sexta-feira, 30 de abril de 2010

A perversa lógica de se negar a política


















Vinícius Werneck B. Diniz
www.papopolitico.com.br


Muita coisa aconteceu entre a famosa frase de Aristóteles configurando o homem como um animal político (politikon zoon) e os recorrentes estudos científicos que tentam explicar a descrença generalizada com relação à política. Em muitos contextos, conversar sobre política proporciona interessantes contrações faciais nos ouvintes, sutilmente desaprovando a emergência de tão desagradável tópico.

Ter um filho político tornou-se algo que algumas famílias procurariam esconder. Nas recentes pesquisas acadêmicas têm-se notado um fenômeno interessante: além dos clássicos personagens frequentemente encarnados pelos candidatos – o gerente, o pai de família, o zeloso, o self-made man -, criou-se a figura do técnico. A característica mais notável dessa persona encontra-se no fato que ele se considera livre de qualquer politicidade. O candidato escolhe para si a imagem da frieza técnica, de alguém que encontra um problema e sabe o que fazer para consertá-lo. Chega ao extremo de dizer que não é político nem pretende sê-lo, como se a política fosse o lugar que deve ser negado.

Negar o reino da política não é uma postura sem prejuízos: ela favorece uma lógica perversa, que, por vezes, afasta da participação aqueles realmente interessados no bem comum. Cada cidadão que abdica da participação política por considera-la improdutiva ou mesmo negativa, certamente está tornando mais fácil o caminho para aqueles que se aventuram na política institucional para favorecimento próprio.

Participamos da política diariamente, sem percebermos. Estamos atuando politicamente quando nos relacionamos com os vizinhos, quando decidimos saber ou não o nome do porteiro, quando enviamos um telegrama a uma família conhecida que acabou de enterrar um dos parentes. Somos políticos quando precisamos resolver como organizar o almoço de arrecadação de fundos de uma igreja – ou quando queremos justamente impedir que alguém se case na igreja. Somos políticos quando conversamos em família para decidir onde serão passadas as próximas férias – e também o somos quando decidimos unilateralmente e notificamos os demais familiares.

Política, não sem motivo, vem da raiz polis, que significava cidade na antiga grécia. Foi após a formação das cidades – à época unidades com grande autonomia – que surgiu também o conceito polites (cidadão). As palavras inglesas politics, policy e police têm todas a mesma origem grega no termo polis. A língua portuguesa traduz politics e policy em apenas uma palavra: política. Quando dizemos “qual a política do condomínio em relação a animais?” estamos nos referindo a policy (também usado na expressão “políticas públicas”). Quando falamos sobre política como a ciência de governar (Aristóteles), ou mesmo em um sentido mais amplo, que envolva as atitudes cotidianas dos cidadãos comuns, estamos utilizando o conceito politics. Police, contemporaneamente traduzido como polícia, foi, durante um tempo, intercambeável com o termo policy. Manter a ordem era afinal, uma política pública, e essa política (policy/police) ia para a rua tomar forma.

E o que não é a política, se não nossa prática de convivência diária na polis? Considerar-se alheio ao processo político – além de pouco produtivo para a melhoria das condições coletivas – é também uma ação política. É uma ação política, por que possui resultados coletivos, implicações amplas e é, em última instância, exercício de liberdade individual. Não é necessário que todos se obriguem a participar da política partidária, mas certamente demonizar essa ou qualquer esfera da práxis política só favorece aos espertos interessados em garantir tranquilidade financeira às custas do erário público.
Florestan Fernandes

Mitos como o de se autopropalar apolítico ou não-ideológico são muitas vezes favoráveis à manutenção do status quo. Gramsci citava constantemente uma frase de Marx, defendendo que “a teoria se transforma em poder material tão logo se apodera das massas”. Independente de qualquer juízo de valor sobre as teses gramscianas, é bastante consensual que conhecimento tem grandes conexões com poder. Manter a população minimamente satisfeita é uma estratégia utilizada em Roma (Panis et circenses), propagada por Maquiavel (“O Príncipe”), denunciada por Florestan Fernandes (“Sociedade de classes e subdesenvolvimento”), analisada por Robert Dahl (“Poliarquia”) ad aeternum. Isso não impediu que o século XXI fosse um espectador da mesma forma ingênua de dominação de poucos sobre uma maioria.

Perceber-se como um ser ideológico e político veste de legitimidade as posições individuais, mesmo aquelas de afastamento voluntário da participação política institucional. Se já é difícil decidir qual filme ver no cinema, quando a outra pessoa se recusa a opinar, imagine a complexidade de cuidar de um país inteiro, ou mesmo uma cidade ou condomínio.

Churchill disse da democracia: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais.” Da mesma forma podemos dizer da política ou da ideologia: ninguém diz que a busca coletiva para o bem comum, o debate, a discussão de ideias ou a dialética são perfeitas ou sem defeito. São, talvez, as piores opções – depois de excluir todo o resto. Talvez uma alternativa ainda esteja por ser inventada. Mas, certamente, o inventor precisará da política, do debate e da dialética para convencer o resto do mundo que eles estão de costas na caverna de Platão.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Líder de quem?















Em época de eleição, fica difícil fazer justiça ao presidente Lula sem incorrer no risco de ser acusado de partidário. Quero deixar claro que não sou, nunca fui e não pretendo ser partidário do petismo. Aliás, nos dias de hoje, me custaria muito manter simpatia por qualquer partido ou político brasileiro.


Mas quando um presidente de um país sofrido como o Brasil é listado por uma das maiores revistas do mundo, a norte-americana Time, entre os 25 líderes mais influentes do planeta, vêm à cabeça, de imediato, dois exercícios de reflexão: primeiro, uma
retrospectiva dos últimos sete anos e meio da gestão Lula. E em seguida, uma comparação com o trabalho dos administradores que o antecederam. Daí, surge a pergunta: o que mudou tanto no Brasil de hoje?

Não se trata de discorrer sobre a política econômica, a elevação do PIB e do nível de emprego e renda, ou mesmo a melhoria da imagem do país lá fora. Coisas que estão na ponta da língua de qualquer técnico ou parlamentar petista. Gostaria de avaliar um aspecto mais básico, mas ao mesmo tempo, essencial: o povo está comendo mais, vestindo mais, estudando mais e trabalhando mais do que antes.


Quando me refiro ao povo, falo de Povo com P maiúsculo. Eu mesmo não me incluo nesse grupo, porque tenho raízes fincadas na pobre classe média brasileira, que pouco sentiu os efeitos da atual gestão. Um universo do qual também fazem parte muitos dos que me lêem.

Sem querer usar, mas já usando a péssima classificação adotada por antropólogos, sociólogos, economistas e políticos, falo dos que integram as classes C, D e E no país. Pessoas que há pouco mais de duas décadas ainda trocavam seu voto por tijolos, telhas, dentaduras ou pares de óculos. E antes que alguém diga: ah, agora eles trocam seu voto por um cartão do Bolsa Família, eu mesmo admito. Sim, trocam. Mas ao menos estão trocando por comida.

Não se trata de conformismo, mas de realismo. Quem cobriu inúmeros comícios de Lula, ao longo de cinco eleições presidenciais, deve ter ficado saturado de tanto ouvi-lo propagar seu sonho de chegar ao poder para garantir a cada brasileiro o direito a três refeições decentes ao dia. Parecia um projeto muito pouco ambicioso. Mas só para quem nunca passou fome na vida.


Não se trata de fazer apologia ao presidente Lula. Mesmo porque, costumo levantar muitos questionamentos sobre a condução política dada por ele ao governo, às alianças espúrias que fez para chegar aonde chegou, à relação de barganha que estabeleceu com o Legislativo e o Judiciário e outras questões pouco glamurosas para que é citado como "exemplo de filho da classe trabalhadora da América Latina" no texto da Time. Texto, aliás, muito bem escrito pelo jornalista e cineasta americano Michael Moore, no seu estilo recheado de ironias.

Gostaria apenas de deixar no ar algumas perguntas ingênuas: Por que somente Lula - e nenhum dos seus antecessores - foi capaz de promover tais mudanças na vida dos mais pobres? O que tem de especial nesse político, oriúndo do sindicalismo de porta de fábrica, de pouca instrução e fala incorreta? O que leva um presidente que se comporta ao avesso do que se espera de um estadista, a ser escolhido como um dos principais líderes mundiais?

São questões que qualquer opositor de Lula responderia com a maior facilidade. Só não se sabe se tais respostas - geralmente tiradas de um repertório já bem batido - conseguiriam convencer quem mudou de vida nos últimos sete anos e meio, que saiu da linha de miséria graças aos programas sociais do governo.

De fato, parece que somente uma eleição plebiscitária - como, no fundo, desejam petistas e tucanos - pode esclarecer tudo isso.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Terceira via petista










Embora jamais tenha dado resultado nas eleições em Pernambuco, a tese da terceira via começa a ganhar força novamente. Mas dessa vez, dentro do PT. Isso ficou claro no encontro estadual do partido, sábado passado. Depois do rompimento com João Paulo, o prefeito do Recife João da Costa confirmou, extraoficialmente, que não há mais ambiente para ele na corrente Coletivo de Esquerda Unificado (CEU), liderada pelo seu ex-padrinho político.


O desconforto ficou evidente quando os dois sequer trocaram cumprimentos na plenária petista do final de semana. Do slogan "João é João", cunhado durante a campanha vitoriosa de 2008, não sobrou quase nada. Publicamente, João Paulo tem se referido ao ex-afilhado como "um ilustre desconhecido" que ele ajudou a eleger. Nas rodas mais fechadas, as citações ao sucessor são ainda mais duras. Impublicáveis aqui. Digamos que ele faça menção à palavra traição.


E João da Costa, que até pouco tempo fazia questão de não acusar o golpe, decidiu reagir. Ciente de que não tem condições de passar para o lado de Humberto Costa - líder da Construindo um Novo Brasil (CNB) - sem aumentar a munição verbal do antecessor, parece decidido a construir uma nova corrente.


Logo após o rompimento, João da Costa havia sido indagado se não pensava em montar seu próprio grupo, aproveitando o peso político do cargo, como fez João Paulo. E negou. Disse que preferia concentrar suas atenções na administração da cidade. Mudou de ideia.


Deve ter enxergado que, por melhor gerente que seja, se não tiver um mínimo de influência nas decisões internas do PT isso não valerá muita coisa. Ele não passará de prefeito. Pode ter sido a última das lições do ex-padrinho político. Afinal, os oito anos de gestão bem aprovada no Recife não foram suficientes para garantir a João Paulo a tão sonhada vaga de candidato ao Senado. Mesmo após cinco tentativas fracassadas nas urnas para obter um cargo majoritário, Humberto ficou com a vaga.


No início da campanha de 2008, João da Costa foi chamado de "poste" pelos adversários. Diziam que ele não tinha jogo de cintura, carisma, e era eleitoralmente pesado. O petista mostrou que não era bem assim. Venceu a disputa no primeiro turno e, ao assumir, decidiu carimbar de vez a imagem de independência, livrando-se dos resquícios da administração de João Paulo. Um pacote que incluía auxiliares "herdados" por ele na PCR, que deviam obediência ao ex-prefeito.


Foi o suficiente para gerar a mágoa. Depois de lutar contra tudo e todos - inclusive dentro do próprio PT - para provar que o "poste" tinha luz própria, João paulo mudou rápido de opinião. Frustrado na expectativa de construir um terceiro mandato "extraoficial" na Prefeitura, ele se afastou, talvez imaginando que sem sua orientação, o ex-pupilo poderia se dar mal.


Agora, está sujeito a amargar o surgimento de um novo grupo político petista - que contará, certamente, com a simpatia de Humberto - para fazer ainda mais sombra às suas pretensões de poder no PT e no Estado.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Uma derrota anunciada












Abrir mão de uma tese ou postulação “em nome da unidade” é uma ação nobre, mas muito rara na política brasileira. Via de regra, a palavra “unidade” é utilizada apenas como mera retórica. Uma cortina para esconder divergências internas que, se expostas, comprometeriam todo um grupo.

Com o PT não foi diferente. Só ingênuos acreditariam que João Paulo desistiu de disputar a indicação para o Senado, depois de tanta briga, simplesmente em nome da unidade. Desistiu porque foi pressionado e ficou sem saída, como ele próprio reconheceu. Sem demérito para Humberto Costa, que fez por onde garantir a indicação.

Na verdade, João Paulo começou a perder a parada em novembro passado, quando seu grupo foi derrotado na disputa pelo comando estadual do PT. Ao assegurar maioria interna, Humberto começou a pavimentar o processo, que culminou com a decisão da Justiça de inocentá-lo no caso da Máfia dos Vampiros, no mês passado.

Antes disso, a briga interna era tão acirrada que o próprio presidente Lula pediu ao governador Eduardo Campos (PSB) para manter distância, evitando respingos capazes de abalar a aliança PT-PSB no Estado. Se tinha preferência por um ou outro petista, Eduardo não externou.

Agora que a escolha foi feita, porém, o governador sabe que contará com pouco mais da metade do PT estadual na sua campanha. O resto estará empenhado em garantir a João Paulo uma votação expressiva para a Câmara Federal, como derradeira tentativa de reaver parte do terreno perdido para Humberto.

* Publicado na coluna Cena Política, do Jornal do Commercio, em 19/04/10


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Panetones e ovos de páscoa















Preso desde 11 de fevereiro, o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda foi solto hoje. Deixou a carceragem da Polícia Federal acompanhado da esposa e do advogado, sob os protestos de um grupo que o aguardava na porta.

Mas lá também havia um outro pelotão, formado por "amigos" do ex-governador, que aplaudiam e cantavam hinos religiosos.
Certamente pela "graça" recebida de oito juízes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que votaram pela liberação de Arruda.

Não obstante a fé cega demonstrada dos amigos do ex-governador, sua libertação tem muito pouco a ver com milagre. Arruda foi solto porque, no entendimento dos juízes, perdeu seus poderes, seu peso político, sua moral. Enfim, tornou-se um mortal como muitos de nós. Inofensivo.

Não é bem verdade. É bom lembrar que, antes de chegar ao governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda foi senador. Envolvido até o pescoço no escândalo da violação do painel do Senado, sob as ordens do então todo-poderoso senador Antônio Carlos Magalhães, renunciou ao mandato, junto com ACM, para não ser cassado e perder seus direitos políticos.

Nas eleições seguintes, o coronel baiano voltou ao Senado nos braços do seu povo. Arruda preferiu outro caminho: o governo de Brasília. Eleito, vinha exercendo o cargo com certa visibilidade. Tanto que chegou a ser disponibilizado pelo DEM como opção para a vice do presidenciável tucano José Serra.

Depois, o vento virou. Já na prisão, Arruda teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral. Não por improbidade administrativa. Muito menos por prevaricação, corrupção, formação de quadrilha. Nada disso. Foi enquadrado apenas na Lei de Fidelidade Partidária. Perdeu o mandato porque deixou o DEM sem justa causa. Tentava escapar do desgaste de uma expulsão.

José Roberto Arruda foi preso em fevereiro, junto com mais cinco integrantes da quadrilha que se beneficiava do desvio de verbas públicas no governo.
Guardem bem os nomes e não aceitem cheques desse pessoal: Geraldo Naves, Wellington Luiz Moraes, Antônio Bento da Silva, Rodrigo Diniz Arantes e Haroldo Brasil de Cavalho.

Depois que o esquema foi flagrado pela Operação Caixa de Pandora, da PF, o ainda governador tentou justificar que o dinheiro desviado serviria para comprar 120 mil panetones, a serem doados às comunidades carentes de Brasília no Natal. Mas nenhuma família sentiu sequer o cheio da iguaria. Aliás, o único odor presente era o de meias e cuecas sujas, abarrotadas com o dinheiro distribuído entre o bando.

Que Arruda seria solto a qualquer momento, todo mundo já sabia. Afinal, se a Justiça mal consegue manter presos os homicidas, sequestradores e outros marginais da pesada, que dirá um mero criminoso de colarinho branco, algo tão banal no Brasil?

Só é lamentável que a decisão do STJ não tenha acontecido mais cedo. Se fosse solto na Semana Santa, por exemplo, Arruda bem que poderia retomar todo o seu altruísmo e, quem sabe, distribuir uns ovos de páscoa com o povão.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ciência do contraditório











Depois de 22 anos fazendo jornalismo, Mariana ainda me pede para escrever sobre o assunto. Quer que eu conte um episódio interessante que tenha visto ou vivido.Terrível ironia! Jornalista escrevendo sobre jornalismo, tendo a própria história como lide. Vai funcionar? Como jornalismo é a arte de encarar desafios, vamos a ele.


Antes, porém, já que falamos em desafios, um conselho grátis aos coleguinhas iniciantes: quem busca segurança e tranquilidade, e não está disposto a enfrentar desafios cotidianos, seria melhor dedicar-se a outra profissão, menos dada ao "inesperado".


Desafio, no jornalismo, significa esforço de sobrevivência. De fato, aquela ideia romântica do destemido repórter investigativo, cujos furos são aplaudidos pelos donos do jornal, elogiados pelos editores e lhe garantem incontáveis prêmios só existe no cinema.

O que não quer dizer que não seja uma profissão apaixonante como poucas. Na verdade, vicia como droga na veia. Jornalismo é ame ou deixe, e no começo da carreira você já vai ter condições de fazer sua escolha.


Visto sob certo aspecto, o jornalismo é mágico. Ele torna humanos os de coração duro, ensina altruísmo aos egoístas e revela personalidades sensíveis em quem menos se espera. Assim como é capaz de corromper os de pouco caráter, expor os preguiçosos e expurgar os menos companheiros.


A magia, porém, é só um detalhe. O que pesa mesmo é a vida real. E nesta - que é chamada de "profissão do estresse" - não basta ao jornalista matar um leão por dia. É necessário dissecá-lo nos mínimos detalhes, examinar bem todos os ângulos e, com um pouquinho de sorte, encontrar uma boa história. Se conseguir fazer tudo antes de cair a noite, parabéns. Você pode se considerar um repórter.

Lembro de um "foca" que andou pela redação do JC. Vinha recomendado "de cima", caiu na editoria de Política e foi devidamente pautado. Estávamos às vésperas de uma nova campanha eleitoral, e o bravo aspirante teria que cobrir uma reunião de cúpula de determinado partido. Respirou fundo, pegou o bloquinho, saiu... e sumiu! Como na época ainda não dispunhamos das benesses do telefone celular - também chamado carinhosamente de "coleira" por alguns editores - findamos a edição sem a matéria, que foi publicada pelos concorrentes.

E não é que no outro dia o cidadão reaparece? Na maior cara limpa, sorri, dá bom dia e, calmamente, senta-se para escrever. Questionado sobre não ter voltado à redação na noite anterior, o jovem periodista surpreendeu-se: "E era para escrever a matéria ontem mesmo, é?"


Pois bem. Além dos leões diários a serem mortos, vez por outra o jornalista esbarra em algumas dificuldades inerentes à profissão. Há a arrogância dos poderosos, a intolerância de chefes recalcados ou mesmo a imprecisão das fontes menos letradas. Tudo isso recompensado com uma remuneração mensal de fazer gosto! Mas e daí? Não éramos tão idealistas na faculdade?


Posso dizer, hoje, que sou um "homem de redação", apelido que se dá aos rinitentes, que conseguiram, sabe-se lá como, ficar expostos à alta pressão por mais tempo. Muitos desistiram, mas eu continuo por aqui. E agora, sem diploma, não é mesmo ministro?


Por fim, gostaria de afirmar que não duvido de quão árdua deve ser também a vida dos colegas assessores de imprensa, consultores de comunicação, acadêmicos. Enfim, gente que abraçou outras áreas dessa ciência tão complexa. A todos, parabéns pela data, da qual, confesso, eu nem lembrava. Boa sorte e sucesso. No mais, é continuar vivendo a contradição de uma rotina que todos os dias nos traz algo de novo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Dilúvio político













As chuvas que caem desde ontem no Rio de Janeiro são, de fato, um caso grave. Fiquei plenamente convencido disso quando li que o presidente Lula foi obrigado a cancelar um evento previsto para hoje pela manhã, no Morro do Alemão, subúrbio carioca.

Ele iria inaugurar uma creche e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), feitos com recursos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da sua administração - e da campanha da ex-ministra Dilma Rousseff, presidenciável do PT.


Mas o presidente não cancelou uma entrevista à Rádio Tupi, concedida diretamente do Hotel Copacabana Palace, na zona sul do Rio. Ainda bem. Se ela também tivesse sido desmarcada, os brasileiros não ficariam sabendo que Lula é radicalmente contra o uso da máquina pública nas campanhas eleitorais.


Parece piada. Mas até onde se sabe, o presidente é um político sensível, que não é dado a contar anedotas enquanto uma cidade e seus habitantes vivem um caos total. O que significa que ele, talvez, tenha mesmo falado a sério.


Segundo o presidente, é preciso respeitar os "ideais republicanos" do País, e provar que é possível passar por um processo eleitoral sem usar a máquina pública, "como já ocorreu antes".

Mas a partir desse ponto da entrevista, parece ter batido certa amnésia. Lula esqueceu de citar quando teria sido esse "antes". Não disse se teria, por acaso, acontecido durante o lançamento de alguma ação do PAC. Ou em alguma visita às obras em andamento, nas quais ele costumava levar a tiracolo a ministra-candidata Dilma Rousseff.


Não. Lula não citou exemplos de uso da máquina pública. Nem disse, sequer, se teriam sido seus adversários tucanos que lançaram mão desse instrumento durante a campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Se o fizeram, Lula não lembrou naquele instante. Talvez venha a se recordar durante a campanha de Dilma.


O presidente também jurou que não conhece o teor das multas que lhe foram aplicadas pela Justiça Eleitoral por fazer campanha antecipada para a presidenciável do PT. Limitou-se a comentar que "os advogados" estão encarregados desse trabalho.

Referia-se à Advocacia Geral da União, órgão encarregado da defesa do presidente e do governo. Que menos de vinte e quatro horas após a segunda multa ser aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entrou com um recurso contra a punição.


E ao concluir a entrevista, enquanto o Rio de Janeiro submergia, o presidente tranquilizou a todos, informando que já orientou os ministros sobre como se portar durante a campanha. Garantiu que a sua prioridade é governar o País, embora tenha admitido que poderá vir a participar da campanha de Dilma, mas sempre fora do horário de expediente.


Como se presidente da República marcasse cartão de ponto.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Na pressão















O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) resolveu proporcionar aos seus aliados mais algumas semanas de noites insones. Há pouco, comunicou que resolveu deixar para o próximo dia 30 de abril o anúncio da sua decisão de disputar ou não um terceiro mandato no governo do Estado.


E como a já fragilizada oposição pernambucana deixou mais do que claro, ninguém trabalha com outra opção além da candidatura Jarbas para enfrentar o rolo compressor da reeleição do governador Eduardo Campos (PSB). Por isso, as próximas três semanas e meia serão de pura pressão sobre o senador peemedebista.


Mas Jarbas parece tirar de letra essas pressões, demonstrando uma paciência infinita com as especulações, que só crescem, e sobretudo com os recados em tom mais dramático.
Ele já foi "avisado", por exemplo, que da sua candidatura depende a reeleição dos dois senadores da antiga União por Pernambuco, Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB). Também já teve gente "advertindo" que se ele não for candidato, terá sido o responsável pela extinção das bancadas federal e estadual de oposição em Pernambuco.

Apelos drásticos à parte, as consequências de uma recusa de Jarbas em disputar o governo podem, sim, beirar as previsões feitas pelos aliados mais desesperados. É bem verdade que, na contra-mão da "turma da pressão", alguns deles se declaram tranquilos e absolutamente convencidos da candidatura Jarbas. Dizem que só estaria faltando o anúncio.


Entre os mais confiantes estão alguns ex-pefelistas, hoje no Democratas, em legendas-satélites ou mesmo aposentados. Embora não confessem abertamente, o motivo do otimismo é baseado no argumento de que teria chegado o momento de Jarbas pagar a conta pelo apoio integral que recebeu do PFL e do PSDB nos últimos 15 anos.


De fato, a aliança PMDB/PFL era algo inimaginável até meados de 1990, quando surgiram as primeiras notícias de que o acordo estaria sendo articulado nos bastidores. As negociações envolviam o próprio Jarbas e parte da cúpula pefelista, na época sob o comando do governador Joaquim Francisco, do senador Marco Maciel e de deputados federais de peso, como José Mendonça.


Ciente das dificuldades que teria para consolidar o projeto de se eleger governador, já que o seu PMDB não tinha bases fortes no interior, o então prefeito do Recife estabeleceu uma relação de troca com os adversários do PFL - na época os mais numerosos do Estado - que cobiçavam voltar ao comando da capital.

A aliança começou garantindo a eleição de um pefelista, Roberto Magalhães, para suceder Jarbas na Prefeitura do Recife, em 1996.
E progrediu, dois anos depois, ao assegurar a vitória do próprio Jarbas para o governo do Estado. Dessa vez, com um plus para os neoaliados: derrotar o governador Miguel Arraes (PSB), que tentava a reeleição, por uma diferença de mais de um milhão de votos.

O próximo passo seria a adesão dos tucanos, para facilitar a reeleição de Jarbas em 2002. Depois, era só cumprir a promessa de garantir que, em 2006, o herdeiro do governo fosse um pefelista, o então vice-governador Mendonça Filho.


Essa parte do acordo, porém, não deu certo. Mas vitória de Eduardo Campos (PSB) foi suficiente para que Jarbas e os aliados democratas e tucanos se distanciasse um pouco. Nas próximas semanas, porém, o senador retomará as conversas com todos eles. Começará com o presidenciável José Serra (PSDB) e passará por Marco Maciel e Sérgio Guerra, até chegar aos deputados federais e estaduais.


Se depender dos antigos aliados, a distância entre eles e Jarbas precisa diminuir novamente. E rápido. Para evitar que as previsões obscuras se consolidem e imponham às oposições no Estado uma redução ainda mais drástica que a de 2006.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O voo solo de Dilma











A ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), enfim, deixou o governo. Será mesmo? A coisa ficou meio no ar, quando ela admitiu em seu discurso de despedida, feito há pouco, que não pretende se "desvencilhar" do presidente Lula.

Nem precisava dizer nada. Nos últimos meses, foram muito poucas as aparições públicas do presidente sem ter ao lado a sua ministra-candidata. Ainda assim, pouco se conhece dela. Por enquanto, Lula, sem Dilma, ainda é Lula. Mas Dilma, sem Lula, é muito pouca coisa.

A presidenciável petista deu, inclusive, pistas de quanto essa parceria pode dar trabalho à Justiça Eleitoral. Ao discursar, se emocionou ao elogiar o presidente e seu governo, e declarou que sua candidatura não será um "voo solo", porque o projeto é de continuidade.

Para bom entendedor, ficou a impressão de que continuaremos a assistir um "voo duplo". Dilma, no papel de co-piloto, levará o avião da sua candidatura em voo de cruzeiro. Mas caberá a Lula ocupar o assento da esquerda na cabine, responsável pela parte mais delicada, de fazer as decolagens e aterrissagens.

É bem verdade que, até o momento, a ex-ministra não deu sinais claros de que voaria sozinha. Como estava investida no cargo, e impedida - ao menos oficialmente - de se envolver em ações de cunho eleitoral, limitava-se a voar de carona na popularidade de Lula.

Agora, desembaraçada das obrigações de governo, o eleitorado vai poder sentir melhor a movimentação-solo da candidata. Que assegurou estar absolutamente preparada para encarar a campanha presidencial. No discurso, afirmou, inclusive, já ter vivido situações muito mais duras na vida, como as perseguições da ditadura militar, quando integrava grupos de guerrilha.

Fora do cargo, Dilma vai ter a chance de mostrar que tem luz própria. Que tem preparo. E, acima de tudo, que tem capacidade para substituir o presidente com a maior popularidade de todos os tempos. A partir de hoje, cabe exclusivamente a ela provar ao eleitor que não é apenas um co-piloto de mais um projeto comandado por Lula.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cai o pano














Dentro de dois dias, Dilma Rousseff abandona a postura de ministra para assumir, em definitivo, a de presidenciável. Sim, porque embora viesse agindo como tal há muito, e tenha sido saudada no encontro nacional do PT como tal, ela jamais admitiu publicamente a postulação.


Bom, mas a saída do governo só acontece daqui a dois dias. Hoje, ainda ministra, Dilma lançou a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2), ao lado do presidente Lula, seu grande cabo eleitoral. Sem ele - e o PT sabe disso - ela no máximo continuaria ministra. Candidata, jamais.

Assim como o primeiro, o PAC2 foi colocado sob a coordenação de Dilma. Pelo menos durante os próximos dois dias. Trata-se de um pacote que prevê investimentos da ordem de R$ 1,59 trilhão, entre 2011 e 2014. Verbas direcionadas para projetos sociais em áreas delicadas como saúde e habitação.

Mas as declarações de hoje do próprio presidente sugerem que tudo ainda é mera promessa. Ao lançar o PAC2, Lula admitiu que na primeira etapa o governo concluiu bem menos obras do que esperava. Levantamento da ONG Contas Abertas, feito com base nos relatórios do comitê gestor do PAC, revelou que que somente 11,3% dos projetos previstos na primeira etapa do programa foram executados. Traduzindo: somente 1.378 obras foram concluídas.

Acha muito? Pois a previsão atrevida do governo era realizar 12.163 empreendimentos por todo o País em quatro anos. Foi o que Lula prometeu, lá no começo, ainda sem noção da burocracia e das dificuldades de alocar recursos e gerenciar projetos. Os relatórios revelam que pelo menos 54% dessas promessas sequer saíram do papel.

Mesmo assim, o governo lançou o segundo PAC. Na presença de ministros, governadores, prefeitos e parlamentares ansiosos por tirar uma "casquinha", não só financeira, mas também política, do programa. Embora a maioria estivesse bem consciente de que a solenidade de hoje não passava de uma festa de despedida para Dilma. Uma última ajudinha oficial da máquina administrativa à campanha petista.

E aí, engana-se quem pensar que Dilma, a partir de quarta-feira, ficará por sua própria conta e risco, em plena pré-campanha presidencial. Não é o estilo de Lula criar um projeto político e abandoná-lo. Ela não poderá mais aparecer nos palanques ao lado do presidente.

Habilidoso como ninguém, ele certamente dará um jeitinho de continuar impulsionando sua candidata. E sem nenhum temor de sofrer punições da Justiça Eleitoral.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Um aliado incômodo












Depois de uma bem-sucedida parceria que durou oito anos, o PSDB agora não sabe como se desvencilhar do aliado DEM. Abalados com a comprovação das denúncias de mensalão no Distrito Federal - que excluíram do partido seu único governador, José Roberto Arruda - os ex-pefelistas tinham recolhido as bandeiras e já nem falavam mais em disputar a eleição presidencial.


Antes do escândalo, o nome do governador do Distrito Federal figurava entre os mais cotados para a vice do tucano José Serra. Ganhava corpo a ideia de repetir a dobradinha FHC-Marco Maciel, que governou o País por dois mandatos consecutivos.

Até Arruda jogar "panetone" no ventilador. Depois da divulgação dos vídeos com distribuição de dinheiro entre o governador e seus auxiliares, o papo da vice mixou de vez e o DEM até passou a apoiar a tese da chapa puro-sangue do PSDB, composta por Serra e o governador mineiro Aécio Neves.


Agora que tudo indica que Aécio não vai mesmo topar a parada, o presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia, voltou a falar na aliança e na vaga de vice. Até ventilou um nome: o da senadora Kátia Abreu (TO), presidente da poderosa Confederação Nacional da Agricultura.

O perfil da senadora guarda certas semelhanças com o da ex-candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin. Sobretudo na defesa dos interesses da elite produtora. Só que o
jeitão conservador de Sarah foi apontado por pesquisas como um dos fatores que puxaram para baixo a candidatura de John McCain, derrotado pelo superliberal Barack Obama.

Kátia Abreu, por sua vez, defende abertamente as elites ruralistas do País e não esconde a antipatia pelos ambientalistas. Também não tolera os sindicalistas rurais ligados à esquerda, que a apelidaram de "Miss Desmatamento" e a criticam duramente por seu posicionamento contrário à Reforma Agrária.


Mas não é o perfil da senadora do Tocantins que incomoda o PSDB. É o próprio DEM. Depois do mensalão de Brasília, os tucanos já não parecem tão confortáveis com a possibilidade de ter o partido na vice. Tem gente que, mesmo reconhecendo a integridade de Kátia Abreu, avalia que um democrata - qualquer que seja ele - na vice de Serra vai, inevitavelmente, trazer o Arrudagate para as telinhas de TV nos programas do guia eleitoral dos adversários.

O problema é que o DEM sempre foi leal ao PSDB, nos bons e nos maus momentos do governo FHC. E continua tão fiel que, ao anunciar a disposição de brigar novamente pela vice, Rodrigo Maia deixou claro que o partido não criará dificuldades para os aliados.

O que torna ainda mais difícil encontrar uma maneira suave de dizer "não".

sexta-feira, 19 de março de 2010

Acabou o inferno astral?









Há duas semanas, durante um encontro tucano no Recife, comandado pelo presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra, a repórter Sheila Borges, do Jornal do Commercio, ouviu de um aliado de José Serra que o governador é muito supersticioso. Por isso, era capaz de apostar que ele só confirma a candidatura presidencial depois que fizesse aniversário.


Filho de imigrantes italianos e criado no bairro da Mooca, o paulistano José Serra crê em olho gordo, acha que gato preto dá azar e jamais passa por baixo de escada aberta. Além disso, ele acredita que nada deve ser decidido nos trinta dias que antecedem a data de aniversário. É o que os astrólogos chamam de período de transformação. Mais conhecido como "inferno astral".

Pois bem. Hoje pela manhã, Serra foi despertado pelos familiares ao som de "Parabéns pra você". Tomou café, fez a barba, vestiu-se e foi dar uma entrevista na TV Bandeirantes, marcada com antecedência. Uma vez no ar, pela primeira vez deixou de lado as manjadas respostas evasivas e disparou: "Não estou negando (a candidatura). Estou dizendo que neste momento não vou fazer campanha. Faltam poucos dias".

Se para os mais céticos essa declaração ainda não convence, que tal observar a postura de candidato do governador, quando indagado sobre a escolha do vice? "Essa coisa é para mais adiante. Só vai ser resolvido no fim de maio". Mudou ou não mudou o tom?

Parece que o "inferno astral", enfim, acabou. Não só o de Serra, mas dos tucanos de um modo geral. Afinal, o clima de indefinição estava engessando as articulações do PSDB com os aliados nos Estados, e a cada rodada de pesquisa a coisa ficava mais infernal para o lado da oposição.

No próximo dia 3, o governador paulista deve renunciar ao cargo para ser oficializado candidato. O que acontecerá no dia 10, em Brasília, numa festa há muito preparada pelo partido. E em Pernambuco, é provável que as oposições façam outra festa, no mesmo dia. Mas para comemorar a decisão do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB).

Jarbas condicionou o anúncio da sua decisão de enfrentar ou não o governador Eduardo Campos (PSB) nas urnas à oficialização de José Serra como presidenciável. E graças à hesitação do governador paulista, teve bastante tempo para pensar. Agora, depende do senador acabar ou não com o "inferno astral" das oposições no Estado.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Robalinho rebate críticas

Por Chico Ludermir, do Blog de Jamildo


Em meio a uma pré-candidatura polêmica ao Senado, Guilherme Robalinho (PPS) disse ao Blog de Jamildo que veio para somar em uma oposição ainda indefinida. Segundo o médico, diversos representantes tucanos e do DEM estão migrando para os braços do governo.

Muito criticado pelos próprios aliados por uma candidatura que supostamente dividiria uma oposição que já tem nomes fortes, como os nomes dos dois senadores que devem tentar a reeleição, Marco Maciel e e Sérgio guerra, Robalinho diz que a crítica não tem nenhum sentido.

"Se fôssemos (a oposição) um partido único, teríamos um só candidato, mas somos partidos diferentes e temos ideias diferentes. Lançar meu nome é legítimo. Ilegítimo é achar que um partido aliado não tem o direito de pensar e lançar seus nomes para que surjam novos caminhos", disse.

Para ele o que existe é uma paralisia. "Colocamos o meu nome que tem história", conta Guilherme, que já foi secretário de Saúde de Pernambuco e de Recife nas gestões de Jarbas Vasconcelos.

Em relação a crítica a sua candidatura por parte dos deputados Antônio Moraes (PSDB) e de Miriam Lacerda (DEM), o médico diz "não estou com eles há muito tempo. Talvez o meu nome tenha um peso maior do que possa se prever. Não estou rompendo nem significa que não estejamos juntos amanhã. É uma divergencia momentânea". afirmou.

Quanto ao prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes (PSDB), Robalinho acusa uma indefinição por parte do tucano.

"O prefeito de Jaboatão não vai se definir. Assim, onde não está havendo ideia de oposição não é no PPS", alfineta.

O Blog de Jamildo revelou ontem que o PSB de Milton Coelho e Eduardo Campos anda tão entrosado com o tucano que arrumou um emprego para a filha dele, na secretaria de Habitação de João da Costa.

terça-feira, 16 de março de 2010

Fratura exposta










Dizem os bons manuais de política que uma prática saudável para se galgar espaço é aprender a ouvir e respeitar opiniões discordantes. Espero que assim seja entre os líderes das oposições em Pernambuco. Porque ninguém consegue me convencer que lançar três candidaturas ao Senado - quando só há duas vagas em jogo - é uma estratégia válida para unir os adversários do governador Eduardo Campos (PSB).


Para quem chegou agora: além de Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), o PPS decidiu entrar na campanha ao Senado com a candidatura do médico Guilherme Robalinho. Nada tenho contra o doutor Robalinho, ex-militante de esquerda na juventude e um bom secretário de Saúde nas gestões de Jarbas Vasconcelos. A crítica incide sobre os idealizadores da estratégia. Que vai, isto sim, dividir ainda mais o já fragmentado bloco oposicionista.

Na segunda-feira à tarde, havia no Palácio do Campo das Princesas um indisfarçável clima de comemoração pelo lançamento da nova candidatura adversária. Tudo, claro, no mais absoluto off record. Mas na avaliação de alguns socialistas, as oposições se perderam ainda mais. Ainda nem conseguiram consolidar um candidato a governador e já saem com três postulantes ao Senado.

Mas essa divisão não é de hoje. Há outros caminhos para explicá-la. Um deles é a antiga e persistente resistência do PPS - sobretudo dos seus dirigentes - em apoiar o senador Marco Maciel.

É bom lembrar que, em 2002, quando Maciel disputava o Senado, ao lado de Sérgio Guerra, o PPS inventou a candidatura de Nelson Borges. E no final das contas, só precisou apoiar seu próprio candidato e o do PSDB, deixando o então pefelista na mão. O que não impediu Maciel de sair das urnas como o senador mais votado.


Vale recordar também que, naquela mesma disputa de 2002, Jarbas - que renovaria o mandato de governador - praticamente botou o PPS debaixo do braço, ajudando a garantir a eleição de pelo menos dois deputados federais do partido: Roberto Freire e Raul Jungmann. Em 2006, quando concorreu ao Senado, Jarbas manteve a fidelidade, colocando Freire como seu suplente.

Está mais que clara a boa relação dos pós-comunistas com o PMDB local. Falta é esclarecer ao eleitor essa aversão ao Democratas. Seria porque o DEM é descendente direto da extinta Arena, combatida duramente pelo antigo PCB - na clandestinidade - durante o regime militar? Será possível que esse ranço persista?

Afinal, os tempos mudaram. Hoje, os ex-comunistas, reunidos no PPS, fazem oposição ao governo do PSB em Pernambuco e à gestão do PT em nível federal. E em ambas as esferas, o PPS é aliado do DEM. Por que, então, não assumir essa aliança também em termos eleitorais? É realmente necessário inventar uma nova candidatura a senador para não ter que apoiar o candidato escolhido pela própria aliança?


Sinto pelos que não toleram opiniões contrárias. Mas por mais que eu me esforce, que puxe pela memória e analise o cenário político atual, continuo enxergando na candidatura do PPS mais um grande e claro sinal de divisão das oposições.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O pacificador












Quem danado enfiou na cabeça do presidente Lula que ele tem condições de empunhar a bandeira de grande conciliador do mundo moderno? Mesmo no núcleo duro da Côrte petista, são poucas as pessoas com um perfil tão arrogante e tresloucado a ponto de sugerir posturas dessa natureza ao pé do ouvido do homem.


Há quem diga que Lula exagera na política de boa convivência com governantes "incômodos", como Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia). Mas estes, ao menos, são vizinhos. E há interesses comuns da América Latina que precisam ser defendidos em bloco. Só não precisa tratá-los como se fossem antigos companheiros de militância sindical.


Ao que parece, em termos de política internacional, Lula está decidido a se colocar na história como o maior pacificador do século. Embora dentro do Brasil a guerra social ainda esteja a léguas de um bom termo.

Em novembro passado, por exemplo, ele estufou o peito, mandou às favas os protestos nas ruas e recebeu o presidente recém-eleito do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Que entre outras "pérolas", defende o fim do Estado de Israel, nega o Holocausto e insiste em enriquecer urânio.

Um detalhe: duas semanas antes, haviam passado pelo Brasil os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.


Há cerca de um mês, o presidente brasileiro deu um pulinho em Cuba para visitar o colega Raúl Castro e o ex-presidente Fidel. Não teve muita sorte. Chegou em meio às notícias sobre a morte de Orlando Zapata Tamayo, após 85 dias em greve de fome.

Orlando era um dos 75 "presos de consciência", nome dado aos opositores do regime cubano.
E como Lula reagiu? Nenhum protesto, nenhuma crítica à ausência de direitos humanos. “Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade?”, foi seu comentário, seguido de um intrigante silêncio por parte de algumas entidades civis que, antes de o PT chegar ao poder, eram bastante dadas às passeatas, protestos e gritarias.

Surpresas maiores estavam por vir. Segunda-feira, ao iniciar uma visita a Israel, Lula recusou um convite para colocar flores no túmulo de Theodor Herzl, o fundador do sionismo. Simplesmente disse que não haveria tempo livre na sua agenda.

Que nesta terça prevê uma visita ao túmulo do ex-líder palestino Yasser Arafat, em Ramallah. Exatamente os maiores adversários dos israelenses.
Será que não tinha um único integrante da comitiva consciente o suficiente para soprar no ouvido de Lula que a homenagem a Herzl seria de bom tom?

Os resultados da gafe diplomática foram imediatos. O ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, simplesmente boicotou o discurso de Lula no Knesset, o Parlamento israelense. E de quebra, não participou do encontro entre o presidente brasileiro e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.


Para quem se pretende um grande estadista, Lula até agora só sugeriu uma única "receita" para promover a paz: um jogo de futebol - em "território neutro" - entre as seleções israelense e palestina.

Não é tão simples assim, presidente! São décadas de lutas por território, envolvendo crenças religiosas consolidadas há séculos. Não se resolve batendo bola. Embora fosse muito bom que as rivalidades no Oriente Médio fossem tão "importantes" para o mundo quanto uma simples briga de torcidas entre a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde...

quinta-feira, 11 de março de 2010















Cavaleiros sem cabeça

A situação das oposições em Pernambuco é realmente digna de pena. Não apenas porque estão fragilizadas. Ou por terem sido atropeladas pelo rolo-compressor governista. A penúria deve-se, mais do que nunca, à hesitação dos caciques em formalizar suas candidaturas.

Os oposicionistas estão prontos, armados até os dentes para sair em campanha. Mas lhes faltam as cabeças. Afinal, é praticamente impossível formatar um discurso eleitoral sem citar os candidatos a governador e a presidente da República.


Todo mundo sabe que o governador José Serra (PSDB) e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) serão candidatos a presidente e governador, respectivamente. E a demora de Serra em oficializar sua candidatura pode até ter seus motivos. Assim como Jarbas tem lá os seus. O problema é convencer os aliados, que já começam a perder a paciência, publicamente.


A ironia da situação é que o primeiro a protestar contra a hesitação de Serra foi exatamente Jarbas. O senador se mostrou incomodado com o fato de as oposições estarem sendo "atropeladas" pelas candidaturas da ministra Dilma Rousseff (PT) e do governador Eduardo Campos (PSB), ambos em plena campanha.


Mas em vez de as queixas surtirem efeito, Jarbas foi obrigado a botar o pé no freio. Ontem, depois de ser informado que Serra só planeja se declarar candidato no último dia do prazo de desincompatibilização, 3 de abril, o senador se viu obrigado a esperar que o cacique tucano quebre o silêncio.

A explicação, Jarbas já deu: uma candidatura a governador não deve ser movida apenas por motivos paroquiais. Precisa ter um respaldo nacional. E a aliança Serra-Jarbas já é uma velha conhecida dos pernambucanos.


É fato que a candidatura de Jarbas é a única opção viável para que as oposições no Estado consigam fazer alguma frente ao trator pilotado por Eduardo Campos. Que, em pouco mais de três anos, neutralizou - parcial ou completamente - os palanques de oposição em vários municípios pernambucanos.

Em tempos de crise, foram todos atraídos pelo guarda-chuva palaciano e seu link direto com o governo Lula.
E como se não bastassem as deserções, a oposição ainda pena com a antecipação da campanha. Vista com a maior das complacências pela Justiça Eleitoral.

Nem a gritaria dos opositores nas tribunas, nem as várias ações impetradas por eles nas devidas instâncias sensibilizaram os magistrados a punir as "campanhas micaretas". Aquelas feitas fora de época.


E não é porque os juízes são partidários de um ou outro candidato. Essa é uma crítica fácil, que poupa os mais "ofendidos" de olhar para o próprio umbigo.
O que acontece, na verdade, é que eles estão, simplesmente, seguindo o que manda a legislação eleitoral.

Uma legislação com mais buracos que tábua de pirulito, que foi elaborada pelas mesmas pessoas que hoje protestam. E que se recusam a fazer a necessária reforma política.


E como a lei é feita para todos, se o cenário de hoje favorece os governistas, paciência. A vantagem do jogo eleitoral já esteve, no passado, com quem agora está na oposição.


sexta-feira, 5 de março de 2010











Vidraça petista

Antes mesmo de começar a campanha eleitoral propriamente dita, setores menos amistosos do PT, digamos assim, já investem com fúria cega contra a imprensa. Um artigo publicado há alguns dias no site do partido serve como exemplo. Nele, são transcritas várias críticas negativas feitas à candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) durante o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, do Instituto Millenium.

Não importa que elas tenham sido formuladas por reconhecidos adversários do partido. Serviram de mote para generalizar os ataques à "grande mídia golpista" – adjetivo usualmente aplicado, de boca cheia, por alguns petistas.

E antes que apontem, eu mesmo admito: sou corporativista. Talvez não tanto quanto os petistas. Eles bem sabem que anti-éticos e corruptos existem em todos os segmentos, mas também sabem que é preciso sair em defesa dos profissionais éticos e honestos contra as generalizações.

O que esses segmentos mais radicais esquecem é que o PT só é o que é hoje graças, em parte, à "grande mídia". Antes mesmo de o partido ser fundado, jornalistas sérios enfrentavam as investidas dos censores da ditadura para noticiar as movimentações do chamado “novo sindicalismo” do ABC paulista, e sobretudo a sua estrela maior, o então líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi essa mesma “grande mídia” que divulgou para todo o País as mobilizações democráticas do início dos anos 80. Quando o recém-fundado PT ainda era classificado por assustados reacionários como "um bando de radicais de ultra-esquerda", entre outros adjetivos ainda menos corteses.

Lembro que quando comecei a exercer o jornalismo, há pouco mais de duas décadas, os conservadores bradavam das suas tribunas que as redações dos jornais estavam repletas de comunistas e petistas. Hoje, a mudança é dramática. São os petistas que sobem às suas torres para enxergar nas redações uma “corja” de liberais e conservadores.

Mudaram as redações ou mudou o PT?

Do meu posto de observação pessoal, não tenho dúvidas de onde se deu a mudança. Mas como não sou dono da verdade, prefiro que os “mudados” continuem erguendo suas vozes. Só gostaria de lembrar que, mesmo depois de ascender ao poder – graças a uma extrema do guinada no discurso de esquerda – as ações positivas do governo petista têm sido amplamente divulgadas pela “grande mídia”.

Claro, as críticas negativas também são exploradas. E até com maior peso que as boas ações. Talvez porque, ao longo de pelo menos 22 anos, tenhamos assistido à dura oposição feita pelos petistas a quem quer que ocupasse o poder. Mas, como se sabe, passar da condição de pedra à de vidraça é uma mudança um tanto traumática. O discurso crítico fica arraigado na cabeça, e é preciso, às vezes, descarregá-lo sobre alguém.

Nem todo mundo supera isso com tamanha facilidade como fez, por exemplo, o líder maior do PT. Desde que virou vidraça, Lula tem recebido com surpreendente parcimônia as críticas publicadas pela “grande mídia”. Via de regra, mostra domínio e equilíbrio diante delas. E nas raras vezes em que perde a paciência, no máximo declara em público que não lê mais os jornais.

Lula representa bem o PT moderno. A chamada “nova esquerda”. Não é bairrista, não vê mais teorias da conspiração nem investidas burguesas contra o proletariado. O inverso é que custa a ser verdadeiro: lamentavelmente, nem todo petista conseguiu incorporar o estilo “paz e amor” do seu próprio presidente. Quem sabe se voltarem por um tempo à condição de pedra eles não começam a preservar um pouco mais as vidraças?

terça-feira, 2 de março de 2010













Cegos no tiroteio


O PSDB ainda não se recuperou do susto provocado pelos números da pesquisa Datafolha de domingo passado. A queda de quatro pontos sofrida pelo presidenciável José Serra (37% para 32%) e o crescimento de cinco pontos da petista Dilma Rousseff (23% para 28%) gerou um sentimento semelhante ao pânico no estômago dos tucanos. E só aumentou a o sentimento de desorientação.

Essa deve ter sido, inclusive, a sensação experimentada ontem pela cúpula tucana durante a reunião e o almoço no gabinete do senador Tasso Jereissati (CE). Onde o cardápio, certamente, deve ter tido ingredientes da cozinha mineira.


É que depois de Serra perder a sua principal opção de vice - o governador José Roberto Arruda (DF), preso por corrupção - que sacramentaria a aliança com o DEM, ficou sem alternativas para compor a chapa. E agora enfrenta dificuldades dentro do seu próprio partido para conseguir um companheiro de disputa.

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, cuja pretensão era concorrer ao Planalto - e não ao Jaburu - continua se descartando. E Tasso Jereissati, segundo gente do próprio PSDB, também não estaria muito a fim de trocar o elevador da reeleição para o Senado pela escadaria da corrida presidencial.


Nos últimos dias - e principalmente após a pesquisa Datafolha - a pressão sobre o tucano mineiro triplicou. Mas ele não arreda o pé de disputar o Senado. Estrela das festividades do centenário do seu avô, Tancredo Neves, esta semana Aécio recebe praticamente toda a constelação da oposição nacional em Minas Gerais. Imagine a quantidade de pedidos que vai ouvir para compor a chapa?

Se Aécio ceder, Serra pode até ganhar um fôlego extra, levando em conta a boa aceitação que o colega mineiro tem lá pelas bandas do Sudeste. É o governador melhor aprovado no País, tem poucas arestas com as esquerdas e, de quebra, possui uma imagem bem menos desgastada que a do colega paulista.


Mas Aécio quer, mesmo, é a vaga de presidenciável. Se fracassa essa opção, onde os tucanos vão buscar o vice? No PPS, terceiro aliado nas oposições, não há alternativas com densidade.

A solução caseira, que já chegou a ser ventilada antes, seria manter a chapa puro-sangue, com o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra. Mas desde a primeira vez que ouviu a sugestão, o pernambucano - como se diz no seu Estado natal - correu léguas de distância.


Na verdade, ninguém da oposição esperava os números que a pesquisa revelou. Por mais que insistam tratar-se apenas de um "cenário de momento", basta pegar lápis e papel e traçar dois gráficos, baseados nos índices das últimas sondagens, para o frio na barriga voltar a assustar. A curva de Serra é absolutamente decrescente, enquanto a de Dilma parece mais a ladeira da Misericórdia. Para quem não conhece, é a subida mais íngreme da Cidade Alta de Olinda.


O fato é que a oposição esperou demais. Fosse por uma decisão de Serra, fosse pela queda de Dilma nas pesquisas. E nenhuma das duas aconteceu. A presidenciável petista subiu e o governador tucano não se decidiu em tempo hábil para botar o bloco na rua.

Agora, vai ter que fazer isso às pressas. A expectativa é de que ainda esta semana - na tentativa de recuperar terreno perdido para os petistas - o PSDB anuncie, formalmente, a pré-candidatura de Serra. Só precisa conseguir, dentro de toda essa adversidade que se criou pós-carnaval, encontrar quem aceite a vice. De bom grado.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010












Ó quarta-feira ingrata!

A folia acabou. A partir de agora, como reza a tradição, as coisas começam a funcionar de verdade no Brasil. Inclusive este blog. Assim como as campanhas eleitorais, cujo prazo oficial, previsto apenas para julho, é mera retórica legal.

E não é que a “quarta-feira ingrata” trouxe uma surpresa ainda mais desagradável para os tucanos? Segundo o Ibope, a presidenciável governista Dilma Rousseff (PT) subiu mais oito pontos, enquanto o até agora favorito José Serra (PSDB) caiu dois.

Não é nada, não é nada, mas pode gerar alguma instabilidade nas oposições.
É bem verdade que Serra continua liderando com folga a corrida presidencial. Também é verdade que ele vence Dilma na simulação de segundo turno.


O que a nova pesquisa pode provocar de imediato – sobretudo se vier acompanhada de outras que confirmem o resultado – é uma propagação maior de uma tese que vem sendo comentada já há algum tempo.

Segundo as más línguas – e digo “más” porque creio que a boataria tenha partido, sim, do lado governista – o governador paulista estaria apenas aguardando a consolidação dessa onda de queda nas pesquisas para anunciar sua candidatura. Mas não ao Planalto, e sim à reeleição para o governo de São Paulo. Essa, sim, é dada como favas contadas.

É óbvio que os tucanos, oficialmente, rechaçam com força a possibilidade de Serra vir a ser substituído de última hora pelo governador mineiro Aécio Neves. Argumentam que Aécio já está fora do páreo, candidatíssimo ao Senado ou, quem sabe, a uma vice do próprio Serra, numa chapa pão com pão.

Nos bastidores, porém, o PSDB lê com atenção as pesquisas internas, principalmente aquelas que indicam Aécio como o adversário mais temido pelo Planalto. Só não vão revelar nada disso no momento.

Mas ninguém duvide que, passado o Carnaval, as coisas comecem a mudar de figura. É aguardar as próximas pesquisas para checar. Mas já há, mesmo entre os tucanos, quem aposte que a candidatura presidencial de José Serra não sobreviva até o fim da quaresma.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010












Prazo de validade *

O PMDB continua o mesmo: um balcão de negociações que garantam aos seus filiados um naco de espaço no poder, não importando quem o exerça. E foi o que aconteceu na convenção nacional do partido, sábado passado, quando os setores ligados ao presidente Lula trataram de rifar todos os que se opunham à aliança com a presidenciável Dilma Rousseff (PT).

As articulações para garantir ao partido a vice na chapa de Dilma revelam que a palavra “democrático”, no PMDB, está cada vez mais limitada à sigla. O aval à aliança com os petistas foi uma decisão tomada de cima para baixo, isolando os diretórios de São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina e Paraná, contrários ao acordo.

Os paranaenses – liderados pelo governador Roberto Requião – alimentam a olímpica tese de candidatura própria. Os outros três núcleos defendem o apoio a José Serra (PSDB).


Não é a primeira vez – nem deverá ser a última – que o PMDB vende caro seu passe. Nos governos Collor, Itamar Franco e, sobretudo, FHC, a legenda sempre utilizou seu peso político para barganhar a ocupação de cargos. Uma espécie de “norma branca”, não incluída no estatuto partidário.

Como bem lembrou, certa vez, o ex-deputado federal Egídio Ferreira Lima – um dos fundadores do partido, na década de 60 – o PMDB foi criado sob permissão da ditadura militar para abrigar toda a oposição, mas perdeu sua razão de existir após a redemocratização. Desde então, vem servindo apenas aos interesses políticos dos grupos que o controlam. O resultado da convenção é apenas mais do mesmo.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC - 08/02/10