fortes, como os nomes dos dois senadores que devem tentar a reeleição, Marco Maciel e e Sérgio guerra, Robalinho diz que a crítica não tem nenhum sentido.

"Se fôssemos (a oposição) um partido único, teríamos um só candidato, mas somos partidos diferentes e temos ideias diferentes. Lançar meu nome é legítimo. Ilegítimo é achar que um partido aliado não tem o direito de pensar e lançar seus nomes para que surjam novos caminhos", disse.

Para ele o que existe é uma paralisia. "Colocamos o meu nome que tem história", conta Guilherme, que já foi secretário de Saúde de Pernambuco e de Recife nas gestões de Jarbas Vasconcelos.

Em relação a crítica a sua candidatura por parte dos deputados Antônio Moraes (PSDB) e de Miriam Lacerda (DEM), o médico diz "não estou com eles há muito tempo. Talvez o meu nome tenha um peso maior do que possa se prever. Não estou rompendo nem significa que não estejamos juntos amanhã. É uma divergencia momentânea". afirmou.

Quanto ao prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes (PSDB), Robalinho acusa uma indefinição por parte do tucano.

"O prefeito de Jaboatão não vai se definir. Assim, onde não está havendo ideia de oposição não é no PPS", alfineta.

O Blog de Jamildo revelou ontem que o PSB de Milton Coelho e Eduardo Campos anda tão entrosado com o tucano que arrumou um emprego para a filha dele, na secretaria de Habitação de João da Costa.

terça-feira, 16 de março de 2010

Fratura exposta










Dizem os bons manuais de política que uma prática saudável para se galgar espaço é aprender a ouvir e respeitar opiniões discordantes. Espero que assim seja entre os líderes das oposições em Pernambuco. Porque ninguém consegue me convencer que lançar três candidaturas ao Senado - quando só há duas vagas em jogo - é uma estratégia válida para unir os adversários do governador Eduardo Campos (PSB).


Para quem chegou agora: além de Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), o PPS decidiu entrar na campanha ao Senado com a candidatura do médico Guilherme Robalinho. Nada tenho contra o doutor Robalinho, ex-militante de esquerda na juventude e um bom secretário de Saúde nas gestões de Jarbas Vasconcelos. A crítica incide sobre os idealizadores da estratégia. Que vai, isto sim, dividir ainda mais o já fragmentado bloco oposicionista.

Na segunda-feira à tarde, havia no Palácio do Campo das Princesas um indisfarçável clima de comemoração pelo lançamento da nova candidatura adversária. Tudo, claro, no mais absoluto off record. Mas na avaliação de alguns socialistas, as oposições se perderam ainda mais. Ainda nem conseguiram consolidar um candidato a governador e já saem com três postulantes ao Senado.

Mas essa divisão não é de hoje. Há outros caminhos para explicá-la. Um deles é a antiga e persistente resistência do PPS - sobretudo dos seus dirigentes - em apoiar o senador Marco Maciel.

É bom lembrar que, em 2002, quando Maciel disputava o Senado, ao lado de Sérgio Guerra, o PPS inventou a candidatura de Nelson Borges. E no final das contas, só precisou apoiar seu próprio candidato e o do PSDB, deixando o então pefelista na mão. O que não impediu Maciel de sair das urnas como o senador mais votado.


Vale recordar também que, naquela mesma disputa de 2002, Jarbas - que renovaria o mandato de governador - praticamente botou o PPS debaixo do braço, ajudando a garantir a eleição de pelo menos dois deputados federais do partido: Roberto Freire e Raul Jungmann. Em 2006, quando concorreu ao Senado, Jarbas manteve a fidelidade, colocando Freire como seu suplente.

Está mais que clara a boa relação dos pós-comunistas com o PMDB local. Falta é esclarecer ao eleitor essa aversão ao Democratas. Seria porque o DEM é descendente direto da extinta Arena, combatida duramente pelo antigo PCB - na clandestinidade - durante o regime militar? Será possível que esse ranço persista?

Afinal, os tempos mudaram. Hoje, os ex-comunistas, reunidos no PPS, fazem oposição ao governo do PSB em Pernambuco e à gestão do PT em nível federal. E em ambas as esferas, o PPS é aliado do DEM. Por que, então, não assumir essa aliança também em termos eleitorais? É realmente necessário inventar uma nova candidatura a senador para não ter que apoiar o candidato escolhido pela própria aliança?


Sinto pelos que não toleram opiniões contrárias. Mas por mais que eu me esforce, que puxe pela memória e analise o cenário político atual, continuo enxergando na candidatura do PPS mais um grande e claro sinal de divisão das oposições.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O pacificador












Quem danado enfiou na cabeça do presidente Lula que ele tem condições de empunhar a bandeira de grande conciliador do mundo moderno? Mesmo no núcleo duro da Côrte petista, são poucas as pessoas com um perfil tão arrogante e tresloucado a ponto de sugerir posturas dessa natureza ao pé do ouvido do homem.


Há quem diga que Lula exagera na política de boa convivência com governantes "incômodos", como Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia). Mas estes, ao menos, são vizinhos. E há interesses comuns da América Latina que precisam ser defendidos em bloco. Só não precisa tratá-los como se fossem antigos companheiros de militância sindical.


Ao que parece, em termos de política internacional, Lula está decidido a se colocar na história como o maior pacificador do século. Embora dentro do Brasil a guerra social ainda esteja a léguas de um bom termo.

Em novembro passado, por exemplo, ele estufou o peito, mandou às favas os protestos nas ruas e recebeu o presidente recém-eleito do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Que entre outras "pérolas", defende o fim do Estado de Israel, nega o Holocausto e insiste em enriquecer urânio.

Um detalhe: duas semanas antes, haviam passado pelo Brasil os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.


Há cerca de um mês, o presidente brasileiro deu um pulinho em Cuba para visitar o colega Raúl Castro e o ex-presidente Fidel. Não teve muita sorte. Chegou em meio às notícias sobre a morte de Orlando Zapata Tamayo, após 85 dias em greve de fome.

Orlando era um dos 75 "presos de consciência", nome dado aos opositores do regime cubano.
E como Lula reagiu? Nenhum protesto, nenhuma crítica à ausência de direitos humanos. “Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade?”, foi seu comentário, seguido de um intrigante silêncio por parte de algumas entidades civis que, antes de o PT chegar ao poder, eram bastante dadas às passeatas, protestos e gritarias.

Surpresas maiores estavam por vir. Segunda-feira, ao iniciar uma visita a Israel, Lula recusou um convite para colocar flores no túmulo de Theodor Herzl, o fundador do sionismo. Simplesmente disse que não haveria tempo livre na sua agenda.

Que nesta terça prevê uma visita ao túmulo do ex-líder palestino Yasser Arafat, em Ramallah. Exatamente os maiores adversários dos israelenses.
Será que não tinha um único integrante da comitiva consciente o suficiente para soprar no ouvido de Lula que a homenagem a Herzl seria de bom tom?

Os resultados da gafe diplomática foram imediatos. O ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, simplesmente boicotou o discurso de Lula no Knesset, o Parlamento israelense. E de quebra, não participou do encontro entre o presidente brasileiro e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.


Para quem se pretende um grande estadista, Lula até agora só sugeriu uma única "receita" para promover a paz: um jogo de futebol - em "território neutro" - entre as seleções israelense e palestina.

Não é tão simples assim, presidente! São décadas de lutas por território, envolvendo crenças religiosas consolidadas há séculos. Não se resolve batendo bola. Embora fosse muito bom que as rivalidades no Oriente Médio fossem tão "importantes" para o mundo quanto uma simples briga de torcidas entre a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde...

quinta-feira, 11 de março de 2010















Cavaleiros sem cabeça

A situação das oposições em Pernambuco é realmente digna de pena. Não apenas porque estão fragilizadas. Ou por terem sido atropeladas pelo rolo-compressor governista. A penúria deve-se, mais do que nunca, à hesitação dos caciques em formalizar suas candidaturas.

Os oposicionistas estão prontos, armados até os dentes para sair em campanha. Mas lhes faltam as cabeças. Afinal, é praticamente impossível formatar um discurso eleitoral sem citar os candidatos a governador e a presidente da República.


Todo mundo sabe que o governador José Serra (PSDB) e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) serão candidatos a presidente e governador, respectivamente. E a demora de Serra em oficializar sua candidatura pode até ter seus motivos. Assim como Jarbas tem lá os seus. O problema é convencer os aliados, que já começam a perder a paciência, publicamente.


A ironia da situação é que o primeiro a protestar contra a hesitação de Serra foi exatamente Jarbas. O senador se mostrou incomodado com o fato de as oposições estarem sendo "atropeladas" pelas candidaturas da ministra Dilma Rousseff (PT) e do governador Eduardo Campos (PSB), ambos em plena campanha.


Mas em vez de as queixas surtirem efeito, Jarbas foi obrigado a botar o pé no freio. Ontem, depois de ser informado que Serra só planeja se declarar candidato no último dia do prazo de desincompatibilização, 3 de abril, o senador se viu obrigado a esperar que o cacique tucano quebre o silêncio.

A explicação, Jarbas já deu: uma candidatura a governador não deve ser movida apenas por motivos paroquiais. Precisa ter um respaldo nacional. E a aliança Serra-Jarbas já é uma velha conhecida dos pernambucanos.


É fato que a candidatura de Jarbas é a única opção viável para que as oposições no Estado consigam fazer alguma frente ao trator pilotado por Eduardo Campos. Que, em pouco mais de três anos, neutralizou - parcial ou completamente - os palanques de oposição em vários municípios pernambucanos.

Em tempos de crise, foram todos atraídos pelo guarda-chuva palaciano e seu link direto com o governo Lula.
E como se não bastassem as deserções, a oposição ainda pena com a antecipação da campanha. Vista com a maior das complacências pela Justiça Eleitoral.

Nem a gritaria dos opositores nas tribunas, nem as várias ações impetradas por eles nas devidas instâncias sensibilizaram os magistrados a punir as "campanhas micaretas". Aquelas feitas fora de época.


E não é porque os juízes são partidários de um ou outro candidato. Essa é uma crítica fácil, que poupa os mais "ofendidos" de olhar para o próprio umbigo.
O que acontece, na verdade, é que eles estão, simplesmente, seguindo o que manda a legislação eleitoral.

Uma legislação com mais buracos que tábua de pirulito, que foi elaborada pelas mesmas pessoas que hoje protestam. E que se recusam a fazer a necessária reforma política.


E como a lei é feita para todos, se o cenário de hoje favorece os governistas, paciência. A vantagem do jogo eleitoral já esteve, no passado, com quem agora está na oposição.


sexta-feira, 5 de março de 2010











Vidraça petista

Antes mesmo de começar a campanha eleitoral propriamente dita, setores menos amistosos do PT, digamos assim, já investem com fúria cega contra a imprensa. Um artigo publicado há alguns dias no site do partido serve como exemplo. Nele, são transcritas várias críticas negativas feitas à candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) durante o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, do Instituto Millenium.

Não importa que elas tenham sido formuladas por reconhecidos adversários do partido. Serviram de mote para generalizar os ataques à "grande mídia golpista" – adjetivo usualmente aplicado, de boca cheia, por alguns petistas.

E antes que apontem, eu mesmo admito: sou corporativista. Talvez não tanto quanto os petistas. Eles bem sabem que anti-éticos e corruptos existem em todos os segmentos, mas também sabem que é preciso sair em defesa dos profissionais éticos e honestos contra as generalizações.

O que esses segmentos mais radicais esquecem é que o PT só é o que é hoje graças, em parte, à "grande mídia". Antes mesmo de o partido ser fundado, jornalistas sérios enfrentavam as investidas dos censores da ditadura para noticiar as movimentações do chamado “novo sindicalismo” do ABC paulista, e sobretudo a sua estrela maior, o então líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi essa mesma “grande mídia” que divulgou para todo o País as mobilizações democráticas do início dos anos 80. Quando o recém-fundado PT ainda era classificado por assustados reacionários como "um bando de radicais de ultra-esquerda", entre outros adjetivos ainda menos corteses.

Lembro que quando comecei a exercer o jornalismo, há pouco mais de duas décadas, os conservadores bradavam das suas tribunas que as redações dos jornais estavam repletas de comunistas e petistas. Hoje, a mudança é dramática. São os petistas que sobem às suas torres para enxergar nas redações uma “corja” de liberais e conservadores.

Mudaram as redações ou mudou o PT?

Do meu posto de observação pessoal, não tenho dúvidas de onde se deu a mudança. Mas como não sou dono da verdade, prefiro que os “mudados” continuem erguendo suas vozes. Só gostaria de lembrar que, mesmo depois de ascender ao poder – graças a uma extrema do guinada no discurso de esquerda – as ações positivas do governo petista têm sido amplamente divulgadas pela “grande mídia”.

Claro, as críticas negativas também são exploradas. E até com maior peso que as boas ações. Talvez porque, ao longo de pelo menos 22 anos, tenhamos assistido à dura oposição feita pelos petistas a quem quer que ocupasse o poder. Mas, como se sabe, passar da condição de pedra à de vidraça é uma mudança um tanto traumática. O discurso crítico fica arraigado na cabeça, e é preciso, às vezes, descarregá-lo sobre alguém.

Nem todo mundo supera isso com tamanha facilidade como fez, por exemplo, o líder maior do PT. Desde que virou vidraça, Lula tem recebido com surpreendente parcimônia as críticas publicadas pela “grande mídia”. Via de regra, mostra domínio e equilíbrio diante delas. E nas raras vezes em que perde a paciência, no máximo declara em público que não lê mais os jornais.

Lula representa bem o PT moderno. A chamada “nova esquerda”. Não é bairrista, não vê mais teorias da conspiração nem investidas burguesas contra o proletariado. O inverso é que custa a ser verdadeiro: lamentavelmente, nem todo petista conseguiu incorporar o estilo “paz e amor” do seu próprio presidente. Quem sabe se voltarem por um tempo à condição de pedra eles não começam a preservar um pouco mais as vidraças?

terça-feira, 2 de março de 2010













Cegos no tiroteio


O PSDB ainda não se recuperou do susto provocado pelos números da pesquisa Datafolha de domingo passado. A queda de quatro pontos sofrida pelo presidenciável José Serra (37% para 32%) e o crescimento de cinco pontos da petista Dilma Rousseff (23% para 28%) gerou um sentimento semelhante ao pânico no estômago dos tucanos. E só aumentou a o sentimento de desorientação.

Essa deve ter sido, inclusive, a sensação experimentada ontem pela cúpula tucana durante a reunião e o almoço no gabinete do senador Tasso Jereissati (CE). Onde o cardápio, certamente, deve ter tido ingredientes da cozinha mineira.


É que depois de Serra perder a sua principal opção de vice - o governador José Roberto Arruda (DF), preso por corrupção - que sacramentaria a aliança com o DEM, ficou sem alternativas para compor a chapa. E agora enfrenta dificuldades dentro do seu próprio partido para conseguir um companheiro de disputa.

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, cuja pretensão era concorrer ao Planalto - e não ao Jaburu - continua se descartando. E Tasso Jereissati, segundo gente do próprio PSDB, também não estaria muito a fim de trocar o elevador da reeleição para o Senado pela escadaria da corrida presidencial.


Nos últimos dias - e principalmente após a pesquisa Datafolha - a pressão sobre o tucano mineiro triplicou. Mas ele não arreda o pé de disputar o Senado. Estrela das festividades do centenário do seu avô, Tancredo Neves, esta semana Aécio recebe praticamente toda a constelação da oposição nacional em Minas Gerais. Imagine a quantidade de pedidos que vai ouvir para compor a chapa?

Se Aécio ceder, Serra pode até ganhar um fôlego extra, levando em conta a boa aceitação que o colega mineiro tem lá pelas bandas do Sudeste. É o governador melhor aprovado no País, tem poucas arestas com as esquerdas e, de quebra, possui uma imagem bem menos desgastada que a do colega paulista.


Mas Aécio quer, mesmo, é a vaga de presidenciável. Se fracassa essa opção, onde os tucanos vão buscar o vice? No PPS, terceiro aliado nas oposições, não há alternativas com densidade.

A solução caseira, que já chegou a ser ventilada antes, seria manter a chapa puro-sangue, com o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra. Mas desde a primeira vez que ouviu a sugestão, o pernambucano - como se diz no seu Estado natal - correu léguas de distância.


Na verdade, ninguém da oposição esperava os números que a pesquisa revelou. Por mais que insistam tratar-se apenas de um "cenário de momento", basta pegar lápis e papel e traçar dois gráficos, baseados nos índices das últimas sondagens, para o frio na barriga voltar a assustar. A curva de Serra é absolutamente decrescente, enquanto a de Dilma parece mais a ladeira da Misericórdia. Para quem não conhece, é a subida mais íngreme da Cidade Alta de Olinda.


O fato é que a oposição esperou demais. Fosse por uma decisão de Serra, fosse pela queda de Dilma nas pesquisas. E nenhuma das duas aconteceu. A presidenciável petista subiu e o governador tucano não se decidiu em tempo hábil para botar o bloco na rua.

Agora, vai ter que fazer isso às pressas. A expectativa é de que ainda esta semana - na tentativa de recuperar terreno perdido para os petistas - o PSDB anuncie, formalmente, a pré-candidatura de Serra. Só precisa conseguir, dentro de toda essa adversidade que se criou pós-carnaval, encontrar quem aceite a vice. De bom grado.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010












Ó quarta-feira ingrata!

A folia acabou. A partir de agora, como reza a tradição, as coisas começam a funcionar de verdade no Brasil. Inclusive este blog. Assim como as campanhas eleitorais, cujo prazo oficial, previsto apenas para julho, é mera retórica legal.

E não é que a “quarta-feira ingrata” trouxe uma surpresa ainda mais desagradável para os tucanos? Segundo o Ibope, a presidenciável governista Dilma Rousseff (PT) subiu mais oito pontos, enquanto o até agora favorito José Serra (PSDB) caiu dois.

Não é nada, não é nada, mas pode gerar alguma instabilidade nas oposições.
É bem verdade que Serra continua liderando com folga a corrida presidencial. Também é verdade que ele vence Dilma na simulação de segundo turno.


O que a nova pesquisa pode provocar de imediato – sobretudo se vier acompanhada de outras que confirmem o resultado – é uma propagação maior de uma tese que vem sendo comentada já há algum tempo.

Segundo as más línguas – e digo “más” porque creio que a boataria tenha partido, sim, do lado governista – o governador paulista estaria apenas aguardando a consolidação dessa onda de queda nas pesquisas para anunciar sua candidatura. Mas não ao Planalto, e sim à reeleição para o governo de São Paulo. Essa, sim, é dada como favas contadas.

É óbvio que os tucanos, oficialmente, rechaçam com força a possibilidade de Serra vir a ser substituído de última hora pelo governador mineiro Aécio Neves. Argumentam que Aécio já está fora do páreo, candidatíssimo ao Senado ou, quem sabe, a uma vice do próprio Serra, numa chapa pão com pão.

Nos bastidores, porém, o PSDB lê com atenção as pesquisas internas, principalmente aquelas que indicam Aécio como o adversário mais temido pelo Planalto. Só não vão revelar nada disso no momento.

Mas ninguém duvide que, passado o Carnaval, as coisas comecem a mudar de figura. É aguardar as próximas pesquisas para checar. Mas já há, mesmo entre os tucanos, quem aposte que a candidatura presidencial de José Serra não sobreviva até o fim da quaresma.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010












Prazo de validade *

O PMDB continua o mesmo: um balcão de negociações que garantam aos seus filiados um naco de espaço no poder, não importando quem o exerça. E foi o que aconteceu na convenção nacional do partido, sábado passado, quando os setores ligados ao presidente Lula trataram de rifar todos os que se opunham à aliança com a presidenciável Dilma Rousseff (PT).

As articulações para garantir ao partido a vice na chapa de Dilma revelam que a palavra “democrático”, no PMDB, está cada vez mais limitada à sigla. O aval à aliança com os petistas foi uma decisão tomada de cima para baixo, isolando os diretórios de São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina e Paraná, contrários ao acordo.

Os paranaenses – liderados pelo governador Roberto Requião – alimentam a olímpica tese de candidatura própria. Os outros três núcleos defendem o apoio a José Serra (PSDB).


Não é a primeira vez – nem deverá ser a última – que o PMDB vende caro seu passe. Nos governos Collor, Itamar Franco e, sobretudo, FHC, a legenda sempre utilizou seu peso político para barganhar a ocupação de cargos. Uma espécie de “norma branca”, não incluída no estatuto partidário.

Como bem lembrou, certa vez, o ex-deputado federal Egídio Ferreira Lima – um dos fundadores do partido, na década de 60 – o PMDB foi criado sob permissão da ditadura militar para abrigar toda a oposição, mas perdeu sua razão de existir após a redemocratização. Desde então, vem servindo apenas aos interesses políticos dos grupos que o controlam. O resultado da convenção é apenas mais do mesmo.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC - 08/02/10

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010











Telequete eleitoral

Mesmo em férias, não pude deixar de registrar meu espanto com as últimas trocas de farpas entre petistas e tucanos. Aliás, entre os principais caciques nacionais dos dois partidos.

O exemplo dado pelo presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra – e respondido “à altura” pelo presidente Lula – deixa uma sensação de que a campanha que se aproxima promete pouca cortesia e muito chute na canela.

Da trincheira da oposição, Guerra chama, abertamente, a presidenciável do PT Dilma Rousseff de “mentirosa”. Do outro lado, Lula classifica o tucano de “babaca” em plena reunião ministerial, e a cúpula petista faz coro ao apelidar o senador de “jagunço de José Serra”. (leia aqui)

Se, ainda em janeiro, os chamados grandes líderes da sociedade já esqueceram completamente o fair play e partiram pro dedo no olho e – se me permitem – joelho no saco, calculemos o que virá por aí ao longo do ano.

E depois reclamam de desinteresse por parte do eleitor...

É só. Até fevereiro!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009











De boca fechada


Na ânsia de ser mais realista do que o rei, o senador Aloísio Mercadante (PT-SP) perdeu uma oportunidade de ficar calado. Em vez de fustigar os adversários tucanos, seguindo o exemplo do presidente Lula, seu líder maior, o bairrista Mercadante resolveu criticar um aliado, o deputado e presidenciável do PSB, Ciro Gomes. Como resultado, criou um caso desnecessário na base governista.


Aloísio Mercadante está inserido no grupo do PT paulista que não digeriu a transferência do domicílio eleitoral de Ciro Gomes, do Ceará para São Paulo, a pedido do próprio Lula. Ontem, em entrevista à Rádio Jornal, ele caprichou na ironia ao afirmar que Ciro, nascido em Pindamonhangaba (SP), "pegou o pau-de-arara ao contrário" ao se transferir para o Ceará.

Além da extrema grosseria com o aliado e de gerar a ira dos socialistas, a referência ao caminhão pau-de-arara soou como mais um sinal de preconceito de um paulista contra os nordestinos. É verdade que o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva migrou de pau-de-arara para São Paulo, onde lutou muito, fez carreira e chegou à Presidência da República. Mas não foi o suficiente para que a expressão deixasse de ser usada de forma excusa pelos nossos compatriotas do Sudeste.

No caso específico, porém, o que Mercadante conseguiu com a declaração "aloprada" - como resumiu o deputado Márcio França (PSB) aliado de Ciro Gomes em São Paulo - foi atrapalhar uma delicada costura de alianças que o presidente Lula vem trazendo na ponta dos dedos. Uma articulação que visa, inclusive, garantir que o próprio Mercadante não passe, em 2010, da cômoda posição de governista para a desconfortável categoria de oposição.

Hoje cedo, depois das repercussões das declarações, Mercadante procurou a Rádio Jornal para desfazer o mal-estar. E piorou as coisas, ao afirmar ter usado o termo "pau-de-arara" como forma de "combater o preconceito". Difícil explicar essa, não? Foi além: elogiou o presidenciável e seu partido e justificou ter ouvido a expressão da boca do próprio Ciro Gomes. Por isso, repetiu.


É fato que a candidatura presidencial do PSB já nasceu fazendo água, diante da força governista de Dilma. Mas Lula, habilidoso, contemporizou, pedindo que Ciro transferisse o domicílio eleitoral para São Paulo como opção para uma eventual candidatura ao governo daquele Estado. E desde então, tem tratado a questão com toda cautela, para não melindrar o PSB, um aliado de primeira linha.

Mesmo que esteja disposto a minar a postulação do socialista - o que pode fazer num piscar de olhos - Lula jamais demonstrou. Nunca tratou a iniciativa com desprezo, desdém ou preconceito. Pelo contrário, tem argumentado que um palanque duplo pode ser útil aos governistas em 2010, até para ajudar a vitória de Dilma Rousseff (PT).

Ontem, enquanto Mercadante largava sua abobrinha, Lula retomava a diplomacia. Em café da manhã com jornalistas, o presidente afirmou que, se perceber que o "jogo político" não comporta dois candidatos da base aliada, será leal o suficiente para negociar com o PSB a retirada de Ciro Gomes. É o máximo que ele, como coordenador do processo sucessório, pode chegar. Faltou dizer isso a Mercadante.

sábado, 19 de dezembro de 2009












Café sem leite

Ao que tudo indica, quem estiver esperando o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, na vice da chapa presidencial do colega paulista José Serra, pode sentar-se para não cansar. Uma leitura atenta das entrelinhas da carta do tucano mineiro, na qual ele anuncia sua desistência de concorrer ao Palácio do Planalto, expõe, sem deixar dúvidas, sua descendência do ex-presidente Tancredo Neves.

Sem citar nomes, nem se mostrar agressivo, Aécio revela uma mágoa grande com Serra, Fernando Henrique Cardoso e o restante da cúpula do PSDB, por não aceitarem a sua proposta de prévias internas, ainda em 2009, para a escolha do presidenciável do partido. O neto de Tancredo também é claro ao sinalizar que não ficará a reboque de Serra, assumindo uma candidatura a vice apenas para dar ao colega paulista a vitória que não aconteceu em 2002.

Na carta, Aécio sequer cita o nome de Serra, e promete apenas trabalhar pelas “bandeiras do partido”. Ora, se a principal delas é o poder central, nada demais fazer campanha para o correligionário. E Aécio fará. Mas em segundo plano. Porque seu maior interesse agora é eleger seu atual vice, Antônio Anastásia, como sucessor, e conquistar, junto com ele, uma vaga no Senado, para a qual – dizem as pesquisas – o governador mineiro é imbatível.

Em sendo assim, a esperada repetição da política do “café com leite” que marcou a primeira República – quando São Paulo, maior produtor de café do País, dividia o monopólio do poder com Minas, principal produtor de leite – não deve mesmo acontecer.

E se isso é ruim para os tucanos, pode piorar.

É que, ciente da indisposição de Aécio de compor a chapa serrista, o Democratas não perdeu tempo. Quer reeditar a vitoriosa dobradinha FHC-Marco Maciel de 1994 e 1998. Ontem mesmo, o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), começou a sinalizar a vontade do partido de pegar uma carona na chapa tucana.


O problema é que, embora tenham se livrado do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que pediu desfiliação do DEM para não ser expulso, os escândalos do mensalão de Brasília, capitaneados por ele, serão certamente protagonistas de programas do horário eleitoral gratuito de rádio e televisão durante a campanha.

Isso torna a presença do DEM na chapa de Serra uma espécie de cavalo de tróia. Se, por um lado, o partido, embora minguando, ainda conta com algum lastro eleitoral, por outro traz na bagagem o fantasma de Arruda. Que pode, ou não, assombrar os tucanos. Mas depois de duas derrotas consecutivas para o PT de Lula, talvez eles não estejam dispostos a pagar para ver.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009












Fair play

Mesmo para os mais céticos – como eu – é preciso reconhecer que há um ar de mudança na política pernambucana. Pelo menos é o que revelam as ações e o discurso do governador Eduardo Campos (PSB). Ao inaugurar ontem o Hospital Miguel Arraes, uma das suas principais promessas da campanha de 2006, ele mandou vários recados aos adversários, mas sempre no tom de crítica elegante. Sem baixar o nível.

Ninguém se engane pensando que as obras inauguradas ficarão fora da campanha do próximo ano pela reeleição. Eduardo vai tirar o máximo de proveito delas. Mas a mudança é exatamente essa. Em vez de criar conflitos e medir forças pela imprensa com a oposição, o governador anda ignorando os ataques dos adversários e tentando mostrar serviço. Assim, arrebanha bônus eleitorais para trocar nas urnas e, de quebra, não enche o saco do eleitor, já saturado de dedos em riste e trocas de agressões, sobretudo quando invadem suas casas no horário eleitoral gratuito.

Resta saber é se esse fair play continuará assim. Afinal, no período de campanha propriamente dita, os ataques ficam liberados – tenham eles fundamento ou não – e aí o sangue ferve, a cabeça esquenta e as pessoas perdem as estribeiras.

Mas por enquanto, ao que parece, a intenção de Eduardo não é essa. Nem a do seu virtual adversário na disputa pelo governo, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). Os dois têm mantido uma política de elegância, embora com recados críticos de parte a parte, mas sem sair da linha.

Uma atitude bem que poderia ser seguida por aliados dos dois lados. A exemplo do deputado Armando Monteiro Neto (PTB) e do senador Sérgio Guerra (PSDB), que disputarão o Senado no próximo ano, mas já anteciparam a briga.

Os dois políticos têm ocupado largos espaços do noticiário nos jornais e rádios – e aí vai uma autocrítica – para se atacar mutuamente. E num nível que deixa muito a desejar.

Todo o clima quente se deve às pesquisas realizadas nos bastidores, para consumo interno. Elas têm indicado que Monteiro e Guerra estão na briga por uma das vagas no Senado. A outra, em tese, deve ficar com o senador Marco Maciel (DEM). Que, sem mover uma palha para brigar com ninguém, nem reagir a qualquer ataque, vai consolidando uma invejável longevidade no poder. O que prova que nem sempre as agressões levam à vitória.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009















Tudo a ver com 2010*

Não é novidade que o ex-prefeito João Paulo se afastou do atual prefeito, João da Costa, contrariado com algumas decisões tomadas por ele na PCR. Embora ciente de que o ex-padrinho político foi o principal responsável pela sua eleição, o prefeito já tinha advertido que não seria apenas um continuador da gestão de João Paulo. Pretendia impor sua marca própria.

O troco do ex-prefeito – e potencial candidato petista ao Senado – veio rápido. Ele descartou João da Costa do seu núcleo decisório, agora formado apenas pelos ex-secretários Lygia Falcão e Múcio Magalhães, e o isolou dentro da corrente que lidera no PT.

A iniciativa, porém, pode render a João Paulo um duro revés. Antenado com os acontecimentos, o secretário estadual das Cidades, Humberto Costa, não esperou a briga esfriar para ir buscar uma aproximação com o prefeito. Iniciou um “namoro” visto no próprio PT como inusitado. Afinal, João da Costa era o maior pupilo de João Paulo. E, como se sabe, o ex-prefeito e o secretário comandam grupos rivais, que há anos disputam a hegemonia do partido.

Nas últimas semanas, Humberto fez vários acenos em direção ao prefeito, elogiando sua gestão, classificando-o como uma liderança emergente no PT e aparecendo publicamente ao seu lado.

Agindo assim, além de atrair para o seu grupo um bom potencial de votos metropolitano, Humberto – que também não descarta uma candidatura de senador – enfraquece a corrente de João Paulo. Que tem no Recife sua principal base de sustentação.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 14/12/09


sábado, 12 de dezembro de 2009












A céu aberto

Depois das denúncias contra o governador José Roberto Arruda, será que há tempo para mais um escândalo no País ainda este ano? A pergunta tem lógica, se levarmos em consideração a quantidade de sujeira desencavada ao longo de 2009.

Quem se arriscar a fazer comparativos dos escândalos a cada ano, envolvendo a classe política, verá que o número cresce substancialmente, enquanto o nível dessas denúncias desce vertiginosamente.

Entidades ligadas à transparência, à ética e à moralidade se esforçam, mas nem elas conseguem acompanhar todos. O mesmo acontece com os órgãos institucionais de controle, como Ministério Público, Controladoria Geral e Polícia Federal.

Aliás, é sobre o Ministério Público do Distrito Federal que recaem as derradeiras denúncias da semana. A revista Época traz reportagem revelando que procuradores e promotores são investigados no inquérito da Operação Caixa de Pandora – o mesmo que pegou Arruda – por suspeitas de corrupção.

Em alguns momentos, a gente termina sendo levado a imaginar se vai sobrar alguém íntegro num País tão necessitado de ética e moral. Esta semana, o presidente Lula decidiu que corrupção tem que passar a ser tratado como crime hediondo.

Lula demorou quase oito anos de mandato para vir com o mais puro proselitismo político. Já existem no Congresso Nacional vários projetos tentando classificar a corrupção como crime hediondo e inafiançável.

E ele sabe disso. Assim como sabe que sua proposta requentada não tem chances de passar nas votações em plenário, numa Casa de corporativismo onde muitos dos autores desse “crime hediondo” – vários deles aliados do presidente – continuam livres para cometê-los.

Sendo benevolente, talvez ao promete classificar a corrupção como crime hediondo, Lula possa ter imaginado tirar Brasília do esgoto a céu aberto em que está afundada. Mas a missão é tão árdua quanto a promessa que ele fez esta semana, lá pelas bandas do Maranhão, de tirar o povo pobre da merda.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009















De olhos bem abertos

Ontem foi o Dia Internacional contra a Corrupção. Até quis escrever sobre o assunto, mas o excesso de atividades impediu. Talvez tenha sido melhor, porque assim pude aguardar informações sobre as manifestações pelo País acerca do tema, tão importante nas vidas dos cidadãos.


A frustração, porém, foi total. Pouquíssimas notícias a respeito foram publicadas nos meios de comunicação. Quase nenhum debate. Da parte de políticos, mesmo aqueles que integram frentes de combate à corrupção, não vi nada.


Um registro, apenas, foi feito por funcionários dos órgãos de controle e fiscalização – Ministério Público e Controladoria Geral – que distribuíram panfletos ao povão em pontos de concentração no centro do Recife. Foi o máximo que encontrei nos jornais de hoje.


O que essa indiferença leva, forçosamente, a pensar? Que dinheiro público metido nas cuecas e meias de políticos e servidores tornou-se rotina? Que construir castelos não declarados à Receita Federal virou prática aberta? Que pagar propina a legisladores para aprovar projetos é a única forma de garantir a governabilidade? A apatia sugere que atos assim já não surpreendem, nem causam mais indignação a ninguém.


Num País como o Brasil, uma data como essa de ontem – por mais que seja apenas um dia – deveria gerar grandes debates, atos públicos, manifestações da sociedade civil. Começo a crer na acomodação pura e simples. Ou pior, na rendição.


Como que por encomenda, duas semanas antes da data – acordada por 110 países, no México, como forma de implementar ações de combate à corrupção em nível global – um novo caso explodiu nas telas de todo o Brasil. Um respeitável governador, até cotado para disputar a Vice-Presidência da República, flagrado num ato de corrupção ativa, daqueles de arrepiar os cabelos.

O tal governador deve ser expulso do partido amanhã. Pode até sofrer impeachment. Mas o grave é que o caso é “apenas mais um”, uma reprise de outros tantos. Sem ir longe, alguém ainda lembra do vídeo com o funcionário dos Correios recebendo uma propina de três mil reais? Aquele que deu origem ao escândalo do mensalão, envolvendo o governo do PT.


De lá para cá, vários outros vídeos e gravações clandestinas fizeram a festa dos caçadores de corruptos. E também dos demagogos de plantão. Mas e a população? Onde estão as grandes manifestações de rua, passeatas, atos públicos? Todos estão cansados, ou passaram a conviver com a esbórnia de dinheiro público como algo normal na rotina do País?


Em sendo assim, para quê precisamos mais de frentes de combate à corrupção? Ou de órgãos fiscalizadores? Ou mesmo de Justiça?


Graças a Deus, para alguns poucos, continua sendo difícil engolir tantos sapos. E, simplesmente, colocar a cabeça sobre o travesseiro e fechar os olhos à toda essa sujeira.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009















Cultura da permissividade

Combinada previamente ou não com o governador Eduardo Campos, a saída do secretário de Turismo Sílvio Costa Filho da equipe era inevitável. As denúncias de superfaturamento de shows e de eventos-fantasmas, bancados pelos cofres públicos – ou seja, dinheiro do contribuinte – tomaram uma proporção tamanha que ficou difícil de explicar.

E as explicações que vieram até agora da Secretaria de Turismo e da Empetur não convenciam ninguém. Vai ser preciso mais que isso. Uma investigação profunda dos órgãos competentes, até que alguém possa ser inocentado definitivamente.

O fato é que a permanência de Silvinho no cargo ameaçava se transformar num verdadeiro arsenal para municiar a oposição em pleno ano eleitoral. E Eduardo Campos sabe bem o que é isso.

Ainda está bem viva a lembrança do caso dos precatórios, transformado em escândalo pela então oposição ao governo Miguel Arraes em 1998, que se configurou na principal arma contra a tentativa de reeleição do governador naquele ano.

Não dá para repetir velhos erros. Cabeças precisavam rolar. E rápido. O governo estava na fogueira há uma semana, com as labaredas das denúncias cada vez mais altas.

Daí a se instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembléia Legislativa, para investigar o caso dos shows, é outra conversa. Nem a própria oposição está fechada em torno da proposta. CPI em ano eleitoral é um perigo para os políticos investigados e um prato cheio para quem investiga. Em todas elas, sempre há holofotes demais.

Mas quem vai decidir o assunto não são os adversários do Palácio do Campo das Princesas. Uma comissão como essa só será aprovada se o governador assim desejar. Com ampla maioria na Casa, Eduardo já avisou aos aliados que só permitirá a investigação se ela abarcar, também, as ações na área de cultura da administração anterior, comandada pelo seu arqui-rival Jarbas Vasconcelos. Assim, pretende rebater de pronto qualquer tentativa de eleitoralizar o caso.

Em 2002, no final do seu segundo mandato, Jarbas – então com larga maioria na Assembléia – tratou de abafar a tentativa de criação de uma CPI da Cultura, proposta pelo PT, com o apoio dos socialistas. Assim como agora, era ano eleitoral. Na época, teve até deputado governista se arriscando a assinar, mas a pressão foi tanta que os “assanhados” foram obrigados a recuar e retirá-las. No final, não houve número necessário de assinaturas para votar a proposta.

A dificuldade de se investigar denúncias nessa área, aliás, só vem a confirmar o que já se sabe: a cultura, no setor público ou privado, é um dos ambientes mais permissivos aos gestores – sejam eles honestos ou não. Há inúmeros incentivos governamentais para a liberação de verbas para projetos, e uma certa frouxidão nos instrumentos de fiscalização e prestação de contas.

Afinal, ao contrário de outras áreas mais “palpáveis”, cultura não se quantifica. E não existem tabelas para pagamento de cachês aos artistas. Uma grande brecha para a malversação de recursos. Mas isso, só quem pode provar é a Justiça.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009















Sinais dos tempos


Para quem já foi o maior partido governista do País durante muitos anos, o desfecho melancólico da gestão do único governador do DEM, José Roberto Arruda, é um sinal de alerta à legenda. A surpresa não foi apenas a constatação de corrupção no bem avaliado governo do Distrito Federal, mas o método utilizado.


Afinal, que diferença faz colocar dinheiro nas meias ou na cueca, como recentemente fizeram filiados do PT no chamado escândalo do mensalão, em 2005? Escândalo, aliás, que municiou o DEM nos ataques à gestão petista.


Mas quando tudo se nivela por baixo – trágica constatação da atual política brasileira – o que fazer?


Quando ainda eram PFL, os dirigentes partidários já sentiam as dificuldades da evolução dos tempos. A solução encontrada foi trocar a sigla e adaptar os programas. O velho partido foi buscar na juventude a sua nova bandeira, na tentativa de se firmar como oposição.


Mas antigos vícios continuavam assombrando o Democratas. Dispostos a se tornar o principal partido adversário do governo do PT, eles não conseguiram deslanchar. O longo tempo vivido nas bases governistas dificultava o novo cenário.


Afinal de contas, o DEM é governo na sua essência. O partido deriva da antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena), criada pela ditadura militar – a partir da imposição do bipartidarismo – para hospedar os seus apoiadores. Com o declínio do regime e a restauração das liberdades partidárias, transformou-se no PDS, mas se manteve na base de sustentação do governo.


Veio a redemocratização, e com ela um racha entre os que defendiam o status quo e aqueles que enxergavam um comprometimento fatal da ditadura. Estes pularam do barco para criar a Frente Liberal, aliaram-se ao PMDB e ajudaram a garantir a vitória do peemedebista Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Surgia o PFL. Ainda de perfil governista.


E foi sob essa sigla que os hoje democratas apoiaram as gestões de José Sarney (PMDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Numa conta rápida, são duas décadas de governos militares, mais cinco anos de Sarney e oito de gestão tucana. Ao todo, o partido permaneceu cerca de trinta anos no poder.


A vitória de Lula em 2002 teve o esperado efeito de uma bomba sobre o DEM. Nos últimos sete anos, a legenda tentou a todo custo encontrar seu caminho como oposição. Mas o bastão foi abarcado antes pelos tucanos.


Destronado pelos petistas, o PSDB não teve o mesmo problema dos aliados democratas. Seus fundadores traziam na bagagem a experiência da oposição no MDB e PMDB, sigla que deu origem à legenda social-democrata.


Agora, além das dificuldades impostas pela redução no tamanho, o DEM chega à encruzilhada da corrupção entre seus pares. Atos que eles próprios denunciaram sobre os petistas.
A única solução, depois de tudo, para que o partido garanta alguma chance de sobrevivência nas eleições do próximo ano é cortar na própria carne – já bem franzina – expulsando o seu único governador, protagonista do mensalão planaltino.