segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Intolerância fratricida












Um dia depois de proclamado o resultado oficial do segundo turno, alguns serristas decidiram chamar a atenção para si, após a derrota do seu candidato a presidente. Invadiram o twitter com uma tentativa de campanha ao estilo Ku Klux Klan, depreciando os nordestinos. O motivo da diversão? Culpar os eleitores da região - donos de 28% dos votos do País - pela vitória da petista Dilma Rousseff.


Uma iniciativa como essa, longe de merecer uma discussão mais profunda, deve ser vista como um mero surto de "jus esperneandi". O esperneio de quem não sabe perder e precisa culpar alguém, que não seu próprio candidato, pelo fracasso nas urnas. Atacar os nordestinos foi a via mais fácil encontrada. Afinal, Dilma venceu José Serra nos nove Estados da região, e em alguns deles, ficou com mais de 70% dos votos.

Mas a matemática, ainda bem, é uma ciência exata. E na ponta do lápis, é possível constatar que os nordestinos apenas aumentaram a vantagem que Dilma obteve no resto do País. Nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, ela recebeu 1.873.507 votos a mais do que José Serra. E se o tucano venceu a disputa no Sul, no vizinho Sudeste ele foi derrotado por Dilma com uma vantagem de 1.630.614 votos.

Não é a primeira vez que gente "instruída" do Sul Maravilha prega contra o Nordeste. É fácil, porque sempre foi a região mais carente do Brasil. Que somente no governo Lula passou a receber um pouco mais atenção, embora isso ainda se traduza em ações meramente assistenciais. Mas ao contrário do que pregam, de barriga cheia, alguns setores da suposta intelectualidade nacional, a mesada do Bolsa-Família ainda é melhor que a fome e a miséria.

Independente do que se pense de Lula, Dilma ou mesmo Serra, o importante é não alimentar a tentativa irresponsável de sectarizar ainda mais uma eleição que, de tão baixo nível, criou no Brasil duas facções praticamente inimigas. Uma ferida que vai demandar tempo e muito esforço político para cicatrizar.

Idiotice é jogar combustível nessa fogueira, sem medir as consequências. Já houve no Brasil uma campanha no sentido inverso. Um grupo defendia que o Nordeste fosse declarado independente do restante do País. Não havia internet, mas era outra iniciativa sem pé nem cabeça, tal qual essa a que assistimos agora.

Seria bom, portanto, desmontar os palanques, reconhecer a derrota e aprender a conviver com ela. Afinal de contas, acima de todas as diferenças, quem votou em José Serra, Marina Silva, Plínio de Arruda Sampaio ou qualquer outro candidato - e mesmo aqueles que, insatisfeitos com a falta de melhores opções, anularam o voto - vive e mora no Brasil. E até onde a história mostra, a briga entre irmãos sempre acabou em tragédia.

domingo, 31 de outubro de 2010

O nordeste de Dilma















Continuidade é a palavra que deve nortear o futuro governo Dilma Rousseff (PT). Eleita sob as bençãos - e esforços - do presidente Lula, agora cabe exclusivamente a ela, a partir de janeiro, cumprir os compromissos assumidos em seu nome pelo padrinho político nos palanques e fora deles.


E isso inclui, sobremaneira, o Nordeste. Não foi a toa que Lula rearrumou a geografia política do País, migrando para cá o PT que até então estava acostumado aos redutos operários do ABC paulista e dos Estados do Sul. Desbancou, com isso, os coronéis da indústria da miséria que trocavam votos por dentaduras e sapatos e implantou aqui uma política assistencial que, se não é a melhor de todas - e não é mesmo - serviu ao menos para garantir uma das suas promessas de campanha: três refeições diárias para quem às vezes não tinha nem uma.


Agora, porém, virão as cobranças. Dilma ouviu e aprovou os compromissos assumidos por Lula em seu nome. Terá que zelar por um Nordeste que acreditou nela e lhe garantiu total hegemonia. Foram 78% dos votos no Maranhão, 77% no Ceará e 76% em Pernambuco, só para citar os principais. Mas ela venceu nos nove Estados.


Está claro que Dilma não é Lula, e e que é praticamente impossível igualar os índices de popularidade do padrinho. Mas se quiser assegurar um mínimo de aprovação ao seu governo, é aconselhável conquistar a simpatia de quem nela apostou suas fichas.


Afinal, nunca na história deste país o sofrido Nordeste brasileiro recebeu tanta atenção por parte do governo central como nos últimos oito anos. Fica difícil até mesmo à oposição negar isso. É tanto que a região terminou se revelando, reconhecidamente, um calcanhar de aquiles da campanha do candidato derrotado José Serra (PSDB).


O povo nordestino jogou alto na eleição da "candidata de Lula". E vai cobrar. As obras - independente do discurso de campanha dos tucanos - estão em andamento. Se estão no prazo, é outra discussão, mas o fato é que deixá-las de lado, depois de tantas promessas, já não é uma alternativa.

A presidente Dilma Rousseff forçosamente vai ter que olhar do Planalto Central na direção do Nordeste, no mesmo ângulo que lhe ensinou seu padrinho político. É claro que ela terá outros 19 Estados para atender. Não se trata de renegá-los. Mas se ela preza pela continuidade que tanto defendeu na campanha, espera-se que mantenha a atenção especial à nossa região.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O paraíso dos ficha-suja














A (in)decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em torno da Lei da Ficha Limpa entristece e alarma quem, de fato, ainda espera por uma política justa e decente no Brasil. Entristece quando se vê magistrados da alta corte atados a dispositivos menores e arcaicos e alheios ao mérito das reais necessidades do País, que clama por moralidade e justiça social.

E alarma porque, uma vez no STF, instância máxima da Nação, não há mais para onde se recorrer no caso da lei não poder vigorar, graças às filigranas encontradas pela lupa dos advogados dos ficha-suja.


Um simples exame de memória vai revelar que os últimos vinte anos da política brasileira foram absurdamente surreais. Intoleráveis, para usar uma palavra adequada. Um escândalo nem aguarda o término de outro para eclodir, sem que nada seja verdadeiramente esclarecido.

Citar o mensalão como exemplo virou clichê. Mas, vá lá. Afinal, quem dos mensaleiros foi parar na cadeia? E os desmandos cometidos pelos caciques do Congresso Nacional, representados pelos senadores José Sarney, Renan Calheiros e, um pouco mais atrás, Jader Barbalho? Estão todos de volta, reeleitos.

Jader, embora ainda tenha o mandato ameaçado pela Lei da Ficha Limpa, depois da votação apertada - e empatada - do STF, depende de apenas um voto para assumir seu posto no limbo político da Câmara Alta.


Depois de duas décadas de luta da sociedade contra regime de exceção, e mais uma brigando para ajustar o processo democrático ao seu devido lugar, os políticos brasileiros parecem confundir - propositalmente - democracia com libertinagem.

Em "Os donos do poder", Raimundo Faoro profetizava, mais de meio século atrás, o cenário atual de barbárie política. O jurista enxergava no período colonial as origens da corrupção e da burocracia no Brasil, afirmando que enquanto elas foram superadas em outros países ao longo dos séculos, aqui na terrinha acabaram se incorporando à nossa estrutura política e econômica.

O fato é que a decisão do STF, tomada ontem, revela uma linha excessivamente tênue barrando a entrada dos candidatos ficha-suja. Basta uma interpretação jurídica diferenciada e gente como Paulo Maluf e o próprio Jader estarão de volta ao poder. do qual, é bem verdade, jamais foram apeados.

Outro caso emblemático de desequilíbrio da lei é o do deputado federal Paulo Rubem Santiago (PDT). Duro combatente da corrupção na política, ele agora enfrenta a ameaça de perder o próprio mandato para José Augusto Maia (PDT), ex-prefeito de Santa Cruz do Capibaribe, reconhecido pela Justiça como ficha-suja.


Se examinarmos o cenário em cada Estado, mais incongruências aparecerão, graças às brechas e fragilidades da lei, feita pelos políticos para proteger os políticos. E há quem ainda sonhe em promover no país uma reforma política avançada. Só mesmo em sonho.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Presidente Teflon








Já virou rotina, mas sempre surpreende ver o crescimento da popularidade pessoal do presidente Lula. O país, se acaba, mundo se acaba, e o homem continua intocável. Nada gruda nele. Nem Erenice Guerra, nem escândalo dos dossiês. Nada.


Ontem, Lula bateu no teto de novo: 83% de aprovação popular, aferidos pelo Instituto Datafolha. São três semanas consecutivas quebrando o próprio recorde. Um detalhe que precisa ser dito: esse índice compreende apenas os brasileiros que consideram ótimo ou bom o desempenho do presidente. Se somarmos a eles os 13% que avaliam a gestão como regular - como costumam fazer alguns gestores que não têm boa aprovação - o número vai à estratosfera: 96%.

Depois disso, é incrível que ainda existam críticos. Mas há. São corajosos 3% dos entrevistados pelo Datafolha que, remando contra a tsunami, avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo.

Mas o problema da popularidade alta não é ofuscar os outros, e sim a si mesmo. A cegueira que números dessa grandeza podem provocar é de dar medo. Um governante menos preparado, ao constatar-se quase uma unanimidade, fica a um passo da tirania. Sem oposição, é fácil se tornar um déspota. A linha é muito tênue, e muitos já a cruzaram.

Lula, porém, por enquanto parece apenas ter pisado nessa linha. Embora só agora tenha galgado os 83% de popularidade, há muito tempo ele já não escuta as críticas da oposição. E é importante é dizer que nem todas essas críticas são destrutivas. Algumas podem - e devem - ser aproveitadas, a título de sugestão, para melhorar algum setor que não esteja bem.

O problema é que quando a popularidade sobe à cabeça, ela tapa os ouvidos e gera intolerância com quem critica. Eis a descrição de um déspota, de acordo com muitos exemplos já registrados ao longo da história.

O mais curioso disso tudo é que Lula bateu o próprio recorde durante três semanas seguidas. Exatamente o tempo de duração do segundo turno da disputa presidencial, no qual atuou mais forte que nunca como cabo eleitoral da candidata petista Dilma Rousseff.

Pior para José Serra (PSDB). Afinal, de acordo com o Datafolha, dois de cada três eleitores declarados do tucano avaliam o desempenho de Lula como ótimo ou bom. É um cenário complicado para se pensar em uma disputa equilibrada.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Desmantelo eleitoral *













Desde a disputa entre Fernando Collor e Lula, em 1989, o País não testemunhava uma eleição presidencial com um nível tão baixo de propaganda. A análise feita por especialistas, em matéria publicada domingo pelo JC faz todo sentido: a campanha não debateu nada de real importância para a melhoria de vida do brasileiro.


Os temas que têm permeado a discussão entre os dois candidatos e seus aliados poderiam, de fato, despertar interesse. Legalização do aborto, união civil entre casais do mesmo sexo, prevalência do estado laico e outros assuntos polêmicos deveriam suscitar um debate nacional. Talvez até plebiscitos, tamanha a sua complexidade. Mas da forma como eles têm sido abordados, fica clara uma finalidade menor, mesquinha, de municiar ataques pessoais de parte a parte.


Para refrescar a memória, nas disputas de 1994 e de 1998 Lula foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso ainda no primeiro turno. Já os pleitos de 2002 e 2006 trouxeram duas vitórias do petista, ambas no segundo turno. O que torna as quatro eleições parecidas é que em todas elas a diferença entre os dois finalistas nas pesquisas era significativa, e isso pacificava os confrontos.


Mas a passagem de Serra para o segundo turno, aliada à uma aproximação com Dilma nas pesquisas, animaram o PSDB a partir para o tudo ou nada. Acuado, o PT reagiu no mesmo nível. O resultado é esse desmantelo a que o eleitor foi obrigado a assistir. Para muitos, só resta prender a respiração e suportar a última semana de uma campanha que não deve deixar saudades.


* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 25/10/2010

Troca de desaforos no debate
















A grande novidade do debate entre os presidenciáveis na TV Record, segunda-feira (25), foi um clima bem mais acirrado entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) que nos confrontos anteriores. Movidos pela aproximação do Dia D e pelos resultados das recentes pesquisas, os dois candidatos iniciaram o programa trocando farpas e até desaforos. Em vários momentos acusaram um ao outro de mentir e de distorcer dados e informações com objetivo meramente eleitoral. Atacaram os palanques dos adversários e cobraram posições dúbias.


Os escândalos envolvendo aliados dos dois presidenciáveis foram amplamente explorados. Sempre que teve oportunidade, José Serra citou o envolvimento da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, “braço direito de Dilma”, com denúncias de tráfico de influência, lembrando que ela está sendo investigada pela Polícia Federal. Dilma retrucou insistindo no envolvimento do tucano com o empresário Paulo Souza, que atuou no governo de Serra em São Paulo e hoje também está sob investigação. “Você esconde Paulo Preto. Ele não foi só seu braço direito, mas o braço esquerdo e, se duvidar, a cabeça também”, disparou.


Serra chegou a defender o ex-auxiliar – responsável pelas obras do Rodoanel e de ampliação da Marginal Tietê na sua gestão – acusando os petistas de “racismo” por terem apelidado o empresário de Paulo Preto. “Eu nem conhecia esse apelido preconceituoso e racista que vocês botaram”, reclamou. O tucano ainda insinuou que o governo petista teria favorecido o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL) com cargos em troca de apoio à candidata petista.


O tom bem-humorado do debate ficou por conta da troca de farpas irônicas. Durante os quatro blocos do programa, Dilma insistiu que Serra estava “enrolando” sem responder as perguntas. O tucano reagia acusando a adversária de “ficar só no trololó” e também não responder seus questionamentos. Os momentos de humor, porém, deram lugar a situações cansativas para a ampla maioria do eleitorado, como uma extensa discussão sobre a privatização ou não do petróleo do pré-sal e uma troca de questionamentos sobre o plano nacional de mudanças climáticas.


Em termos programáticos, no entanto, mais uma vez os candidatos ficaram devendo novidades. Assuntos importantes, como saúde, educação e segurança, foram tocados muito de leve, sem maior aprofundamento e com respostas requentadas. Um detalhe que chamou a atenção foi uma disputa velada pela atenção dos nordestinos. A região mereceu citações especiais, principalmente quanto à continuidade de obras como a Ferrovia Transnordestina e a transposição das águas do Rio São Francisco.

Segundo Serra, essas ações seriam só propaganda do governo Lula mas não teriam saído do papel, e ele se comprometeu a realizá-las. Tratamento semelhante foi dado à refinaria da Petrobras em Pernambuco. Comparando a atual situação do Nordeste à vivida no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – aliado de Serra – Dilma garantiu que as obras estão em andamento e prometeu dar continuidade.


O debate terminou com um tema polêmico. O tratamento a ser dado ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). O tucano acusou a petista de assumir posição ambígua, criticando o MST e em, seguida “vestindo o boné”. Dilma, por sua vez, afirmou que o governo Lula fez mais assentamentos que a gestão de FHC disse que o MST tem uma política própria e o governo tem outra, “mas não tratamos nenhum movimento social com cacetete e repressão”, acrescentou.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Com juros e correção













Vai levar algum tempo até que as oposições em Pernambuco se recuperem do atropelamento. Pilotado pelo governador Eduardo Campos (PSB), o trator da Frente Popular passou solenemente por cima dos adversários e, não satisfeito, voltou de marcha à ré para esmagar os que porventura ainda respirassem.


Tentei montar uma imagem na cabeça do leitor na intenção de revelar todo o significado da vitória de Eduardo. Uma vitória com um forte componente de vendeta, que o governador insiste, inutilmente, em negar. Foram mais de dez anos construindo, diuturnamente, a máquina que ontem moeu o que restava a oposição no Estado.

Não se trata de um "troco" apenas pela derrota imposta por Jarbas Vasconcelos a Miguel Arraes, em 1998. Isso seria pensar com imediatismo. Embora não declare, a vingança imposta ontem por Eduardo às oposições tem muito mais juros e correção. Incide sobre antigos episódios de uma turbulenta relação entre seu avô e o ex-aliado peemedebista.


Um primeiro conflito ocorreria no distante ano de 1979. Ao retornar do exílio, Miguel Arraes planejava retomar o mandato de governador que o regime militar lhe tirara em 1962. Achava que poderia ser o nome das oposições a enfrentar Roberto Magalhães (PDS) em 1982. Mas Jarbas - comandante do PMDB estadual - bancou a candidatura de Marcos Freire, articulada enquanto o ex-governador ainda estava na Argélia.

Dali em diante, o tratamento entre os dois aliados esfriou. Mas só se agravaria em 1990, quando Jarbas disputou o governo contra Joaquim Francisco, do PFL. Candidato a deputado federal, Arraes montou uma chapinha exclusiva do PSB com o PCdoB e pouco se empenhou na campanha do peemedebista, que acabou derrotado.

Dois anos depois, viria o troco. Favorito na disputa para prefeito do Recife, Jarbas recebeu de Arraes uma condição para apoiá-lo: queria o neto, Eduardo, na vice, numa aliança PMDB/PSB. Pedido recusado, o racha se consolidaria para sempre. Arraes e Jarbas pararam de militar juntos e deixaram até de se cumprimentar.

Em 1994, Jarbas se aliaria ao PFL, enquanto Arraes vencia a disputa ao governo do Estado. "Doutor Jarbas está no caminho da perdição", declarou o socialista, na época, em tom meio profético.

Ao final do seu mandato, porém, instado por aliados a disputar a reeleição - instrumento que condenava publicamente - Arraes levaria um revés de mais de um milhão de votos nas urnas, imposto pelo rival com o apoio do PFL, na aliança que ele, Arraes, tanto condenara. Essa mesma aliança levaria Jarbas à reeleição no primeiro turno em 2002, sem chances para a Frente Popular.

Embora em 2006 Eduardo Campos tenha conseguido uma vitória sofrida para o governo sobre Mendonça Filho (PFL), graças, inclusive, ao apoio do presidente Lula, somente ontem seu projeto de vingança se completaria.

A Jarbas, agora, restam mais quatro anos de Senado e a perspectiva de despontar no plano nacional como duro adversário de um eventual governo Dilma ou aliado dedicado em uma possível gestão Serra.

Às oposições em Pernambuco, resta um esforço supremo de recomposição, que precisa ser eficiente e rápido para render dividendos já em 2012. Mas que não será fácil, dadas as rivalidades e desentendimentos entre caciques dos partidos opositores.

A Eduardo Campos, resta, no mínimo, a obrigação de fazer um governo melhor que o primeiro, e daí tentar alçar um voo mais alto, rumo ao cenário nacional. Porque em Pernambuco, ao menos politicamente, ele já cumpriu tudo o que havia planejado.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Como nos velhos tempos

Foto: Clemilson Campos
JC Imagem









Os defensores da campanha propositiva que me perdoem, mas o debate entre os candidatos ao governo de Pernambuco, realizado ontem à noite pela TV Jornal, lembrou bem a fórmula do passado: provocações, ataques e farpas misturados com pitadas de propostas administrativas. Esse é, definitivamente, um modelo que prende o eleitor. E a prova disso é que hoje pela manhã, nos vários locais em que estive, o debate era o assunto do dia.

Ao contrário das repercussões de outros confrontos - como o presidencial de segunda-feira passada - não ouvi de ninguém a análise de que o embate de ontem tenha sido fraco, ou morno. O eleitor comum, pelo menos, pareceu satisfeito. É verdade que a maioria sequer assiste. Muda de canal, prefere a novela. Uma reação construída pelos próprios políticos, fruto de anos de desmandos cometidos por eles, provocando o desinteresse e o descrédito do eleitor.

Mas quem assistiu, pôde verificar o funcionamento da velha polarização governo x oposição. Nada mais natural que Eduardo Campos (PSB), governador e candidato à reeleição, virasse alvo prioritário dos ataques adversários. Estranho se assim não fosse. Ataques temperados por uma rivalidade antiga - e até pessoal - entre ele e Jarbas Vasconcelos (PMDB), que cuidou de explicitá-la bem protestando a todo momento contra o fato de o governador "não desejar a existência de oposição no Estado".


Como era esperado, a carga mais explosiva ficou por conta de Edilson Silva (PSOL). Representante da ultraesquerda, ele negou ser "radical", mas foi quem mais endureceu nos ataques à gestão de Eduardo, lançando desafios e caminhando até o oponente para encará-lo de perto no momento de fazer a pergunta.


Adepto da filosofia verde, Sérgio Xavier (PV) assumiu o personagem ponderado da noite. Chegou, inclusive, a tentar atuar como bombeiro, pedindo "calma" aos adversários nos momentos mais quentes. Mas talvez por isso mesmo tenha saído do debate sem deixar uma marca mais forte. Assim como sua presidenciável Marina Silva (PV), exagerou no estilo propositivo, abrindo um flanco aberto para os rivais mais agressivos.


No cômputo geral, é provável que este tenha sido o debate entre os candidatos a governador mais assistido da campanha, graças à fórmula em que se enquadrou. É bem verdade que há ainda mais dois confrontos agendados. Entre eles, o da TV Globo, na próxima terça-feira. Ótimo. Quem sabe a mistura se repete, atraindo a atenção de um eleitor que a cada dia se torna mais apático diante dos embates eleitorais.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A cara da política brasileira





O governador-candidato Eduardo Campos (PSB) foi "surpreendido", ontem, com uma festa num bar da cidade para marcar a "adesão" do deputado Pedro Eurico (PSDB) ao seu palanque. Surpresa, porém, é uma palavra que passa longe desse episódio.

Durante os dois anos em que ocupou a liderança das oposições na Assembleia Legislativa, o parlamentar tucano recebeu inúmeras críticas dos seus próprios liderados pelo tratamento excessivamente cortês que dispensava ao governo do ex-aliado.


Ao justificar a virada de casaca, ontem, o próprio Pedro Eurico lembrou ter sido secretário de Habitação de Miguel Arraes, e reafirmou sua antiga amizade com Eduardo. Só faltou explicar porque decidiu trocar o PSB pelo PSDB exatamente no ocaso da liderança de Arraes.

Durante praticamente todo o período em que esteve na oposição, Pedro Eurico fez questão de manter na parede do seu gabinete na Assembleia uma foto de Arraes, para quem quisesse ver. E nas sessões do Legislativo, quando se tratava de bater forte no governo Eduardo, delegava a tarefa à colega tucana Terezinha Nunes - jarbista de carteirinha e inimiga figadal do governador - ou ao demista Augusto Coutinho, que hoje ocupa a liderança das oposições.

Mas ninguém se engane: Eurico não estava, com isso, preparando o terreno para um retorno às origens. Ele, na verdade, nunca se desligou delas. Tanto que, mesmo investido no comando do bloco adversário, sempre recebeu tratamento diferenciado por parte do governador-amigo. Nos bastidores do Palácio, seu retorno era tido como favas contadas.

O tucano anunciou a "virada" de lado por razões bastante pragmáticas e nada inéditas. São motivos que o eleitor já está cansado de ver na política brasileira. Primeiro, é bem verdade, ele levou em conta o clima de indisposição criado com Jarbas Vasconcelos (PMDB) depois das suas críticas à condução da campanha majoritária das oposições, quando afirmou, na imprensa, que o palanque do peemedebista estaria desagregado.

Mas a adesão na reta final deve ser vista mesmo como uma manobra derradeira do parlamentar tucano para tentar renovar o próprio mandato. Algo que já estava difícil dentro do bloco adversário, e ficou impraticável após a briga interna com Jarbas.

Agora, mesmo que ainda tenha de se submeter à matemática eleitoral da sua coligação - que não deverá ter cacife suficiente para renovar os mandatos de todos os parlamentares oposicionistas - o tucano estará livre para pedir votos ungido pela alta popularidade de Eduardo Campos.

É esperar o resultado das urnas para saber se a manobra - por mais questionável que seja - aconteceu a tempo de salvar o mandato de Eurico, um dos deputados mais antigos na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A casa caiu. No Amapá







Já imaginaram se a Polícia Federal começasse a investigar a vida de cada candidato ao governo ou Senado, faltando menos de um mês para as eleições? É claro que a maioria deve ter a ficha limpa, transparente até. Mas sempre aparece um ou outro com um rabinho de palha. Foi o que aconteceu hoje no distante Amapá.


Talvez por avaliarem que estavam tão longe de onde as coisas acontecem, o governador Pedro Paulo Dias (PP) e o ex-governador Waldez Goes (PDT) tenham montado um esquemão que, segundo a PF, de 2009 até o momento já teria desviado R$ 800 milhões em verbas repassadas pela União ao Estado. Dinheiro que seria destinado à educação.


Seria engraçado - e até um tanto reconfortante, admito - assistir ao desmonte de palanques favoritos, às vésperas do pleito. Ver os caras já com a mão na faixa - loucos para dar continuidade aos seus esquemas de desvio de verbas públicas, pagamento de propinas e outros quitutes que a política do mal tem no cardápio - serem enquadrados pela PF "aos costumes"...


Você não ficaria feliz? Principalmente você, desavisado, que pretendia votar no tal meliante?


Pois é. Mas não vai acontecer dessa forma. Pedro Paulo e Waldez Goes são os cabeças de uma quadrilha com mais 17 pessoas, que só foi presa ontem graças a uma investigação que começou em agosto de 2009. Ou seja: levou um ano até pegarem os envolvidos.


E não será surpresa para ninguém se daqui a pouco surgirem na mídia políticos em defesa dos colegas detidos. Já vimos esse filme antes. Vão falar que foi perseguição política, que é um ato de campanha, e tal.


Isso sem falar no apoio importante que os dois acusados receberam recentemente. É de se supor que o presidente Lula desconhecia o esquema montado pelos aliados no Amapá. Afinal, Lula sabe de muito pouca coisa. Mas para grande azar, ele apareceu ontem no guia eleitoral amapaense, pedindo votos para Waldez Goes. E já tinha gravado um depoimento para o programa do governador, que iria hoje ao ar.


Candidato à reeleição, Pedro Paulo assumiu o governo das mãos de Waldez Goes, que saiu para disputar o Senado, e hoje está em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Mas seu companheiro de chapa lidera a disputa pelo Senado.


Se não for processado e tiver a candidatura cassada, é provável que a partir de 2011, Goes passe a integrar a honrada bancada do Amapá no Senado, comandada por ninguém menos que o inatingível José Sarney. Embora seja maranhense, Serney foi eleito senador pelo Estado nortista que criou quando era presidente da República.


É improvável que a "operação mãos limpas", realizada hoje pela PF no Amapá, se repita em outros Estados até a data do pleito. Mas não tem problema se acontecer depois. Mesmo que não impeça a eleição de alguns fichas-sujas, pode contribuir para apeá-los do poder, mesmo depois de diplomados.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Baixando a guarda













O presidenciável do PSDB, José Serra, acaba de cassar o título que ele próprio outorgou ao presidente Lula, de "entidade acima do bem e do mal". Durante pouco mais de dois meses de campanha oficial, Serra tinha conseguido driblar com maestria todos os possíveis episódios de confronto direto com seu ex-concorrente de 2002. Corretamente, centrou fogo na adversária atual, a petista Dilma Rousseff, que embora seja afilhada política de Lula, está longe de ter a habilidade do padrinho.


A ideia dos tucanos era evitar a todo custo um embate direto com o presidente e seus quase 80% de popularidade. Seria o mesmo que bater de frente com um trator em movimento. No entanto, não contavam que a campanha degringolasse para o campo pessoal, com o envolvimento de parentes de Serra em mais um capítulo da novela dos dossiês pré-fabricados.


E até que o tucano aguentou bem. Resistiu, inclusive, ao impacto da notícia sobre a quebra ilegal do sigilo fiscal da sua filha e do genro. Só não suportou o discurso do próprio Lula na TV, durante o guia eleitoral de Dilma. Até então, ele imaginava que, da mesma forma que evitava o embate direto, o rival se manteria à margem do palco, nas coxias, deixando o espaço sob os holofotes para Dilma.


Errou, porque supôs que Lula adotaria uma linha de pensamento objetiva e racional.


As notícias da semana passada sobre o envolvimento de agentes ligados ao PT na fabricação de supostos dossiês para instrumentalizar a campanha derrubaram o presidente do pedestal. Os petistas, definitivamente, sentiram o golpe. Tanto que passaram ao ataque.

É a leitura que se pode fazer da participação de Lula no programa eleitoral de Dilma. Sem meias palavras, o presidente olha nos olhos dos eleitores e acusa os adversários de lançarem mão de "baixarias" para tentar reverter a desvantagem na corrida presidencial.


Raposa política, Lula jamais faria isso se o universo petista continuasse em perfeito equilíbrio. Mas no momento em que ele lançou o contra-ataque, também baixou temporariamente a guarda, dando a Serra mais munição para se colocar como representante dos insatisfeitos com o atual cenário pro-PT.


É claro que o presidenciável tucano está ciente da sua desvantagem diante de Dilma, inclusive em termos de cabo eleitoral. Serra, na realidade, sabe que a fatura está praticamente liquidada. Resta ver que posição que ele pretende assumir após o dia 3 de outubro.


Porque ao se envolver diretamente no confronto, Lula deu ao rival duas opções distintas: agachar-se diante do rolo-compressor petista, envergando novamente a camisa de candidato derrotado, ou tirar proveito do insucesso, se consolidar como um dos principais opositores do futuro governo Dilma Rousseff e agir assim nos próximos quatro anos.

Mesmo que não seja ele - e certamente não será - o próximo paladino do PSDB a tentar quebrar, agora em 2014, a hegemonia do PT no poder.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sextilha política














por Jorge Filó


A Direita e a Esquerda
São forças muito distintas
A Direita só tem lobas
Devoradoras famintas
As ovelhas da Esquerda
Hoje em dia estão extintas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A frieza dos números












Aliados de José Serra (PSDB) já admitem que ele pode jogar a toalha com relação aos Estados do Nordeste. O presidenciável estaria pronto a enveredar por um caminho pragmático, de cultivar e preservar os votos que tem em regiões do País onde ainda for possível vencer a adversária Dilma Rousseff (PT).


Se essa tese – que, admitamos, tem sentido – for confirmada, não devemos ver muito o candidato tucano por essas bandas. O que não é bom para as oposições, que apostam na campanha “casada”. De qualquer forma, desde o início da corrida sucessória Serra esteve pelo menos quatro vezes em Pernambuco. Nem por isso ajudou a alçar os números de Jarbas Vasconcelos (PMDB) nas pesquisas.


Já a presidenciável petista detém uma posição confortável nos levantamentos realizados no Norte e, principalmente, no Nordeste, onde tem seus melhores índices. Mas ao contrário de Serra, ela continua agendando compromissos eleitorais nas duas regiões.


O que pode explicar a tranquilidade de Dilma com relação ao Sudeste – onde a situação lhe é mais desfavorável – e ao Sul é a entrada definitiva do presidente Lula na campanha. Maior cabo eleitoral de Dilma, Lula pretende se debruçar exatamente sobre essas áreas delicadas. E já começou. Passou todo o final de semana em atividades de campanha em São Paulo, da capital ao ABC, berço do PT.


Se as próximas pesquisas mostrarem que a estratégia petista está correta, o caldo pode entornar para os tucanos. E aí, é mudar tudo ou entregar os pontos.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 23/08/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Adversário incômodo
















Os jornalistas que cobrem a campanha eleitoral já desistiram de pedir ao governador-candidato Eduardo Campos (PSB) sua opinião a respeito de qualquer questão envolvendo o adversário Jarbas Vasconcelos (PMDB). Cansaram de ouvir a mesma resposta, que, com ligeiras variações de acordo com o humor da ocasião, soam tipo: "Não tomo conhecimento".


Caminho mais fácil não há que nos negarmos a reagir a uma crítica quando ela "aparentemente" não nos atinge. Afinal, apenas uma leitura superficial dos números das pesquisas basta para explicar a postura confortável do governador. Mas não é bem assim.


O mantra do "desconhecimento ao adversário" cabe apenas nas aparições públicas de Eduardo, onde tem imprensa. E sempre tem imprensa aonde quer que ele vá. Mas sob a proteção dos muros do comitê de campanha ou do Palácio do Campo das Princesas, a conversa é outra. Há "rumores" de que a ordem do governador é para que não se deixe o "doutor Jarbas" sem resposta.


Só que ela não deve ser transmitida pelas mãos dos jornalistas, para não parecer bate-boca. Sempre que possível, o recado deve ser enviado ao peemedebista em forma de ações sem trégua da campanha da Frente Popular. E de preferência, em áreas próximas às de Jarbas. Política da "terra arrasada" mesmo.


Logo no início, "coincidências" de agenda levaram Eduardo a marcar atos de campanha nas mesmas cidades que Jarbas. E no máximo com apenas um ou dois dias de antecedência ao evento do adversário. Mas com o início do guia eleitoral de TV e rádio, as "coincidências" deram lugar à afobação.


Ontem, nem bem havia terminado o primeiro programa de Jarbas na televisão, A Frente Popular já rebatia propostas apresentadas pelo opositor. Nese caso específico, a promessa de redução da tarifa sobre ligações de celular pré-pago.


Marketing! Afinal, celulares ainda são - pasmem os senhores! - símbolo de status entre consumidores das classes menos abastadas, e os publicitários jarbistas podiam prever a reação positiva do eleitor. Que só não foram mais rápidas que os telefonemas de assessores da Frente Popular à imprensa, em busca de espaço para contestar o mesmo peemedebista cuja candidatura alegam não tomar conhecimento.


Como a proposta havia sido lançada por Jarbas no guia eleitoral, obviamente os jornalistas entenderam ser aquele o fórum adequado à resposta. Mas o insucesso em recuperar de imediato o suposto "prejuízo" eleitoral fez com que o governador utilizasse entrevistas previamente marcadas para tratar do assunto. Que foi levantado por um candidato cuja existência ele garante nem notar.


Se a moda pega, e a cada promessa levada ao ar chovam adversários preocupados em contestá-las na imprensa, seria melhor redirecionar logo a estratégia de marketing de cada candidato. Ou ao menos daqueles que sempre defenderam os longos, chatíssimos e ultrapassados programas do guia eleitoral como principal estratégia para serem catapultados ao poder.

O antipatriota














Por Rafael Carvalheira

Do Jornal do Commercio

Questionar a escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. O assunto soa velho e, para alguns, até antipatriótico. É bom que seja assim. O contrário disso significa estar alinhado com raciocínios deturpados sobre valores sociais. Gente que gosta de brincar de esconde-esconde; que trabalha para que qualquer contestação em cima destas eleições e suas implicações soe exatamente assim.

Para o azar dessa gente, que compõe as mais variadas esferas sociais, na qual se incluem membros de governos e imprensa, há quem não embarque no oba-oba. O repórter inglês Andrew Jennings é uma dessas pessoas. E ele está no Brasil. Investigando os porões das candidaturas brasileiras. Cada suborno e manobra por baixo dos panos. Concedeu entrevistas a vários veículos de comunicação. Um pequeno questionamento suscita no mínimo reflexão sobre a real necessidade de organizarmos os dois maiores eventos esportivos do mundo.

Quanto a Fifa e o COI vão gastar? Talvez nem as passagens dos seus dirigentes. Os bilhões sairão dos nossos bolsos para a construção de casulos – instalações esportivas ou não – destinados à engorda financeira das duas entidades. Entidades estas que vendem algo abstrato para patrocinadores, parceiros e outros com relação mais suspeita. As marcas Copa e Olimpíadas. Nem a Fifa nem o COI pagam atletas, sustentam clubes ou centros de treinamento, executam projetos sociais significativos em países pobres, bancam a infraestrutura dos seus eventos...

É como se um estranho de repente passasse a morar comigo. Não pagasse luz, água, telefone, alimentação, condomínio, transporte. Me dissesse como devo me comportar, me vestir, criar meus filhos e ainda como gastar meus recursos. Depois fosse embora com o dinheiro que não precisou gastar e mais aquele que recebeu para prestar os serviços de “consultoria”. A mim, restaria uma dívida gigantesca. Neste caso, prefiro a pecha de antipatriota, mas com dinheiro para investir em saúde, educação, emprego e em obras, aquelas de fato imprescindíveis.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Agora o bicho pega!















De Petrolina

O resultado da nova pesquisa Ibope, divulgada ontem, um dia antes início dos programas eleitorais gratuitos na TV e no rádio, acende um gigantesco sinal amarelo na sala de comando da campanha tucana. Basta, para isso, fazer uma leitura mais aprofundada dos números.

Segundo o Ibope, a presidenciável petista Dilma Rousseff – que começou a pré-campanha em significativa inferioridade – ultrapassa José Serra (PSDB) e abre 11 pontos percentuais. O placar principal está em 43% a 32%. Mas a análise mais assustadora – até por ser a mais precisa – incide sobre os votos válidos. Aqueles que são realmente contabilizados pela Justiça Eleitoral para decidir a disputa, excluindo os votos em branco, nulos e indecisos.

Feita essa conta, Dilma aparece com 51% dos votos válidos, contra 38% de Serra, 10% de Marina Silva (PV) e 1% dos demais candidatos. O detalhe é que, para definir a vitória numa eleição logo no primeiro turno, um candidato precisa obter 50% dos votos válidos, mais um.

Por isso a luz amarela piscando sem parar nas hostes do PSDB. Levando em conta a nova rodada do Ibope, se as eleições acontecessem hoje, a candidata do presidente Lula estaria eleita, sem segundo turno.

Mas as eleições não são hoje. Há pela frente toda uma propaganda eleitoral na TV e rádio. E pelo que já vimos em campanhas anteriores, seria perigoso afirmar hoje que ela pode mudar o cenário em favor de Serra ou consolidar a vantagem de Dilma.

A única previsão fácil de fazer é a de que, depois dessa pesquisa, o fair play deve ir para o espaço, pescoço vai virar canela e vem muito chumbo grosso por aí.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Debate pra quê?











Continuo com saudades dos xingamentos, dos gritos, do desespero dos mediadores em tentativas inúteis de manter o controle sobre exaltados candidatos. Assim eram os debates eleitorais de antigamente na televisão. Mesmo aqueles com apenas dois oponentes conseguiam prender a atenção do eleitor-telespectador.


Na noite de quinta-feira passada, confesso que fiz força para não dormir diante da TV, durante o debate entre os candidatos ao governo de Pernambuco. Faltou pouco. Com todo respeito aos colegas da TV Clube/Band pela iniciativa louvável e democrática, foram poucos os momentos que realmente atrairam a atenção.

Mas a culpa não é dos organizadores - embora o formato ajude a tornar o programa mais insípido.
A culpa, na verdade, é dos próprios candidatos. Seja pelo despreparo, seja pela falta de compromisso com a apresentação de propostas diferenciadas, seja pelo estilo demasiadamente matreiro. O fato é que o primeiro embate do pleito estadual não trouxe nada de novo para o eleitor.

Preocupado em defender sua gestão, o governador-candidato Eduardo Campos (PSB) obviamente jogou confetes em si mesmo. E quando teve oportunidade de partir para a luta franca com o desafeto Jarbas Vasconcelos (PMDB), preferiu a ironia e a esquiva. Nem parecia aquele candidato que nas ruas se mostra disposto a fazer da oposição uma "terra arrasada".

Jarbas, por sua vez, mostrou que está mesmo destreinado para debates. Talvez por ter rejeitado a participação em todos os confrontos de 2002, quando disputava a reeleição como favorito. Por mais que se esforçasse ontem, o peemedebista não conseguia trazer o rival Eduardo para dentro do ringue. O resultado é que os dois ficaram apenas se xingando de longe, que nem meninos buchudos.

E os outros quatro concorrentes? Sim, havia mais deles no debate. Mas suas participações refletiram seus índices nas pesquisas, que oscilam entre zero e um ponto percentual. Não conseguiram despertar discussões acaloradas, e tampouco apresentar propostas que atraíssem o eleitor.

Faça-se aqui uma justa exceção para Sérgio Xavier (PV), que se esforçou para explicar as propostas modernas dos verdes, baseadas na sustentabilidade. Mas a tabelinha com os oponentes não ajudou. Entre os representantes da ultra-esquerda, a preocupação se limitava à crítica radical aos governos de Eduardo e de Jarbas, mescladas a promessas inexequíveis, como a reestatização de empresas privatizadas, e coisas afins.


Mas por que defender o bate-boca, as agressões e as baixarias politicamente incorretas no debate? Talvez por já ter ligado a tevê convencido de que não seria surpreendido com discursos diferenciados ou propostas inovadoras para o Estado. E sem isso, só mesmo o velho vale-tudo eleitoral para evitar os cochilos em frente à telinha. Mas nem isso eles souberam fazer. Que saudades dos velhos debates...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da lama pra (má) fama











Não causa surpresa a ninguém o primeiro balanço de impugnações de candidaturas na Justiça Eleitoral, divulgado hoje pelo jornal Folha de S. Paulo. É fácil saber qual o partido com mais postulantes barrados na disputa de outubro, após a aplicação da Lei da Ficha Limpa. Basta pegar como referência aquele que mais esteve envolvido em escândalos, que mais participou de negociatas e outras atividades escusas nos últimos anos no País.


Quem chutou PMDB, acertou na mosca. Pelo menos 23 candidatos peemedebistas à Câmara dos deputados e assembleias legislativas tiveram seu registro impugnado por constar em sua ficha condenação pelo colegiado de algum tribunal ou órgão de controle de contas. Trocando em miúdos: são candidatos que, ao longo da vida, cometeram alguma "travessura" com a honra, a propriedade ou o dinheiro alheio. E agora querem seu voto, rumo à imunidade parlamentar.

Em segundo lugar no ranking dos barrados no baile das urnas aparece o PP, legenda que até pouco tempo hospedava a candidatura do deputado federal Paulo Maluf (SP) à reeleição. Digo hospedava porque desde a semana passada Maluf encabeça a lista dos candidatos impugnados do seu partido.

Na escala de siglas campeãs de fichas-sujas, o PR e o PTB empatam na terceira colocação, seguidos de perto pelo PSDB do presidenciável José Serra, que ficou em quarto lugar. O que não significa vantagem para o PT da ex-ministra Dilma Rousseff. Afinal de contas, quando eu era pequeno - e ainda crente na política - lembro que era o PT quem empunhava a bandeira da ética e do combate à corrupção. Hoje, já tem três candidatos a deputado impugnados pela Justiça por ter ficha suja.

Ao todo, o primeiro "peneirão" dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) no País pegou 151 aspirantes a um mandato parlamentar, mas graças ao próprio passado enlameado, vão ficar só na vontade. E vem mais por aí. Nos próximos dias o TRE de São Paulo vai julgar mais 60 pedidos de impugnação.

É bom lembrar que a Lei da Ficha Limpa só foi aprovada no Congresso Nacional depois de muita mobilização popular. Graças à ela, estão proibidas de disputar eleições pessoas condenadas por órgãos colegiados do Judiciário ou de controle de contas.

Os barrados ainda poderão recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas salvo algumas exceções, são poucas as chances de um Pleno reformar a decisão de outro. E ainda que isso aconteça, basta um recurso em contrário de um procurador regional eleitoral para que o "ficha-suja" tenha sua candidatura questionada novamente.

Que fique, então, a advertência: se você planeja conquistar um cargo eletivo no Brasil, a partir de agora se ligue na máxima: "o crime não compensa". Pelo menos até passar no teste das urnas. Depois, é outra história...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Com ou sem emoção?












Debate presidencial, hoje em dia, me lembra o tradicional passeio de buggy nas dunas do Rio Grande do Norte. Quando você contrata o motorista local, ele vai logo querendo saber se será com ou sem emoção. Os menos avisados pedem "com", e são surpreeendidos com uma série de manobras radicais, daquelas de deixar o cidadão literalmente pendurado do lado de fora do carro.


Pedir o contrário, porém, pode ser bem pior. No passeio "sem emoção", o turista não vai achar graça nenhuma em passar devagarinho pela beira de grandes dunas e abismos. Periga até sentir sono, e ficar morrendo de inveja das peripécias e gritos no carro ao lado.

Pois foi assim, "sem emoção", o primeiro debate dos presidenciáveis, ontem à noite, na televisão. Morno, sem sal, sem graça. Nenhuma manobra radical, nenhum grito exaltado. Ninguém ficou pendurado do lado de fora do carro. José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) apenas cumpriram tabela, ali, no que poderia ter sido uma oportunidade de dar uma reviravolta na campanha, para chacoalhar o eleitor.

Esperava-se uma Dilma trêmula e acanhada - e até foi, mas só no começo - diante de intensos ataques de um Serra louco para detonar o governo Lula, do qual a adversária foi a gerente. Mas enquanto a petista evitou maiores pisões na bola nas respostas, o tucano ficou aquém da sua capacidade incisiva.

Enquanto isso, a senadora Marina Silva e o ex-deputado Plínio Sampaio lutavam para garantir um espacinho junto aos telespectadores. Mas a conformada candidata verde manteve o tom de voz manso, o estilo conciliador e a postura de excessiva transparência, a ponto de elogiar programas do governo Lula, de onde desembarcou às pressas, empurrada pela adversária que estava ali ao seu lado.

Sobrou para o experiente Plínio, do alto dos seus 80 anos de idade, pegar a veia irônica do debate e até debochar da imaturidade dos concorrentes. Ganhou o eleitor pela falta de algo mais palatável por parte dos outros candidatos. Em meio às brincadeiras, conseguiu expôr todo o seu radicalismo de esquerda, sugerindo a ruptura com o grande capital, a distribuição igualitária dos lucros com o povão e as estatizações de empresas e bancos privados. Um discurso que, embora ainda palpitante em alguns corações mais jovens, tem mais ou menos a idade do próprio candidato do PSOL.

Não se deve tirar os méritos da TV Bandeirantes, pela coragem de promover o primeiro confronto da campanha, mesmo tendo que enfrentar a alta audiência de uma semifinal da Copa Libertadores no canal concorrente. No intervalo do jogo, o debate chegou a bater cinco pontos, mas em geral ficou em três, contra cerca de 30 pontos de audiência da partida de futebol. Bem mais emocionante que política, convenhamos.

A questão talvez nem seja de formato. Afinal, houve três blocos onde cada candidato pode escolher com liberdade para quem formular suas perguntas. E mesmo quando ouvia o questionamento dos jornalistas convidados, estava livre para comentar da forma que bem desejasse.

Creio que o problema da falta de emoção vem dos próprios candidatos. Seja do experiente Serra, seja da estreante Dilma. Não houve um momento sequer em que vozes tenham se levantado, ou dedos tenham sido apontados de forma acusadora. Alguém lembra dos embates históricos, como aquele em que Leonel Brizola e Paulo Maluf quase se pegaram no tapa? Ou o outro em que Lula e Ronaldo Caiado gritavam incontrolavelmente um com o outro, para desespero da mediadora?

Poderia citar vários debates presidenciais emocionantes, e de tempos não tão distantes assim. Vale, portanto, o questionamento: da redemocratização aos dias de hoje, o que mudou tanto na política, ao ponto de tirar toda a emoção do passeio?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fadiga do material














Uma máquina forte e azeitada, que funcionou perfeitamente por mais de uma década. Assim poderia ser definida a União por Pernambuco, aliança improvável que uniu ex-adversários do PMDB e PFL (atual DEM) em nome de um projeto de poder no Estado. E uma vez fortalecido com a primeira vitória, o bloco ganharia novos adeptos. Entre eles, o PSDB, cujo peso político garantiria fôlego extra.


Mas como todo acordo político, a aliança PMDB/DEM/PSDB tinha data de validade, e expirou após o pleito de 2006, abalada, sobretudo, por divergências inconciliáveis entre tucanos e pefelistas. Insistir no uso dessa máquina só poderia trazer transtornos. E é exatamente o que está acontecendo.


As declarações do líder do PSDB na Assembleia, deputado Pedro Eurico, publicadas na edição de domingo do JC, traduzem o que todos gostariam de falar. O próprio Jarbas Vasconcelos (PMDB) – comandante-em-chefe do conjunto – tinha consciência de que o ciclo havia se fechado. Ainda assim cedeu à insistência dos aliados para que disputasse novamente o governo este ano.


O resultado é dramático: dificuldades de atrair recursos, evasão de prefeitos para o palanque adversário, desinteresse dos candidatos a deputado pela campanha majoritária e divergências profundas entre caciques dos partidos. Tudo isso apimentado por índices muito aquém dos desejáveis nas pesquisas.


Se mesmo diante de tantos sintomas, a falência da União por Pernambuco ainda não convenceu os mais céticos, o cenário pós-eleitoral o fará. É quando deve ficar claro o namoro entre tucanos e socialistas, de olho em um novo projeto de poder.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 02/08/2010