quarta-feira, 28 de outubro de 2009










Um mineiro inquieto


Paciência tem limites. Esse foi o recado, curto e grosso, enviado à cúpula do PSDB pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Um dos nomes do partido para a disputa presidencial de 2010, Aécio vinha aguardando disciplinadamente que os tucanos escolhessem entre ele e José Serra (SP) quem vai enfrentar a candidata petista Dilma Rousseff. Esta semana, porém, deu um ultimato à legenda. Se em janeiro não houver definição, vai se lançar candidato ao Senado.

Ao contrário do seu colega mineiro, a situação de Serra é confortável. Foi ministro da Saúde de FHC e candidato à Presidência da República em 2002. Como resultado, tornou-se bem mais conhecido dos eleitores brasileiros. Outra vantagem do tucano paulista é que ele cumpre o primeiro mandato no governo de São Paulo, e caso resolva não concorrer ao Planalto, tem pela frente a possibilidade de disputar uma reeleição razoavelmente tranquila.

Aécio, por sua vez, está terminando o segundo mandato consecutivo no governo de Minas. E quer alçar voos mais altos. Tem a vantagem de ser mais jovem que o correligionário paulista. Ou seja, pode esperar um pouco mais para tentar o cargo máximo da Nação. Mas ele acredita que sua hora é agora.

Por tudo isso, o tucano mineiro tem pressa. O paulista, não. Embora esteja aparecendo como primeiro colocado em todas as pesquisas sobre a disputa presidencial realizadas até agora, Serra prefere aguardar até março antes de anunciar sua decisão.

Nesse período, vai analisar o desempenho de Dilma - empinada publicamente pelo presidente Lula como candidata praticamente todos os dias - e aguardar o desfecho da disputa interna no bloco governista, travada entre a ministra da Casa Civil e o deputado federal cearense Ciro Gomes, que também postula uma candidatura ao Planalto, contra a vontade do aliado PT.

O jogo de Serra parece simples: se em março ele não sentir firmeza no palanque das oposições, ou achar que suas chances de vencer são muito reduzidas, terá pavimentado mais da metade do caminho da reeleição para o governo de São Paulo. Afinal, mesmo negando - por enquanto - a candidatura presidencial, o governador tem ocupado generosos espaços na mídia. Serra está valorizando o passe.

Talvez seja por isso que o PSDB - cuja maioria é declaradamente pró-Serra - tem sido tão complacente diante desse debate interno. Inclusive evitando a todo custo promover as prévias dentro do partido, que tanto Aécio defende, para a escolha do candidato.

A indefinição está, inclusive, dificultando as alianças do PSDB em vários Estados, onde opositores de Lula aguardam uma definição do candidato a presidente para formar os palanques locais.

O ônus dessa demora provocada por Serra, porém, pode ser maior do que os tucanos contabilizam. Se chegarem em março sem uma definição, pode ser tarde para recuperar o terreno perdido para Dilma, Ciro e até Marina Silva (PV). E a partir daí, vai ficar bem mais difícil para Aécio, que ainda precisa rodar muito o País para se tornar conhecido do eleitor. Enquanto Serra vai ficar assistindo de camarote.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009









Unidade acima de tudo


Que os partidos de oposição em Pernambuco estão em situação incômoda para 2010, é inegável. Lutam contra máquinas fortes, pilotadas pela dobradinha PT/PSB e alimentadas com o combustível da alta popularidade dos governantes.

Mas as dificuldades apenas começam por aí. Não bastasse o campo governista estar forte e coeso, na oposição a situação é de fragilidade. Tucanos e democratas se desentendem, o PMDB se mantém em compasso de espera pela decisão do seu cacique maior, Jarbas Vasconcelos, e o PPS não tem força política para levantar sozinho uma bandeira de combate às gestões de Eduardo Campos e de Lula no Estado.

Há, porém, um novo elemento que só tende a provocar mais ansiedade nos líderes oposicionistas locais. Ao contrário de um desfecho amistoso como apregoava antes, o PSDB nacional anda às voltas com um acirramento interno entre os defensores das candidaturas dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) à Presidência da República.

Com a tese da chapa puro-sangue ganhando corpo, os tucanos mineiros ameaçam se rebelar. Não querem nem ouvir falar de Aécio na vice de Serra, embora a ideia tenha sido bem aceita, segundo pesquisa encomendada pelos serristas.

O que isso tem a ver com Pernambuco? Bem, sem munição local para enfrentar a candidatura de Eduardo à reeleição, a oposição pretende nacionalizar a campanha, vincular os palanques estadual e nacional anti-Lula. E para isso, é necessário, no mínimo, unidade interna. Algo que fica mais distante a cada dia que passa.

* Publicado na coluna Cena Política, do JC, em 26/10/09


sexta-feira, 23 de outubro de 2009











Desequilíbrio entre poderes


Que o presidente Lula é uma figura singular, ninguém tem dúvida. Mas pode-se dizer o mesmo do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. Ambos sofrem de uma incontinência verbal que ultrapassa os limites do cargo.

O problema de Lula é agir forma explosiva e espontânea, quando grita aos quatro ventos que é tão ou mais popular que Getúlio Vargas e JK, e chega a fazer comparações com Jesus Cristo. As reações de Mendes são diferentes, pensadas, críticas. E todas dirigidas a Lula.

Exatamente por isso a questão torna-se preocupante. Afinal, são dois chefes de poder, que pela altura do cargo precisam manter o equilíbrio. Como cidadão, Mendes tem o direito de opinião. Mas a forma como as vem externando o distanciam da postura de magistrado.

O presidente do STF voltou à carga, criticando as viagens do desafeto Lula pelo Brasil. Mendes reconhece que viaja muito pelo País - e com dinheiro público - mas não para fazer campanha eleitoral fora de época.

Ora, e Lula está em campanha? E se está, cabe ao líder da magistratura do País denunciar? Ou seu papel seria o de julgar ações nesse sentido, como a que foi impetrada pela oposição no começo da semana, para que a Justiça investigue se a vistoria de Lula e comitiva às obras no Sertão de Pernambuco se configura em crime eleitoral?

"Não tenho nada contra viagens. Ele que viaje bastante, não há nenhum problema quanto a isso. Estou dizendo é quando se transforma eventual fiscalização de obra ou suposta fiscalização de obra em comício ou manifestação eleitoral. Foi essa a minha observação", disse Mendes. Ou melhor dizendo: acusou Mendes.

Da mesma forma que cabe a Lula manter o equilíbrio da administração e não usá-la como trampolim para candidato A ou B, ao presidente do STF cabe ter mais cuidado com suas declarações, para garantir o equilíbrio da balança da Justiça. Não é porque um descumpre sua função que o outro deve seguir o exemplo.








Ah, esses fariseus...

O presidente Lula não lançou moda nem inventou nenhuma novidade em termos de alianças políticas. Antes dele, tucanos e democratas deram-se as mãos para garantir o poder. Mais atrás, em 1985, PMDB e PFL – antigos MDB e dissidentes da Arena – formaram a Aliança Democrática para eleger Tancredo Neves presidente no Colégio Eleitoral, contra o candidato da ditadura que o primeiro combatia e o segundo apoiava.

Vasculhando mais fundo a história, Getúlio Vargas foi às turras com os comunistas, cassou o registro do Partidão e perseguiu seus representantes. Logo depois, se aliou a eles para se manter no poder. E por aí vai.

Vejamos o passado recente em Pernambuco. Um dos principais líderes da oposição aos governos da ditadura, Jarbas Vasconcelos (PMDB) firmou um acordo de irmãos com os antigos adversários do PFL para se eleger governador. Antes dele, Miguel Arraes havia acomodado sob suas vistas muitos representantes do coronelismo patriarcal do Estado.

Alianças são parte da história da política. E no Brasil, ideologias e programas sempre ficaram em segundo plano. Diferentemente de países como os Estados Unidos e alguns da Europa, onde lado é lado, e ponto final.

O problema não reside nos acordos. Se são questionáveis, que se questione os demais. Reside, isto sim, na verborragia presidencial, qualidade inabalável de Lula. Não há limites diplomáticos, digamos assim, para as declarações do líder da Nação. Nem há quem o advirta de que misturar política e religião é um erro mais grave que crime eleitoral.

No seu universo político particular, Lula nem liga. Vai falando. Comparações pessoais com Juscelino Kubitschek ou Getúlio Vargas já são corriqueiras. Semana passada, no Sertão de Pernambuco, ao destacar a importância das obras da transposição do rio São Francisco, ele se colocou no patamar de Franklin Roosevelt, ao compará-las com o histórico programa do New Deal, que incluía um plano de desenvolvimento para o Vale do Mississipi.

Mas quando afirmou que no Brasil até Jesus Cristo faria alianças com Judas para governar, Lula exagerou, comparando-se ao filho de Deus. Blasfêmia? Talvez, mas não se analisado da forma como o nosso presidente vê as coisas. Por esse prisma, a comparação não está de todo errada, porque Lula não é o primeiro governante brasileiro a vender a alma ao diabo para garantir popularidade.

A diferença é que os outros fazem, mas não dizem abertamente. Sabem que declarações assim fazem o puritanismo e espírito conservador brasileiro saltar dentro das calças e partir para o contra-ataque.

Foi o que fez a CNBB. A organização dos bispos protestou imediatamente, lembrando que, ao contrário de Lula, Cristo não se aliou aos fariseus. Apenas acolheu os pecadores.

Bom, ainda assim o presidente está com certa razão. Afinal, no grande Éden em que se transformou o seu “governo de coalizão” já foram acolhidos muitos que, no passado, ele próprio tratou de rotular como pecadores: José Sarney, Fernando Collor, Paulo Maluf, Inocêncio Oliveira, Renan Calheiros, Jader Barbalho. Só para citar alguns “fariseus”, na ótica petista pré-governo.

Lula, de fato, está longe de ser Cristo. Mas no Brasil que criou a partir do seu primeiro mandato, ele casa e batiza. E às vezes dá até a extrema unção.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009










Semelhanças e diferenças

Na visão de alguns mais otimistas, o ex-ministro Gustavo Krause (DEM) tentou passar uma mensagem tranquilizadora às oposições ao lembrar seu próprio caso, em 1994, quando foi escolhido para enfrentar – quase que olimpicamente – a forte candidatura de Miguel Arraes (PSB) ao governo do Estado. Não havia um nome eleitoralmente poderoso para tanto. E ele, então, foi impulsionado para demarcar o terreno governista e garantir a sobrevivência do seu bloco político e da bancada parlamentar.

Para outros, porém, o recado de Krause pode ser lido nas entrelinhas: ao lembrar 94, ele sinaliza um certo conformismo de que não deve haver novamente um candidato com condições de evitar a reeleição do governador Eduardo Campos (PSB).

Para bom entendedor, não dá para ficar apenas sonhando com uma candidatura do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). É preciso botar o pé no chão e reconhecer que essa hipótese fica mais distante a cada dia que passa. Vale lembrar que nas duas vitórias da União por Pernambuco, em 1998 e 2002, ambas comJarbas à frente, não houve disputas internas, divergências entre caciques ou, como afirmou Krause, sequer “trepidações”.

A diferença entre 2010 e 1994 – e mesmo de 1986, quando o PFL, sem condições também de enfrentar Arraes, lançou a candidatura olímpica de José Múcio – é que dessa vez não parece haver nas oposições pernambucanas sequer uma alternativa “para competir”.

Nacionalizar a campanha é, como sempre, um perigo real e imediato. Em 94, como bem lembrou o ex-ministro, o então candidato tucano Fernando Henrique Cardoso largou bem atrás. Mas decolou, alçado pelo Plano Real, pela aliança com o PFL – na época o maior partido do Brasil – e por mais uma série de contingências favoráveis.

Hoje, quem preside o País é Lula, o mesmo candidato que fora derrotado outras três vezes pelo atual bloco de oposição. Mostrou verve e persistência. E mais que isso: mostrou engenhosidade.

Lula governa com uma popularidade estratosférica, sem ter inventado nenhum plano econômico. Tirou partido do esquema que herdou do próprio FHC. Também não implementou programas sociais novos, só deu um upgrade nos que recebeu dos tucanos.

A grande diferença, porém, é o conjunto de forças que o apóia. Não apenas em Brasília, onde aos poucos foi montado um esquema de adestramento partidário de causar inveja aos seus antecessores, mas também na grande maioria dos Estados, onde Lula hoje conta com vários governadores e prefeitos aliados, fortalecidos com seus programas federais.

Por todos esses fatores, não se trata de dizer que a oposição em Pernambuco estaria jogando a toalha. De fato, eles sabem – Jarbas, principalmente – das pouquíssimas chances de vencer a disputa local, ainda que se nacionalize a campanha e José Serra reconquiste o governo central.

Mas Serra é mesmo candidato? Porque como bem lembrou Jarbas, a indefinição no PSDB entre ele e Aécio Neves só estica ainda mais a corda para o lado governista.


domingo, 18 de outubro de 2009















Dormindo no ponto


Com uma legislação frouxa como a do Brasil, em vez de o PSDB ir à Justiça Eleitoral contra a viagem de Lula e comitiva ao Sertão do São Francisco, na semana passada, deveria mesmo era ir às ruas com seus pré-candidatos. Porque enquanto os tucanos tentam ganhar espaço no tapetão, os petistas se adiantam e mostram a cara ao eleitor.

Está certo que o PSDB não dispõe do cobertor da máquina administrativa para justificar qualquer aparição pública, como fez na candidatura à reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998, e na pré-campanha de José Serra, então ministro da Saúde de FHC, em 2002. Mas há outros modos. E Serra até que vem conseguindo aparecer bem, com uma viagem aqui e outra ali pelo País.

Ou vão me dizer que um governador de São Paulo tem o que fazer em Petrolina, ou em Exu? Foi clara a intenção eleitoral dessas visitas de Serra – só para ficar nas duas últimas que aconteceram recentemente em Pernambuco – de divulgar a sua candidatura e tentar quebrar o estigma de anti-nordestino que paira sobre o governador paulista.

É pouco, diante do poderio da máquina do PT, aliada ao PSB e ao PMDB em vários Estados. Mas é onde o PSDB deveria apostar. Porque se forem esperar pela opinião da Justiça Eleitoral, além de correr o risco de ver seus adversários inocentados, os tucanos ainda perdem tempo e terreno importante.

Sobretudo no Nordeste, onde, não bastasse o arsenal de obras – algumas muito aguardadas pelo povo, e que os governos do PSDB não tiveram o cuidado de tocar – Lula e seu candidato, ou candidata, ainda comandam um grande cabo eleitoral, o Bolsa-Família. Instrumento ironicamente herdado do governo tucano. Que não soube explorá-lo politicamente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009












Uma briga desigual

O deputado Ciro Gomes (PSB) parece mesmo decidido a disputar a sucessão presidencial. Tanto que vem agindo como candidato durante toda a visita do presidente Lula às obras da transposição, em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Não desgruda de Lula em nenhum momento. Nem de madrugada, quando a comitiva descontraiu ao som do forró de Maciel Melo.

Ao contrário da sua concorrente, Ciro foi um dos últimos a sair da festinha. E amanheceu praticamente na porta do quarto do presidente. Mas ninguém se engane, achando que Lula hesita em algum momento entre Dilma e Ciro. Nem mesmo diante das pesquisas, que apontam o deputado na frente da ministra da Casa Civil.

A presença de Ciro na comitiva foi comentadíssima pelos aliados, mas apenas como uma deferência do presidente ao seu ex-ministro da integração Nacional, que durante o primeiro mandato foi o responsável por iniciar as obras da transposição.

Lula não esconde que tem uma dívida de gratidão com Ciro, pela obra que encontrou em estágio avançado.

Mas é só. Dilma continua preferida, e, beneficiada pelo status de "mãe" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), teve lugar cativo ao lado do presidente nas aparições públicas da comitiva.

Os dois presidenciáveis conversaram muito no Sertão, trocaram sorrisos e acenos. Até dividiram "eleitores". Mas enquanto a ministra caminha junto a Lula, Ciro tem se mantido discretamente um passo atrás ou à frente.

A desvantagem, porém, é maior que isso. Parte do PT não quer nem ouvir o nome de Ciro. Avaliam que seu passado de ex-tucano compromete qualquer chance de apoio à uma candidatura presidencial. Não bastasse ter governado o Ceará vestindo a camisa do PSDB, foi sob esse mesmo manto que ele ocupou o Ministério da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso. Rompeu logo no início da gestão tucana, é bem verdade. Mas para filiar-se ao PPS, outra legenda que hoje faz dura oposição ao governo petista.

Se o ex-ministro traz no currículo, além do preparo técnico e político, o histórico de duas disputas presidenciais, a atual ministra, por sua vez, permanece ungida pelas bençãos de Lula e sua altíssima popularidade. E isso, ao menos no Brasil de hoje, é uma credencial bem mais poderosa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009














O gato no telhado


Durante o encontro do PMDB em Abreu e Lima, no fim de semana, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) deixou claro nas entrelinhas do seu discurso que não pretende vestir a camisa de opção única das oposições na disputa pelo governo do Estado em 2010.

Quem entende bem a linguagem "cifrada" de Jarbas, interpretou o recado: ele não está disposto a ir para o sacrifício, entrando na briga sem uma base sólida. E se
topar a parada de enfrentar a forte máquina que está por trás da reeleição de Eduardo Campos (PSB), estará agindo movido por pesquisas que lhe garantem uma mínima chance de vitória. Porque, pessoalmente, sua vontade de voltar ao governo é zero.

Houve jarbista, porém, que saiu do encontro do PMDB achando que o chefe estaria um pouco mais estusiasmado com a possibilidade de vir a disputar um terceiro mandato no Palácio do Campo das Princesas. Esses, certamente, não compreenderam bem a fala de Jarbas.

Ao afirmar que
"as oposições vão buscar o que for melhor para o Estado", e que terão o que mostrar em 2010, ele sinalizou exatamente o contrário. Em bom politiquês, avisou que seria melhor examinar outras alternativas para a cabeça de chapa.

Jarbas não esconde que seu desejo pessoal é permanecer no Senado, onde tem destaque nacional como uma das poucas vozes de oposição ao presidente Lula. E no caso de vitória do presidenciável do PSDB, José Serra, essa notoriedade tende a crescer. Como um dos grandes aliados do tucano, independente de estar filiado ao PMDB, seu nome certamente figuraria numa lista de "ministeriáveis".

Há uma outra hipótese que animaria de verdade o peemedebista: a disputa presidencial, como candidato a vice de Serra. Se dependesse da vontade dos tucanos, o convite já poderia até estar feito. Mas a indisposição de Jarbas com a maioria governista do PMDB praticamente anula as chances.


De qualquer forma, já era previsível uma sinalização de recuo por parte do senador após concluído o prazo para filiação partidária de candidatos às eleições de 2010. Enquanto a temporada de troca-troca esteve aberta, ele procurou não se manifestar, para evitar uma debandada ainda maior no já debilitado quadro da oposição. Afinal, muita gente se segurou por lá movida pelo fio de esperança de tê-lo na chapa majoritária.


No fim de semana, porém, Jarbas começou a pôr um freio nos aliados mais otimistas. Deixou clara, em alguns trechos do seu discurso, a cautela com que trata o assunto. Por exemplo, quando afirmou que "... pode ser A, B ou C que vá disputar o governo. Essa pessoa vai ao guia eleitoral mostrar o que Pernambuco fez quando o PMDB foi governo".

Não nominou quem seriam esses "A, B ou C". Nem precisava. Mas a cúpula da União por Pernambuco entendeu a mensagem. E provavelmente não gostou.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009














Enem aí!

Tinha começado com o pé esquerdo, na base da experimentação e da politicagem. Só podia dar no que deu. As provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – novo modelo de vestibular implantado a jato no Brasil, sob protestos dos estudantes e escolas – foram roubadas.


Parece surreal. Na primeira tentativa de inovar a seleção de candidatos às universidades públicas, o governo se deixa vitimar por uma gatunice. Os ladrões das provas ­– supostamente retiradas do bem vigiado cofre do Inep, entidade encarregada de elaborar os exames – tentaram vendê-las ao jornal O Estado de S. Paulo. Por R$ 500 mil e um aviso: “Isso é sério, derruba ministério”.


Os intermediários, porém, levantaram suspeitas mais graves: as provas teriam sido surrupiadas por uma quadrilha de cinco pessoas, provavelmente funcionários do Inep.


Que no Brasil, coisas como essas aconteçam, não é surpresa. É até cultural, levando em consideração o exemplo dos nossos representantes, movidos à base da Lei de Gérson.


É preciso cobrar explicações do Ministério da Educação sobre a escolha do Inep para o trabalho. E também sobre o esquema de segurança das provas.


Se todo esse escândalo derruba ministro? Em países sérios, talvez. Por aqui, é improvável. Principalmente se o ministro tiver projeto eleitoral, avalizado pelo governo.

Não é apenas um roubo, mas um prejuízo grande para mais de 4 milhões de estudantes. Gente que se preparou muito. Gente que, de última hora, teve que esquecer todo o antigo esquema de vestibular para o qual vinha treinando, e que se esforçou para entender o novo modelo, implantado goela abaixo sem dar um ou dois anos, pelo menos, para as escolas e cursinhos se adaptarem.


Agora, enquanto a estudantada espera, pacientemente, mais 45 dias pela nova data da prova, o jeito é seguir a singela recomendação do ministro Fernando Haddad, e utilizar esse tempo para continuar estudando.

terça-feira, 29 de setembro de 2009












Quem representa o povo?

Começaram a tomar posse como vereadores os primeiros suplentes beneficiados pela PEC aprovada pelo Congresso Nacional no dia 23 passado. Polêmica e desnecessária, a emenda permitiu a criação de mais de 7 mil novas vagas nas câmaras municipais pelo País afora.

Não bastasse o papel do vereador já vir, há muito, sendo questionado, lá vai o Brasil de novo na contramão da história. Em muitos dos países desenvolvidos, a figura do vereador simplesmente inexiste. A função é exercida – e a contento – por conselheiros de bairros, que uma vez ou duas ao mês se reúnem para discutir os problemas das suas comunidades e tratar de questões da cidade.

Um detalhe importante: esses conselheiros são votados distritalmente, não recebem remuneração, não têm direito a nomear funcionários comissionados nem dispõem de verbas de gabinete, assessores, secretárias, motoristas e outras regalias pagas com dinheiro do contribuinte.

Os conselheiros vivem do dinheiro que ganham em suas profissões. E nos dias em que precisam se afastar do emprego para assumir a representação comunitária, são indenizados com uma remuneração referente a um dia de trabalho.

Alguém acha que com um sistema semelhante no Brasil, haveria tanta gente interessada no cargo?

Pois bem. Sábado, os dois primeiros suplentes de vereador tomaram posse nos cargos em Bela Vista de Goiás (GO). Em solenidade concorrida, com discursos e foguetório.

Ontem, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, enviou ofício aos presidentes dos tribunais regionais eleitorais informando que, no entendimento do TSE, as novas vagas de vereadores criadas pela PEC só poderiam ser preenchidas a partir da próxima eleição municipal, em 2012.

Tarde demais. Várias posses já estão marcadas pelo País. Inclusive em Pernambuco. São Caetano e Toritama foram as duas primeiras cidades onde as câmaras anunciaram que vão dar posse aos suplentes beneficiados com a emenda.

Se a moda pega, a onda de ampliações vai se alastrar. Em algumas cidades, de acordo com os cálculos da PEC, o número de novos vereadores pode chegar a dez. Casos como São Luiz do Maranhão e Maceió das Alagoas. Dois lugares onde a política ainda é feita à moda dos coronéis.

E não bastasse o drama do aumento das vagas, há quem ainda faça uso político disso. Em alguns municípios onde os prefeitos têm minoria no legislativo, a ampliação começa a ser vista como uma arma para virar o jogo.

Basta que os suplentes beneficiados sejam aliados do governo. Pronto! É maioria garantida na câmara. E o contribuinte é, mais uma vez, apenas um detalhe.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009











E agora, Lula?


A grande novidade da nova rodada da pesquisa CNI/Ibope sobre a sucessão presidencial, divulgada ontem, não é a queda de quatro pontos no índice do líder, José Serra (PSDB). Nem o bom desempenho da estreante Marina Silva (PV), que de saída já recebeu 8% das intenções de voto.

Novidade mesmo é o tamanho da dor de cabeça que o levantamento gerou no alto escalão do PT, com a ascensão do presidenciável do PSB, Ciro Gomes.
Ainda falta um ano para as eleições, e ele já ultrapassou a ministra Dilma Rousseff, preferida de Lula para representar o lado governista na disputa.

Ciro, que em junho aparecia em terceiro lugar, foi para a vice-liderança da corrida, com 17%. Dilma, ao contrário, aparece agora com 15%. Perdeu quatro pontos percentuais em relação à pesquisa de junho, e também perdeu a segunda posição para o socialista.


Soou um alerta geral no Palácio do Planalto. Afinal, como aliado de primeira hora, o PSB não deve ser magoado. E muito menos, combatido. Já desconfiado que o cenário pré-eleitoral ia se complicar, o presidente Lula fez o que pode para evitar mais esse revés da sua candidata.

O apelo pessoal, feito ao presidente nacional do PSB, governador Eduardo Campos, um fiel escudeiro, não deu resultados.
Lula, então, inventou um plano B para Ciro Gomes. Sacrificaria os planos de alguns petistas da sua mais alta estima ­- como Marta Suplicy, Antonio Palocci e José Genoíno -, para ceder a vaga de candidato do Planalto ao governo de São Paulo para o deputado federal cearense, nascido em Pindamonhangaba (SP). Também não funcionou.

Embora ciente de que São Paulo é "um país dentro de um país", Ciro se manteve irredutível. Já disputou duas eleições presidenciais sem sucesso, mas, baseado no exemplo do próprio Lula, pretende insistir até conseguir.

Quem gosta de política, sabe de cor o jargão: pesquisa é o retrato de um momento. É verdade. Tudo pode mudar até outubro de 2010. Mas para que mude mesmo, é preciso que os protagonistas se movimentem de forma mais clara e decidida.

E que movimentos a mais Lula poderia fazer em favor de Dilma? Só não carregou a ministra nas costas porque pegaria mal. Mas até já puxou a aliada para cima de um trator. Levava a presidenciável no bolso do colete para qualquer solenidade, de qualquer setor do governo, fosse em que Estado fosse. E só deu um tempo quando ela precisou tratar um linfoma.

Se botar mais um pouco de empenho, o presidente corre o risco de terminar acusado pelos concorrentes de usar a máquina administrativa em favor da sua candidata. Um hábito condenável, que - se não me falha a memória - os petistas, quando na oposição, costumavam sempre apontar nos seus adversários.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009










Governismo epidêmico

Faltam pouco mais de dez dias para o término do prazo de filiação partidária para candidatos às eleições do próximo ano, e até agora não se viu tanto troca-troca de legendas como na disputa passada. O que não é surpresa. Afinal, depois que a Justiça Eleitoral promulgou a resolução estabelecendo a fidelidade partidária - medida que o Congresso Nacional deveria ter votado, mas se recusou - quem mudar de sigla sem justificativa apropriada pode perder o mandato.

A aproximação da data final, porém, deve revelar novo surto de uma doença que costuma pegar de jeito uma ampla faixa de políticos brasileiros: o governismo. Os sintomas - nem sempre muito evidentes - consistem em mudanças bruscas de posição política, um inexplicável sentimento de simpatia pelo governante ao qual o acometido da doença costumava fazer oposição, amnésia e negação do próprio passado.

Se você percebeu algum desses sintomas no político em que votou, não se assuste. O governismo não mata. Ao contrário, promove. Via de regra, deixa a "vítima" mais poderosa e mais ativa. Às vezes até um pouco mais rica. Em outras, aumenta o potencial de votos. No ápice, pode garantir até uns carguinhos extras.

O governismo só é nocivo ao eleitor e à sociedade. Afinal, político brasileiro vinculado a uma ideologia política ou a conteúdos programáticos de um ou outro partido, é algo raro. Política, hoje, se faz por conveniência, afinidades pessoais e oferta de vantagens.

Por isso a expectativa quanto ao encerramento do prazo de filiações de candidatos. A data será uma espécie de termômetro, que vai auferir se a febre do governismo aumentou ou diminuiu.

Em Pernambuco, a doença está cada vez mais espalhada. Nos próximos dias, deve contaminar um bom número de prefeitos e vereadores. E certamente chegará com mais potência à Assembleia Legislativa.

Já na esfera nacional, diante da indiscutível força política da máquina governista pilotada pelo presidente Lula - alimentada pelo Bolsa-Família e agora movida a petróleo do pré-sal -, é provável que o governismo, a partir de outubro próximo, ganhe uma dimensão epidêmica.

Os "pacientes" passarão por um período de aproximadamente um ano de incubação. A má notícia - para eles - é que apesar da contaminação voluntária, nem todos conseguirão a cura nas urnas de 2010.

terça-feira, 15 de setembro de 2009















Sem tesão não há eleição

Candidato a presidente estadual do PT pelo Campo de Esquerda Unificado (CEU), o deputado federal Fernando Ferro não foi feliz ao afirmar que a mídia brasileira sente "prazer sexual" em atacar o seu partido. Afinal, a imprensa - ao menos a parte responsável dela - costuma se limitar a reproduzir críticas de adversários ou publicar análises baseadas em fatos produzidos pelos próprios políticos.


Mas quem precisa de adversário no PT? Uma das melhores e mais lúcidas definições sobre o momento atual da legenda foi feita ontem, no Recife, por um petista do alto escalão, o deputado federal brasiliense Geraldo Magela. Colega de Ferro na Câmara dos Deputados, Magela é candidato do Movimento PT à presidência nacional do partido, com o apoio do parlamentar pernambucano.

Disse Magela: "O PT se transformou numa secretaria de homologações de indicações do governo Lula. Muitas vezes, de uma só tendência". A intenção do parlamentar era a de atacar os adversários do Construindo um Novo Brasil (CNB), tendência que há anos mantém a hegemonia do partido, e pretende dar continuidade ao monopólio nas eleições internas que o PT realiza em novembro, agora com a candidatura do sergipano José Eduardo Dutra.

A crítica de Magela, porém, termina por explodir no colo de todo o partido. Afinal, quem trabalhou para eleger Lula foi somente o pessoal do CNB? O então presidenciável petista não teve também o apoio integral do CEU?

Difícil, mesmo, é ser governo. Essa é a conclusão a que muitos já chegaram, mas que parece faltar a uma larga fatia de petistas, que ainda pensam estar no papel de pedra. Ou seja, de oposição.

Desde que virou vitrine - ou seja, governo - o PT tem chiado muito as críticas, inerentes a quem quer que esteja no poder.
Deveria, isto sim, aproveitá-las, para aperfeiçoar sua administração e, principalmente, sua postura política. Que, aliás, a cada dia vem perdendo mais "sex appeal", assumindo um comportamento cada vez mais institucional e deixando de ser atraente para o eleitor. Ao menos para aquele eleitor que, no passado, tinha o maior tesão pelo PT.



sexta-feira, 11 de setembro de 2009














O animal político

Engana-se quem pensa que esta quinta visita do presidente Lula a Pernambuco em 2009, que acontece nesta sexta-feira, tem um caráter menos político que as anteriores. Lula só para de fazer política quando dorme. Se é que não sonha todas as noites com a eleição da ministra Dilma Rousseff para o seu lugar, em 2010.

Os eventos previstos na agenda do presidente são todos efetivamente econômicos. Tem cais em Suape, indústria naval, indústria alimentícia e centro de tecnologia de medicamentos. Até a inauguração da escola profissionalizante de Ipojuca tem lá sua derivação, já que visa a colocação de jovens no mercado de trabalho.


Dessa vez, Dilma não integra a comitiva presidencial no Estado. Ficou em Brasília, de repouso, recuperando-se do duro tratamento contra o linfoma. Mas isso não impede Lula de fazer política. Aliás, proselitismo político.

Prova disso é que duas das cinco obras "inauguradas" por ele hoje já estavam em pleno funcionamento desde janeiro. O moinho da Bunge Alimentos, em Suape, e a Escola Profissionalizante de Ipojuca. As festas, nesses dois lugares, não passaram de pirotecnia eleitoral.


Quanto ao Cais 5 de Suape, embora tenha sido inaugurado - de verdade - hoje cedo pelo presidente, teve quase toda a sua construção bancada por dinheiro azul e branco, dos cofres estaduais, ao contrário dos outros píeres, que receberam gordas fatias de verbas federais.


Nada disso inibe a fome política de Lula. E da mesma forma como fez ao longo de sete anos de governo com o Bolsa-Família e, depois, com o PAC, em cada discurso que fez em Pernambuco Lula deu um jeito de inserir o novo mote da campanha petista de 2010: o pré-sal.

Fosse em Suape, numa indústria de alimentos ou numa escola técnica, o pré-sal estava na fala presidencial como a nova tábua de salvação do Brasil. E sempre temperado com elogios aos aliados políticos, cuja colaboração nesses sete anos de gestão petista foram - segundo o chefe - imprescindíveis para o País "dar certo".


Bom, se um comportamento como esse não é pura política, imagine quando a campanha presidencial estiver deflagrada oficialmente?





quarta-feira, 9 de setembro de 2009
















Confiança só, não basta

A pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem é, como todas as demais, um retrato do momento. E o que esse retrato diz, agora, deveria servir como um sério alerta aos petistas sobre os riscos do excesso de confiança.

A pesquisa revela que o presidente Lula perdeu, nos últimos três meses, quase cinco pontos percentuais na sua popularidade. Foi de 81,5% em maio para 76,8% em setembro. A avaliação positiva do governo caiu outros 4,4 pontos, ao tempo em que o número de eleitores que desaprovam a gestão subiu três, passando de 15,7% para 18,7%.

O alerta não é restrito a Lula, mas extensivo à presidenciável do PT, ministra Dilma Rousseff. Ambos vêm agindo de olhos completamente voltados para a eleição, sem dar sinais de preocupação com o que pensa a sociedade a respeito dos seus atos.

Hoje, mais do que nunca, todos os movimentos do Planalto apontam no sentido da disputa de 2010. Seja em grande dimensão, como na festança pública do pré-sal, seja em pequenos espaços, como na liberação de rubricas orçamentárias para os aliados.

O apoio irrestrito ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), foi, sem dúvidas, um dos maiores tiros no pé. Não bastasse a “marolinha” da crise econômica mundial ainda a lamber-lhe as canelas, e uma pandemia de gripe a lhe escorrer pelo nariz, Lula peitou toda a sociedade – escandalizada com o caminhão de desmandos promovidos por Sarney –, ao defender ostensivamente o aliado. Não admitia por em risco o apoio do PMDB à candidatura de Dilma. Só largou a corda quando a situação ficou insustentável.

Da mesma forma, o presidente cavou uma trincheira para sua candidata-ministra da Casa Civil quando explodiram nas manchetes as acusações da ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, de que Dilma a teria convocado para uma reunião informal com o objetivo de aliviar a barra dos Sarney com o fisco.

Como resultado, a presidenciável em cujos ouvidos sopraram que já estava praticamente eleita caiu 4,5 pontos percentuais na pesquisa de intenção de votos divulgada ontem pela CNT/Sensus, em relação ao levantamento feito em maio.
Além do desgaste do episódio Lina Vieira, outra novidade com nome e sobrenome veio atazanar Dilma: Marina Silva.

A entrada da senadora acreana no PV e, eventualmente, na disputa presidencial, abalou as estruturas do palanque petista. Prova disso é que em maio – ainda sem Marina – Dilma cravou 23,5% na pesquisa CNT/Sensus, para deleite do Planalto. Agora em setembro, porém, já com a adversária verde no páreo, caiu para 19%.

A presença de Marina é um fator tão incômodo para os petistas que forçou até um upgrade de emergência no discurso. De desenvolvimentista convicta desde que assumiu o Ministério das Minas e Energia, ainda no primeiro mandato de Lula, Dilma vai passar à condição de militante ambientalista veterana. Engajada desde pequenininha no tema da moda: sustentabilidade.

Enfim, parecem ser estas as entrelinhas da pesquisa CNT/Sensus. Ao menos para o Palácio do Planalto. Que deveria perceber, de uma vez por todas, que diante de tanta lama e desmoralização no poder central, excessos de confiança já não passam mais tão despercebidos ao eleitor atento.

domingo, 6 de setembro de 2009
















A ministra do dedo verde

Quando assumiu o Ministério das Minas e Energia, em janeiro de 2003, a até então obscura economista Dilma Rousseff tinha como meta evitar, a todo custo, um novo apagão. E levou a missão ao pé da letra.

Defensora das privatizações no setor – ao contrário de muita gente do seu partido – ela estimulou a produção de energia, inclusive com do uso dos rios para hidrelétricas, carvão e petróleo nas termoelétricas, e o que mais conseguisse arranjar.

Vez por outra, batia de frente com ambientalistas, inclusive o ministro da área, Gilberto Gil. Mas cumpriu a função que lhe fora designada, com as bênçãos do presidente Lula, que de tão satisfeito, a promoveu a ministra da Casa Civil.

Pois bem, no País da memória curta, qual não foi o susto de muita gente ao descobrir, ao longo da última semana, que Dilma Rousseff tem consciência ambiental e ecológica. Isso mesmo! E mais ainda: elegerá como uma das suas prioridades, a partir de agora, um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia.

Esse plano – uma espécie de PAC do meio ambiente – foi encomendado por Lula às pressas, minutos após a filiação da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ao Partido Verde, legenda pela qual ela deverá disputar a Presidência da República contra... Dilma!

Com os temas ambientais em alta, mais do que nunca, no mundo inteiro, Lula não perdeu tempo. Não pretende assistir todo o esforço que vem fazendo para eleger sua ministra da Casa Civil descer rio abaixo, com hidrelétricas e tudo.

Vale lembrar que, para conseguir a implantação do Fundo da Amazônia, a própria Marina Silva – e depois seu sucessor, Carlos Minc – tiveram que enfrentar vários embates com a ministra da Casa Civil, encarregada por Lula de tratar do assunto, ao qual ela não costumava dar a real importância.

De fato, até a entrada de Marina no páreo Dilma jamais tinha agregado a questão ambiental ao seu discurso. Não combina com ela. Seu foco é, e sempre foi, exatamente o contrário disso: a “mãe do PAC” defende com unhas e dentes a ampliação da infra-estrutura do País, custe o que custar. Inclusive ao meio ambiente.

Diante do fator Marina – que chegou assustando os petistas, por ser uma presidenciável mulher, ligada aos movimentos sociais e com consciência ecológica – Dilma está imersa em seu gabinete, tomando aulas sobre questões ambientais e desenvolvimento sustentável. Na cartilha, elaborada para ela a toque de caixa, temas como o aquecimento global, o desmatamento da Amazônia, energias renováveis e tantos outros.

Agora é só esperar as próximas aparições públicas da presidenciável petista. Cujo discurso, certamente, estará mais “verde” do que nunca. Ao menos até outubro de 2010.



quarta-feira, 2 de setembro de 2009


















Imortal como nunca!

Ele já havia se imortalizado pelo estilo agressivo, tipo rolo-compressor, de fazer campanha. Embora fosse considerado "zebra" no início da disputa, chegou à Presidência da República, prometendo caçar os marajás do serviço público.

Em seguida, se imortalizou como o primeiro presidente brasileiro a sofrer um processo de impeachment. Embora tenha renunciado poucas horas antes da decisão final do Congresso, que o afastaria do cargo.

Também se imortalizou pelo bem montado esquema de corrupção durante seus dois anos de governo, com a ajuda do ex-tesoureiro de campanha. Embora seus sucessores tenham caprichado nas tentativas de superá-lo nessa área.

Mas agora, é oficial. Fernando Collor de Mello foi eleito para a cadeira nº 20 da Academia Alagoana de Letras, assumindo de vez o título de imortal. Embora ainda não tenha escrito sequer um livro. Seu pai, o ex-senador Arnon de Mello, foi um dos integrantes da instituição, que tem como membros mais famosos o ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Ledo Ivo, e o lexicógrafo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira.

Collor se apresentou como candidato único à vaga que pertencera ao médico Ib Gatto Falcão, falecido em dezembro passado. Debaixo do braço, trazia algumas plaquetes de discursos proferidos e um esboço do que promete ser seu primeiro livro, contando a sua versão do processo que o levou à renúncia, em 1992.

Na Academia Alagoana de Letras há 40 cadeiras. Dos 39 atuais integrantes, 30 apareceram pela manhã para votar. Collor obteve 22 votos em seu favor. Os outros oito foram em branco. Não se sabe se por falta de opção ou crise de consciência dos seus autores.

Um detalhe importante: o principal interessado não compareceu à votação. Estava em Brasília, cuidando das atividades no Senado. Ponto pra ele! Afinal, depois de 14 anos sem mandato - oito dos quais com os direitos políticos cassados, à revelia, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - que bom que demonstre interesse no trabalho legislativo.

Trabalho do qual esteve licenciado por duas vezes. Na primeira, afastou-se do Senado logo após a posse, de 1º de fevereiro a 29 de agosto de 2007, para tratar de "interesses pessoais". Foi substituído pelo primo e primeiro suplente Euclydes Mello.

Na segunda licença, em 2008, saiu por 120 dias para participar das campanhas de candidatos do PTB a prefeito em Alagoas. Dessa vez, o próprio Euclydes Mello era candidato à Prefeitura alagoana de Marechal Deodoro. Collor foi então substituído pela segunda suplente, Ada Mello. Atenção aos sobrenomes: sim, Ada também é prima de Collor.

Assim se faz política em Alagoas.















Remendos na reforma

Chegam a dar pena as tentativas dos deputados e senadores de elaborar uma reforma eleitoral às pressas, para vigorar em 2010. Sobretudo por dois aspectos: o primeiro, enfadonho já, é o tom casuístico do projeto, que deixa de lado itens capitais para a melhoria das condições políticas do País, como o voto em listas fechadas, o fim das coligações, a cláusula de barreira e o financiamento público de campanhas.

Em vez disso, os congressistas se debruçam sobre questões menores, que poderiam ser resolvidas no bojo de uma normatização simples. Menores para nós, eleitores, porque para eles são estratégicas para a renovação dos mandatos.

Há questões polêmicas mantidas no texto da proposta que deve ir à votação ainda esta semana no Senado, como a manutenção dos candidatos ficha-suja: políticos com pendências na Justiça, contas rejeitadas ou respondendo a processo não transitado em julgado poderão concorrer.

A proposta de reforma relâmpago mantém ainda as doações indiretas e ocultas aos candidatos. O dinheiro pode ser dado aos partidos, que o repassará aos candidatos pelos respectivos comitês. O eleitor fica impedido de saber quem doou ao candidato.

O segundo aspecto confirma o despreparo dos nossos parlamentares. Ninguém consegue chegar a um consenso sobre a legislação eleitoral para a internet. Território livre e ainda uma novidade, a questão tem deixado os deputados e senadores perdidos.

A decisão mais concreta a que se conseguiu chegar foi proibir a propaganda eleitoral paga em sites da rede. Hoje em dia, se candidatos mais ricos saem em vantagem sobre os menos endinheirados na campanha tradicional, imagine se isso se estende à internet, que até o momento tem sido o ringue mais equilibrado?

O projeto também estabelece punições para portais jornalísticos que dêem tratamento diferenciado a algum candidato. Mas não explica como vai controlar os pequenos sites pessoais e os blogs.

É bom lembrar que na campanha eleitoral nos Estados Unidos, o vencedor Barack Obama usou com eficiência as chamadas redes sociais da internet. O que lhe garantiu um verdadeiro exército de cabos eleitorais voluntários, e uma arrecadação de meio bilhão de dólares em doações online. Tudo sob a vigilância dos órgãos de fiscalização.

De acordo com a proposta em votação no Congresso Nacional, as doações de pessoas físicas pela internet serão permitidas, com o limite de 10% da renda atual do cidaão doador. Quanto às empresas, essas não poderão financiar campanhas pela rede.

Difícil vai ser controlar tudo isso, num país onde o caixa dois de campanha nunca foi permitido, e no entanto...

terça-feira, 1 de setembro de 2009





















Top 3 Nacional

Pois é! O Pólis chegou lá, com a ajuda dos leitores. Quando criei este blog, meu objetivo era garantir, enquanto jornalista político, um espaço para opinião e crítica.

Hoje, este espaço está classificado entre os três melhores blogs de política do País, no Prêmio Nacional TopBlog. E em duas categorias: Juri Popular (vocês), e Juri Acadêmico. O resultado sai em breve!
Veja os finalistas no site TopBlog.

Agradeço desde já a todos que votaram no meu blog.













Uma conta (pré)salgada

Lá vai Lula de novo, mais uma vez colocando a sucessão presidencial de 2010 acima dos pontos de pauta mais importantes do seu governo.

Agora, é a vez do pré-sal. A descoberta mais importante da década, em termos de matriz energética, vai, aos poucos, se transformando em combustível para alimentar a candidatura de ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, presidenciável do PT.

Para regulamentar a exploração das novas fontes petrolíferas brasileiras, o presidente precisa do aval do Congresso Nacional. Que, como todos sabem, não faz nada de graça. Nem que seja movido pelos interesses nacionais.

Coube a Lula, então, atender mais uma vez aos aliados e a si próprio. Em meio a reuniões com adversários e solenidades teatrais, enviou rapidamente ao Congresso o pacote de quatro projetos que precisam de aprovação do Legislativo para que o pré-sal comece a ser explorado.

Não deu atenção nem à Confederação Nacional da Indústria, que em nota aconselhou o Planalto a tratar o assunto com a sociedade, antes de sair aprovando leis impensadas, a toque de caixa.

Não se explica – a não ser pelo fato de as eleições se avizinharem – essa pressa do Planalto. Primeiro, enviou as matérias em regime de urgência. Depois, retirou o pedido de agilização. Em seguida, mandou novamente os parlamentares se apressarem.

Por que tudo isso se, afinal, o petróleo já é nosso? Está ali, nos veios que cruzam os subsolos do Brasil há muitos anos. Para que empurrar a votação em 90 dias – como determina o regime de preferência – se o trabalho de prospecção é lento e gradual?

Porque a prospecção dos votos para Dilma não é. Precisa ser rápida, para tentar ultrapassar o favoritismo de José Serra (PSDB), evitar a aproximação de Marina Silva (PV) e, acima de tudo, vencer o desgaste tradicional de todo final de governo.

Deve ser por isso que Lula não abre mão de colocar nas relatorias dos projetos, deputados e senadores do PT e do PMDB, os dois maiores partidos da base aliada. Nada de dar chances para a oposição tirar qualquer proveito da descoberta, ainda que ela esteja acima dos interesses eleitorais, e sirva para ajudar muito o Brasil na guerra pelo mercado de combustíveis.

De fato, a chama que impulsiona Lula e sua turma, hoje, é mesmo outra. Que eles pretendem manter acesa por pelo menos mais quatro anos.