sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Como nos velhos tempos

Foto: Clemilson Campos
JC Imagem









Os defensores da campanha propositiva que me perdoem, mas o debate entre os candidatos ao governo de Pernambuco, realizado ontem à noite pela TV Jornal, lembrou bem a fórmula do passado: provocações, ataques e farpas misturados com pitadas de propostas administrativas. Esse é, definitivamente, um modelo que prende o eleitor. E a prova disso é que hoje pela manhã, nos vários locais em que estive, o debate era o assunto do dia.

Ao contrário das repercussões de outros confrontos - como o presidencial de segunda-feira passada - não ouvi de ninguém a análise de que o embate de ontem tenha sido fraco, ou morno. O eleitor comum, pelo menos, pareceu satisfeito. É verdade que a maioria sequer assiste. Muda de canal, prefere a novela. Uma reação construída pelos próprios políticos, fruto de anos de desmandos cometidos por eles, provocando o desinteresse e o descrédito do eleitor.

Mas quem assistiu, pôde verificar o funcionamento da velha polarização governo x oposição. Nada mais natural que Eduardo Campos (PSB), governador e candidato à reeleição, virasse alvo prioritário dos ataques adversários. Estranho se assim não fosse. Ataques temperados por uma rivalidade antiga - e até pessoal - entre ele e Jarbas Vasconcelos (PMDB), que cuidou de explicitá-la bem protestando a todo momento contra o fato de o governador "não desejar a existência de oposição no Estado".


Como era esperado, a carga mais explosiva ficou por conta de Edilson Silva (PSOL). Representante da ultraesquerda, ele negou ser "radical", mas foi quem mais endureceu nos ataques à gestão de Eduardo, lançando desafios e caminhando até o oponente para encará-lo de perto no momento de fazer a pergunta.


Adepto da filosofia verde, Sérgio Xavier (PV) assumiu o personagem ponderado da noite. Chegou, inclusive, a tentar atuar como bombeiro, pedindo "calma" aos adversários nos momentos mais quentes. Mas talvez por isso mesmo tenha saído do debate sem deixar uma marca mais forte. Assim como sua presidenciável Marina Silva (PV), exagerou no estilo propositivo, abrindo um flanco aberto para os rivais mais agressivos.


No cômputo geral, é provável que este tenha sido o debate entre os candidatos a governador mais assistido da campanha, graças à fórmula em que se enquadrou. É bem verdade que há ainda mais dois confrontos agendados. Entre eles, o da TV Globo, na próxima terça-feira. Ótimo. Quem sabe a mistura se repete, atraindo a atenção de um eleitor que a cada dia se torna mais apático diante dos embates eleitorais.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A cara da política brasileira





O governador-candidato Eduardo Campos (PSB) foi "surpreendido", ontem, com uma festa num bar da cidade para marcar a "adesão" do deputado Pedro Eurico (PSDB) ao seu palanque. Surpresa, porém, é uma palavra que passa longe desse episódio.

Durante os dois anos em que ocupou a liderança das oposições na Assembleia Legislativa, o parlamentar tucano recebeu inúmeras críticas dos seus próprios liderados pelo tratamento excessivamente cortês que dispensava ao governo do ex-aliado.


Ao justificar a virada de casaca, ontem, o próprio Pedro Eurico lembrou ter sido secretário de Habitação de Miguel Arraes, e reafirmou sua antiga amizade com Eduardo. Só faltou explicar porque decidiu trocar o PSB pelo PSDB exatamente no ocaso da liderança de Arraes.

Durante praticamente todo o período em que esteve na oposição, Pedro Eurico fez questão de manter na parede do seu gabinete na Assembleia uma foto de Arraes, para quem quisesse ver. E nas sessões do Legislativo, quando se tratava de bater forte no governo Eduardo, delegava a tarefa à colega tucana Terezinha Nunes - jarbista de carteirinha e inimiga figadal do governador - ou ao demista Augusto Coutinho, que hoje ocupa a liderança das oposições.

Mas ninguém se engane: Eurico não estava, com isso, preparando o terreno para um retorno às origens. Ele, na verdade, nunca se desligou delas. Tanto que, mesmo investido no comando do bloco adversário, sempre recebeu tratamento diferenciado por parte do governador-amigo. Nos bastidores do Palácio, seu retorno era tido como favas contadas.

O tucano anunciou a "virada" de lado por razões bastante pragmáticas e nada inéditas. São motivos que o eleitor já está cansado de ver na política brasileira. Primeiro, é bem verdade, ele levou em conta o clima de indisposição criado com Jarbas Vasconcelos (PMDB) depois das suas críticas à condução da campanha majoritária das oposições, quando afirmou, na imprensa, que o palanque do peemedebista estaria desagregado.

Mas a adesão na reta final deve ser vista mesmo como uma manobra derradeira do parlamentar tucano para tentar renovar o próprio mandato. Algo que já estava difícil dentro do bloco adversário, e ficou impraticável após a briga interna com Jarbas.

Agora, mesmo que ainda tenha de se submeter à matemática eleitoral da sua coligação - que não deverá ter cacife suficiente para renovar os mandatos de todos os parlamentares oposicionistas - o tucano estará livre para pedir votos ungido pela alta popularidade de Eduardo Campos.

É esperar o resultado das urnas para saber se a manobra - por mais questionável que seja - aconteceu a tempo de salvar o mandato de Eurico, um dos deputados mais antigos na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A casa caiu. No Amapá







Já imaginaram se a Polícia Federal começasse a investigar a vida de cada candidato ao governo ou Senado, faltando menos de um mês para as eleições? É claro que a maioria deve ter a ficha limpa, transparente até. Mas sempre aparece um ou outro com um rabinho de palha. Foi o que aconteceu hoje no distante Amapá.


Talvez por avaliarem que estavam tão longe de onde as coisas acontecem, o governador Pedro Paulo Dias (PP) e o ex-governador Waldez Goes (PDT) tenham montado um esquemão que, segundo a PF, de 2009 até o momento já teria desviado R$ 800 milhões em verbas repassadas pela União ao Estado. Dinheiro que seria destinado à educação.


Seria engraçado - e até um tanto reconfortante, admito - assistir ao desmonte de palanques favoritos, às vésperas do pleito. Ver os caras já com a mão na faixa - loucos para dar continuidade aos seus esquemas de desvio de verbas públicas, pagamento de propinas e outros quitutes que a política do mal tem no cardápio - serem enquadrados pela PF "aos costumes"...


Você não ficaria feliz? Principalmente você, desavisado, que pretendia votar no tal meliante?


Pois é. Mas não vai acontecer dessa forma. Pedro Paulo e Waldez Goes são os cabeças de uma quadrilha com mais 17 pessoas, que só foi presa ontem graças a uma investigação que começou em agosto de 2009. Ou seja: levou um ano até pegarem os envolvidos.


E não será surpresa para ninguém se daqui a pouco surgirem na mídia políticos em defesa dos colegas detidos. Já vimos esse filme antes. Vão falar que foi perseguição política, que é um ato de campanha, e tal.


Isso sem falar no apoio importante que os dois acusados receberam recentemente. É de se supor que o presidente Lula desconhecia o esquema montado pelos aliados no Amapá. Afinal, Lula sabe de muito pouca coisa. Mas para grande azar, ele apareceu ontem no guia eleitoral amapaense, pedindo votos para Waldez Goes. E já tinha gravado um depoimento para o programa do governador, que iria hoje ao ar.


Candidato à reeleição, Pedro Paulo assumiu o governo das mãos de Waldez Goes, que saiu para disputar o Senado, e hoje está em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Mas seu companheiro de chapa lidera a disputa pelo Senado.


Se não for processado e tiver a candidatura cassada, é provável que a partir de 2011, Goes passe a integrar a honrada bancada do Amapá no Senado, comandada por ninguém menos que o inatingível José Sarney. Embora seja maranhense, Serney foi eleito senador pelo Estado nortista que criou quando era presidente da República.


É improvável que a "operação mãos limpas", realizada hoje pela PF no Amapá, se repita em outros Estados até a data do pleito. Mas não tem problema se acontecer depois. Mesmo que não impeça a eleição de alguns fichas-sujas, pode contribuir para apeá-los do poder, mesmo depois de diplomados.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Baixando a guarda













O presidenciável do PSDB, José Serra, acaba de cassar o título que ele próprio outorgou ao presidente Lula, de "entidade acima do bem e do mal". Durante pouco mais de dois meses de campanha oficial, Serra tinha conseguido driblar com maestria todos os possíveis episódios de confronto direto com seu ex-concorrente de 2002. Corretamente, centrou fogo na adversária atual, a petista Dilma Rousseff, que embora seja afilhada política de Lula, está longe de ter a habilidade do padrinho.


A ideia dos tucanos era evitar a todo custo um embate direto com o presidente e seus quase 80% de popularidade. Seria o mesmo que bater de frente com um trator em movimento. No entanto, não contavam que a campanha degringolasse para o campo pessoal, com o envolvimento de parentes de Serra em mais um capítulo da novela dos dossiês pré-fabricados.


E até que o tucano aguentou bem. Resistiu, inclusive, ao impacto da notícia sobre a quebra ilegal do sigilo fiscal da sua filha e do genro. Só não suportou o discurso do próprio Lula na TV, durante o guia eleitoral de Dilma. Até então, ele imaginava que, da mesma forma que evitava o embate direto, o rival se manteria à margem do palco, nas coxias, deixando o espaço sob os holofotes para Dilma.


Errou, porque supôs que Lula adotaria uma linha de pensamento objetiva e racional.


As notícias da semana passada sobre o envolvimento de agentes ligados ao PT na fabricação de supostos dossiês para instrumentalizar a campanha derrubaram o presidente do pedestal. Os petistas, definitivamente, sentiram o golpe. Tanto que passaram ao ataque.

É a leitura que se pode fazer da participação de Lula no programa eleitoral de Dilma. Sem meias palavras, o presidente olha nos olhos dos eleitores e acusa os adversários de lançarem mão de "baixarias" para tentar reverter a desvantagem na corrida presidencial.


Raposa política, Lula jamais faria isso se o universo petista continuasse em perfeito equilíbrio. Mas no momento em que ele lançou o contra-ataque, também baixou temporariamente a guarda, dando a Serra mais munição para se colocar como representante dos insatisfeitos com o atual cenário pro-PT.


É claro que o presidenciável tucano está ciente da sua desvantagem diante de Dilma, inclusive em termos de cabo eleitoral. Serra, na realidade, sabe que a fatura está praticamente liquidada. Resta ver que posição que ele pretende assumir após o dia 3 de outubro.


Porque ao se envolver diretamente no confronto, Lula deu ao rival duas opções distintas: agachar-se diante do rolo-compressor petista, envergando novamente a camisa de candidato derrotado, ou tirar proveito do insucesso, se consolidar como um dos principais opositores do futuro governo Dilma Rousseff e agir assim nos próximos quatro anos.

Mesmo que não seja ele - e certamente não será - o próximo paladino do PSDB a tentar quebrar, agora em 2014, a hegemonia do PT no poder.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sextilha política














por Jorge Filó


A Direita e a Esquerda
São forças muito distintas
A Direita só tem lobas
Devoradoras famintas
As ovelhas da Esquerda
Hoje em dia estão extintas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A frieza dos números












Aliados de José Serra (PSDB) já admitem que ele pode jogar a toalha com relação aos Estados do Nordeste. O presidenciável estaria pronto a enveredar por um caminho pragmático, de cultivar e preservar os votos que tem em regiões do País onde ainda for possível vencer a adversária Dilma Rousseff (PT).


Se essa tese – que, admitamos, tem sentido – for confirmada, não devemos ver muito o candidato tucano por essas bandas. O que não é bom para as oposições, que apostam na campanha “casada”. De qualquer forma, desde o início da corrida sucessória Serra esteve pelo menos quatro vezes em Pernambuco. Nem por isso ajudou a alçar os números de Jarbas Vasconcelos (PMDB) nas pesquisas.


Já a presidenciável petista detém uma posição confortável nos levantamentos realizados no Norte e, principalmente, no Nordeste, onde tem seus melhores índices. Mas ao contrário de Serra, ela continua agendando compromissos eleitorais nas duas regiões.


O que pode explicar a tranquilidade de Dilma com relação ao Sudeste – onde a situação lhe é mais desfavorável – e ao Sul é a entrada definitiva do presidente Lula na campanha. Maior cabo eleitoral de Dilma, Lula pretende se debruçar exatamente sobre essas áreas delicadas. E já começou. Passou todo o final de semana em atividades de campanha em São Paulo, da capital ao ABC, berço do PT.


Se as próximas pesquisas mostrarem que a estratégia petista está correta, o caldo pode entornar para os tucanos. E aí, é mudar tudo ou entregar os pontos.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 23/08/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Adversário incômodo
















Os jornalistas que cobrem a campanha eleitoral já desistiram de pedir ao governador-candidato Eduardo Campos (PSB) sua opinião a respeito de qualquer questão envolvendo o adversário Jarbas Vasconcelos (PMDB). Cansaram de ouvir a mesma resposta, que, com ligeiras variações de acordo com o humor da ocasião, soam tipo: "Não tomo conhecimento".


Caminho mais fácil não há que nos negarmos a reagir a uma crítica quando ela "aparentemente" não nos atinge. Afinal, apenas uma leitura superficial dos números das pesquisas basta para explicar a postura confortável do governador. Mas não é bem assim.


O mantra do "desconhecimento ao adversário" cabe apenas nas aparições públicas de Eduardo, onde tem imprensa. E sempre tem imprensa aonde quer que ele vá. Mas sob a proteção dos muros do comitê de campanha ou do Palácio do Campo das Princesas, a conversa é outra. Há "rumores" de que a ordem do governador é para que não se deixe o "doutor Jarbas" sem resposta.


Só que ela não deve ser transmitida pelas mãos dos jornalistas, para não parecer bate-boca. Sempre que possível, o recado deve ser enviado ao peemedebista em forma de ações sem trégua da campanha da Frente Popular. E de preferência, em áreas próximas às de Jarbas. Política da "terra arrasada" mesmo.


Logo no início, "coincidências" de agenda levaram Eduardo a marcar atos de campanha nas mesmas cidades que Jarbas. E no máximo com apenas um ou dois dias de antecedência ao evento do adversário. Mas com o início do guia eleitoral de TV e rádio, as "coincidências" deram lugar à afobação.


Ontem, nem bem havia terminado o primeiro programa de Jarbas na televisão, A Frente Popular já rebatia propostas apresentadas pelo opositor. Nese caso específico, a promessa de redução da tarifa sobre ligações de celular pré-pago.


Marketing! Afinal, celulares ainda são - pasmem os senhores! - símbolo de status entre consumidores das classes menos abastadas, e os publicitários jarbistas podiam prever a reação positiva do eleitor. Que só não foram mais rápidas que os telefonemas de assessores da Frente Popular à imprensa, em busca de espaço para contestar o mesmo peemedebista cuja candidatura alegam não tomar conhecimento.


Como a proposta havia sido lançada por Jarbas no guia eleitoral, obviamente os jornalistas entenderam ser aquele o fórum adequado à resposta. Mas o insucesso em recuperar de imediato o suposto "prejuízo" eleitoral fez com que o governador utilizasse entrevistas previamente marcadas para tratar do assunto. Que foi levantado por um candidato cuja existência ele garante nem notar.


Se a moda pega, e a cada promessa levada ao ar chovam adversários preocupados em contestá-las na imprensa, seria melhor redirecionar logo a estratégia de marketing de cada candidato. Ou ao menos daqueles que sempre defenderam os longos, chatíssimos e ultrapassados programas do guia eleitoral como principal estratégia para serem catapultados ao poder.

O antipatriota














Por Rafael Carvalheira

Do Jornal do Commercio

Questionar a escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. O assunto soa velho e, para alguns, até antipatriótico. É bom que seja assim. O contrário disso significa estar alinhado com raciocínios deturpados sobre valores sociais. Gente que gosta de brincar de esconde-esconde; que trabalha para que qualquer contestação em cima destas eleições e suas implicações soe exatamente assim.

Para o azar dessa gente, que compõe as mais variadas esferas sociais, na qual se incluem membros de governos e imprensa, há quem não embarque no oba-oba. O repórter inglês Andrew Jennings é uma dessas pessoas. E ele está no Brasil. Investigando os porões das candidaturas brasileiras. Cada suborno e manobra por baixo dos panos. Concedeu entrevistas a vários veículos de comunicação. Um pequeno questionamento suscita no mínimo reflexão sobre a real necessidade de organizarmos os dois maiores eventos esportivos do mundo.

Quanto a Fifa e o COI vão gastar? Talvez nem as passagens dos seus dirigentes. Os bilhões sairão dos nossos bolsos para a construção de casulos – instalações esportivas ou não – destinados à engorda financeira das duas entidades. Entidades estas que vendem algo abstrato para patrocinadores, parceiros e outros com relação mais suspeita. As marcas Copa e Olimpíadas. Nem a Fifa nem o COI pagam atletas, sustentam clubes ou centros de treinamento, executam projetos sociais significativos em países pobres, bancam a infraestrutura dos seus eventos...

É como se um estranho de repente passasse a morar comigo. Não pagasse luz, água, telefone, alimentação, condomínio, transporte. Me dissesse como devo me comportar, me vestir, criar meus filhos e ainda como gastar meus recursos. Depois fosse embora com o dinheiro que não precisou gastar e mais aquele que recebeu para prestar os serviços de “consultoria”. A mim, restaria uma dívida gigantesca. Neste caso, prefiro a pecha de antipatriota, mas com dinheiro para investir em saúde, educação, emprego e em obras, aquelas de fato imprescindíveis.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Agora o bicho pega!















De Petrolina

O resultado da nova pesquisa Ibope, divulgada ontem, um dia antes início dos programas eleitorais gratuitos na TV e no rádio, acende um gigantesco sinal amarelo na sala de comando da campanha tucana. Basta, para isso, fazer uma leitura mais aprofundada dos números.

Segundo o Ibope, a presidenciável petista Dilma Rousseff – que começou a pré-campanha em significativa inferioridade – ultrapassa José Serra (PSDB) e abre 11 pontos percentuais. O placar principal está em 43% a 32%. Mas a análise mais assustadora – até por ser a mais precisa – incide sobre os votos válidos. Aqueles que são realmente contabilizados pela Justiça Eleitoral para decidir a disputa, excluindo os votos em branco, nulos e indecisos.

Feita essa conta, Dilma aparece com 51% dos votos válidos, contra 38% de Serra, 10% de Marina Silva (PV) e 1% dos demais candidatos. O detalhe é que, para definir a vitória numa eleição logo no primeiro turno, um candidato precisa obter 50% dos votos válidos, mais um.

Por isso a luz amarela piscando sem parar nas hostes do PSDB. Levando em conta a nova rodada do Ibope, se as eleições acontecessem hoje, a candidata do presidente Lula estaria eleita, sem segundo turno.

Mas as eleições não são hoje. Há pela frente toda uma propaganda eleitoral na TV e rádio. E pelo que já vimos em campanhas anteriores, seria perigoso afirmar hoje que ela pode mudar o cenário em favor de Serra ou consolidar a vantagem de Dilma.

A única previsão fácil de fazer é a de que, depois dessa pesquisa, o fair play deve ir para o espaço, pescoço vai virar canela e vem muito chumbo grosso por aí.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Debate pra quê?











Continuo com saudades dos xingamentos, dos gritos, do desespero dos mediadores em tentativas inúteis de manter o controle sobre exaltados candidatos. Assim eram os debates eleitorais de antigamente na televisão. Mesmo aqueles com apenas dois oponentes conseguiam prender a atenção do eleitor-telespectador.


Na noite de quinta-feira passada, confesso que fiz força para não dormir diante da TV, durante o debate entre os candidatos ao governo de Pernambuco. Faltou pouco. Com todo respeito aos colegas da TV Clube/Band pela iniciativa louvável e democrática, foram poucos os momentos que realmente atrairam a atenção.

Mas a culpa não é dos organizadores - embora o formato ajude a tornar o programa mais insípido.
A culpa, na verdade, é dos próprios candidatos. Seja pelo despreparo, seja pela falta de compromisso com a apresentação de propostas diferenciadas, seja pelo estilo demasiadamente matreiro. O fato é que o primeiro embate do pleito estadual não trouxe nada de novo para o eleitor.

Preocupado em defender sua gestão, o governador-candidato Eduardo Campos (PSB) obviamente jogou confetes em si mesmo. E quando teve oportunidade de partir para a luta franca com o desafeto Jarbas Vasconcelos (PMDB), preferiu a ironia e a esquiva. Nem parecia aquele candidato que nas ruas se mostra disposto a fazer da oposição uma "terra arrasada".

Jarbas, por sua vez, mostrou que está mesmo destreinado para debates. Talvez por ter rejeitado a participação em todos os confrontos de 2002, quando disputava a reeleição como favorito. Por mais que se esforçasse ontem, o peemedebista não conseguia trazer o rival Eduardo para dentro do ringue. O resultado é que os dois ficaram apenas se xingando de longe, que nem meninos buchudos.

E os outros quatro concorrentes? Sim, havia mais deles no debate. Mas suas participações refletiram seus índices nas pesquisas, que oscilam entre zero e um ponto percentual. Não conseguiram despertar discussões acaloradas, e tampouco apresentar propostas que atraíssem o eleitor.

Faça-se aqui uma justa exceção para Sérgio Xavier (PV), que se esforçou para explicar as propostas modernas dos verdes, baseadas na sustentabilidade. Mas a tabelinha com os oponentes não ajudou. Entre os representantes da ultra-esquerda, a preocupação se limitava à crítica radical aos governos de Eduardo e de Jarbas, mescladas a promessas inexequíveis, como a reestatização de empresas privatizadas, e coisas afins.


Mas por que defender o bate-boca, as agressões e as baixarias politicamente incorretas no debate? Talvez por já ter ligado a tevê convencido de que não seria surpreendido com discursos diferenciados ou propostas inovadoras para o Estado. E sem isso, só mesmo o velho vale-tudo eleitoral para evitar os cochilos em frente à telinha. Mas nem isso eles souberam fazer. Que saudades dos velhos debates...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da lama pra (má) fama











Não causa surpresa a ninguém o primeiro balanço de impugnações de candidaturas na Justiça Eleitoral, divulgado hoje pelo jornal Folha de S. Paulo. É fácil saber qual o partido com mais postulantes barrados na disputa de outubro, após a aplicação da Lei da Ficha Limpa. Basta pegar como referência aquele que mais esteve envolvido em escândalos, que mais participou de negociatas e outras atividades escusas nos últimos anos no País.


Quem chutou PMDB, acertou na mosca. Pelo menos 23 candidatos peemedebistas à Câmara dos deputados e assembleias legislativas tiveram seu registro impugnado por constar em sua ficha condenação pelo colegiado de algum tribunal ou órgão de controle de contas. Trocando em miúdos: são candidatos que, ao longo da vida, cometeram alguma "travessura" com a honra, a propriedade ou o dinheiro alheio. E agora querem seu voto, rumo à imunidade parlamentar.

Em segundo lugar no ranking dos barrados no baile das urnas aparece o PP, legenda que até pouco tempo hospedava a candidatura do deputado federal Paulo Maluf (SP) à reeleição. Digo hospedava porque desde a semana passada Maluf encabeça a lista dos candidatos impugnados do seu partido.

Na escala de siglas campeãs de fichas-sujas, o PR e o PTB empatam na terceira colocação, seguidos de perto pelo PSDB do presidenciável José Serra, que ficou em quarto lugar. O que não significa vantagem para o PT da ex-ministra Dilma Rousseff. Afinal de contas, quando eu era pequeno - e ainda crente na política - lembro que era o PT quem empunhava a bandeira da ética e do combate à corrupção. Hoje, já tem três candidatos a deputado impugnados pela Justiça por ter ficha suja.

Ao todo, o primeiro "peneirão" dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) no País pegou 151 aspirantes a um mandato parlamentar, mas graças ao próprio passado enlameado, vão ficar só na vontade. E vem mais por aí. Nos próximos dias o TRE de São Paulo vai julgar mais 60 pedidos de impugnação.

É bom lembrar que a Lei da Ficha Limpa só foi aprovada no Congresso Nacional depois de muita mobilização popular. Graças à ela, estão proibidas de disputar eleições pessoas condenadas por órgãos colegiados do Judiciário ou de controle de contas.

Os barrados ainda poderão recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas salvo algumas exceções, são poucas as chances de um Pleno reformar a decisão de outro. E ainda que isso aconteça, basta um recurso em contrário de um procurador regional eleitoral para que o "ficha-suja" tenha sua candidatura questionada novamente.

Que fique, então, a advertência: se você planeja conquistar um cargo eletivo no Brasil, a partir de agora se ligue na máxima: "o crime não compensa". Pelo menos até passar no teste das urnas. Depois, é outra história...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Com ou sem emoção?












Debate presidencial, hoje em dia, me lembra o tradicional passeio de buggy nas dunas do Rio Grande do Norte. Quando você contrata o motorista local, ele vai logo querendo saber se será com ou sem emoção. Os menos avisados pedem "com", e são surpreeendidos com uma série de manobras radicais, daquelas de deixar o cidadão literalmente pendurado do lado de fora do carro.


Pedir o contrário, porém, pode ser bem pior. No passeio "sem emoção", o turista não vai achar graça nenhuma em passar devagarinho pela beira de grandes dunas e abismos. Periga até sentir sono, e ficar morrendo de inveja das peripécias e gritos no carro ao lado.

Pois foi assim, "sem emoção", o primeiro debate dos presidenciáveis, ontem à noite, na televisão. Morno, sem sal, sem graça. Nenhuma manobra radical, nenhum grito exaltado. Ninguém ficou pendurado do lado de fora do carro. José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) apenas cumpriram tabela, ali, no que poderia ter sido uma oportunidade de dar uma reviravolta na campanha, para chacoalhar o eleitor.

Esperava-se uma Dilma trêmula e acanhada - e até foi, mas só no começo - diante de intensos ataques de um Serra louco para detonar o governo Lula, do qual a adversária foi a gerente. Mas enquanto a petista evitou maiores pisões na bola nas respostas, o tucano ficou aquém da sua capacidade incisiva.

Enquanto isso, a senadora Marina Silva e o ex-deputado Plínio Sampaio lutavam para garantir um espacinho junto aos telespectadores. Mas a conformada candidata verde manteve o tom de voz manso, o estilo conciliador e a postura de excessiva transparência, a ponto de elogiar programas do governo Lula, de onde desembarcou às pressas, empurrada pela adversária que estava ali ao seu lado.

Sobrou para o experiente Plínio, do alto dos seus 80 anos de idade, pegar a veia irônica do debate e até debochar da imaturidade dos concorrentes. Ganhou o eleitor pela falta de algo mais palatável por parte dos outros candidatos. Em meio às brincadeiras, conseguiu expôr todo o seu radicalismo de esquerda, sugerindo a ruptura com o grande capital, a distribuição igualitária dos lucros com o povão e as estatizações de empresas e bancos privados. Um discurso que, embora ainda palpitante em alguns corações mais jovens, tem mais ou menos a idade do próprio candidato do PSOL.

Não se deve tirar os méritos da TV Bandeirantes, pela coragem de promover o primeiro confronto da campanha, mesmo tendo que enfrentar a alta audiência de uma semifinal da Copa Libertadores no canal concorrente. No intervalo do jogo, o debate chegou a bater cinco pontos, mas em geral ficou em três, contra cerca de 30 pontos de audiência da partida de futebol. Bem mais emocionante que política, convenhamos.

A questão talvez nem seja de formato. Afinal, houve três blocos onde cada candidato pode escolher com liberdade para quem formular suas perguntas. E mesmo quando ouvia o questionamento dos jornalistas convidados, estava livre para comentar da forma que bem desejasse.

Creio que o problema da falta de emoção vem dos próprios candidatos. Seja do experiente Serra, seja da estreante Dilma. Não houve um momento sequer em que vozes tenham se levantado, ou dedos tenham sido apontados de forma acusadora. Alguém lembra dos embates históricos, como aquele em que Leonel Brizola e Paulo Maluf quase se pegaram no tapa? Ou o outro em que Lula e Ronaldo Caiado gritavam incontrolavelmente um com o outro, para desespero da mediadora?

Poderia citar vários debates presidenciais emocionantes, e de tempos não tão distantes assim. Vale, portanto, o questionamento: da redemocratização aos dias de hoje, o que mudou tanto na política, ao ponto de tirar toda a emoção do passeio?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fadiga do material














Uma máquina forte e azeitada, que funcionou perfeitamente por mais de uma década. Assim poderia ser definida a União por Pernambuco, aliança improvável que uniu ex-adversários do PMDB e PFL (atual DEM) em nome de um projeto de poder no Estado. E uma vez fortalecido com a primeira vitória, o bloco ganharia novos adeptos. Entre eles, o PSDB, cujo peso político garantiria fôlego extra.


Mas como todo acordo político, a aliança PMDB/DEM/PSDB tinha data de validade, e expirou após o pleito de 2006, abalada, sobretudo, por divergências inconciliáveis entre tucanos e pefelistas. Insistir no uso dessa máquina só poderia trazer transtornos. E é exatamente o que está acontecendo.


As declarações do líder do PSDB na Assembleia, deputado Pedro Eurico, publicadas na edição de domingo do JC, traduzem o que todos gostariam de falar. O próprio Jarbas Vasconcelos (PMDB) – comandante-em-chefe do conjunto – tinha consciência de que o ciclo havia se fechado. Ainda assim cedeu à insistência dos aliados para que disputasse novamente o governo este ano.


O resultado é dramático: dificuldades de atrair recursos, evasão de prefeitos para o palanque adversário, desinteresse dos candidatos a deputado pela campanha majoritária e divergências profundas entre caciques dos partidos. Tudo isso apimentado por índices muito aquém dos desejáveis nas pesquisas.


Se mesmo diante de tantos sintomas, a falência da União por Pernambuco ainda não convenceu os mais céticos, o cenário pós-eleitoral o fará. É quando deve ficar claro o namoro entre tucanos e socialistas, de olho em um novo projeto de poder.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 02/08/2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Abaixo o “jeitinho”!














Você, eleitor, que paga tributos e se esforça para manter as contas sempre em dia, não se incomoda de ser representado por um político de reputação duvidosa? É provável que alguns dêem de ombros e lancem o velho chavão de que “político é tudo igual”. Mas certamente a maioria das repostas será afirmativa.


Foi exatamente com a intenção de proteger o eleitor contra a ascensão de políticos condenados na Justiça por atos improbos que surgiu o projeto da Ficha Limpa. Uma proposta – é bom lembrar – que chegou ao Congresso Nacional embasada por uma grande mobilização popular. Tão forte que até intimidou o conhecido corporativismo da Casa, e terminou aprovada.


Mas a alegria de quem achou que a política brasileira dava sinais de mudança durou pouco. Munidos de advogados caríssimos, especializados em encontrar brechas no direito eleitoral, alguns políticos de ficha mais suja que poleiro de galinheiro conseguiram, na semana passada, as primeiras liminares nas altas cortes, garantindo suas candidaturas. Mais uma vez se fez valer o “jeitinho” brasileiro.


É difícil acreditar que essas pessoas se empenhem tanto em disputar uma eleição movidas por boas intenções. Assim como é difícil acreditar que, depois de condenado por improbidade, mau uso do dinheiro público ou algo do gênero em uma gestão anterior, o tal candidato tenha se regenerado. E acima de tudo, é duro de acreditar que, uma vez eleito para um novo mandato – e ciente da facilidade em burlar a – ele só irá agir de forma idônea.

Infelizmente, porém, tem gente que acredita.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 12/07/2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Instabilidade preservada












Há anos que se espera do Congresso Nacional a votação de uma reforma política que estabeleça novas regras eleitorais, mais modernas e adequadas à política do século 21. Infelizmente, para todos, os deputados e senadores brasileiros se acovardaram. Preferiram deixar dormindo nas gavetas da Casa inúmeras propostas de modificações na legislação eleitoral e partidária, temerosos de ter seus interesses pessoais contrariados.


Pois o feitiço começou a virar contra eles próprios. No final da semana passada, bateu a maior neura nos dirigentes partidários - a maioria, detentora de mandato federal - porque o Judiciário, mais uma vez, se arvorou dos poderes do Legislativo, assumindo para si algumas decisões que os próprios congressistas já deveriam ter tomado.

Dessa vez - e novamente por sua própria culpa - o Congresso deixou nas mãos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a interpretação jurídica sobre a Lei da Ficha Limpa, assim como jogou para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a decisão sobre se os presidenciáveis poderão ou não aparecer nos programas do guia eleitoral de rádio e televisão nos Estados onde as coligações sejam diferentes da nacional.

A ausência da reforma política já transferiu para a Justiça Eleitoral - em disputas passadas - outras questões importantes. Entre elas, a verticalização das alianças. Quem sabe se o Congresso tivesse se debruçado sobre o assunto - no bojo de uma reforma política - as coligações regionais não tivessem ficado tão engessadas como ficaram?

Mas parece que eles não aprendem. Toda vez que se cobra a reforma política, é como se estivesse falando numa doença contagiosa. Somente uns poucos corajosos permanecem no recinto. Os demais, fogem como o diabo da cruz. Curioso é que é desses que, agora, partem os mais veementes protestos pelo fato de o Judiciário estar tomando novamente as rédeas. Reclamam que estaria se criando um clima de instabilidade jurídica que ameaça a campanha eleitoral.

Na verdade, a história mostra que quem tem mesmo o dom de criar instabilidade neste País é o Legislativo. Instituição cuja principal função, a de produzir leis, há muito ficou relegada a segundo plano. Atualmente, o que mais se faz por lá é política, e de gosto bastante duvidoso, é bom que se diga. Daí a necessidade urgente da reforma. Mas como ela precisa ser feita pelos legisladores, voltamos à tese do ovo e da galinha. E a continuar assim, é provável que jamais saiamos desse círculo nefasto.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma disputa histórica e plebiscitária











Para efeito de comparação, as duas principais convenções realizadas ontem anteciparam um pouco do clima que deve permear a disputa pelo governo do Estado. No Parque Amorim, a força do rolo compressor governista – tripulado por 17 partidos – arrastou milhares de pessoas para o Clube Português, onde foi homologada a candidatura de Eduardo Campos (PSB) à reeleição.

No bairro de Afogados, no Clube Atlético de Amadores, uma festa mais modesta – capitaneada por cinco legendas – retratou bem o tamanho da oposição, que oficializou a quarta investida de Jarbas Vasconcelos (PMDB) rumo ao Palácio do Campo das Princesas.


Pessoas de ambos os palanques reconhecem que além de um embate histórico, a eleição deste ano terá um caráter bastante plebiscitário. Adversários ferrenhos, tanto Eduardo como Jarbas submeterão suas administrações ao julgamento do eleitor.

O curioso é que os dois lados são ramificações de uma mesma linha, que até 1990 – antes da ruptura entre Jarbas e o ex-governador Miguel Arraes – costumava transformar as convenções partidárias em festas antológicas. Duas décadas depois, os agora ex-aliados tentavam, ontem, demonstrar tranquilidade. Mas não conseguiam tirar o rival da cabeça. Nem do discurso.


“Nossa convenção não pode ser comparada com a do outro lado, porque lá é chapa branca e aqui é a oposição”, bradou Jarbas. Numa crítica direta ao governador, o peemedebista garantiu que na sua festa não havia militância remunerada, “nem gente atraída por cargos ou dinheiro”. Apenas pessoas que foram por vontade própria, mesmo cientes do cenário adverso que a oposição vai enfrentar na campanha.

Quase na mesma hora, Eduardo Campos afirmava que espera calúnia, difamação e baixaria por parte dos adversários, “como fizeram com Miguel Arraes, Lula e Humberto Costa”. No entanto, ao assegurar ter promovido a “paz política” no Estado, sinalizou que, se depender dele, os ataques devem cair no vazio. “Daqui será sempre para melhor”, resumiu.

* Texto publicado no Jornal do Commercio, edição de 01/07/2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sapos barbudos
















Bom petista é aquele que, mesmo depois de tantas mudanças de rumo, ainda se surpreende com as guinadas políticas promovidas, vez por outra, pelo comando da legenda. Mas poucos deles conseguiriam imaginar o pacote eleitoral que vem sendo preparado pela cúpula partidária para alguns Estados.

A ordem é suspender projetos de candidatura própria e hipotecar apoio a concorrentes de partidos aliados do Palácio do Planalto. Ainda que seus nomes tenham figurado, no passado, no index de inimigos do PT.


Que petista de carteirinha esperaria, por exemplo, receber orientação para apoiar a candidatura de Fernando Collor de Mello (PTB) ao governo de Alagoas? Só para ativar a memória: além de derrotar Lula em 1989, Collor foi apeado da Presidência com a ajuda dos caras-pintadas e dos parlamentares do PT. Mas depois de quase vinte anos, o ex-presidente, hoje senador, conquistou a simpatia do Planalto. E alguns bons cargos também.


Calma, que o pacote eleitoral é maior que isso. Qual petista imaginaria, há dez anos atrás, ter que pedir votos para eleger Roseana Sarney (PMDB) governadora do Maranhão pela terceira vez? Pois o "pesadelo" está para acontecer. Falta apenas selar o acordo, gestado com o aval de Lula e do seu amigo José Sarney - "capo" do clã maranhense e pai de Roseana - que há alguns anos era chamado por ele de "o maior ladrão do Brasil".


E pouco interessa se a direção estadual do PT no Maranhão já tinha costurado uma aliança com o PSB e o PCdoB, para apoiar a candidatura de Flávio Dino ao governo. Se depender da cúpula nacional petista, no feudo sarneyzista não vai ter candidato de oposição.


Por último, o pacotaço eleitoral governista traz o apoio incondicional do Planalto à candidatura do ex-ministro Hélio Costa (PMDB) ao governo de Minas Gerais. Uma decisão que só pode ser chamada de surpreendente pelos petistas "de raiz". Porque qualquer observador mais desapaixonado há tempos já teria notado a intenção da direção nacional de "rifar" a candidatura própria do ex-prefeito de Belo Horizonte, o petista Fernando Pimentel, para garantir apoio ao fiel ex-auxiliar de Lula.


Traduzindo para bom português, a orientação do comando petista nesses Estados é a de engolir sapos, em nome da governabilidade. E já não se trata mais do governo Lula. Estamos falando do governo Dilma Rousseff. Até porque, Lula não parece mesmo lidar com a possibilidade de sua candidata perder a eleição.


Depois de preparar um sólido palanque - sacrificando, para isso, algumas regras até então bastante caras aos petistas mais aguerridos - agora, o presidente sacrifica candidaturas dos próprios companheiros nos Estados.
É o poder, custe o que custar.

sábado, 29 de maio de 2010

Elefante branco eleitoral
















Demorou, mas eis que a Sudene ressurge como moeda eleitoral.
Dessa vez, o primeiro a lançar mão do instrumento foi o presidenciável tucano José Serra. Nada demais, poderia ter sido Dilma Rousseff (PT), ou Marina Silva (PV). Cada uma, óbvio, com sua própria abordagem para um tema que, com o passar dos anos, vem se transformando numa lenda nordestina.

Criada em 1959 pelo economista Celso Furtado - sob encomenda do mais desenvolvimentista dos presidentes brasileiros, Juscelino Kubitschek - a Sudene tinha tudo para atuar bem como órgão de fomento, principalmente numa região tão sofrida e desamparada. Mas no momento em que descobriram a extrema necessidade do agricultor nordestino, os políticos também perceberam a força da máquina que tinham ali.


Bastava uma manobra aqui, um bilhetinho ali, e o dinheiro dos investimentos terminava canalizados para apadrinhados e correligionários. Um vício que só cresceu durante a ditadura militar, e que nem a redemocratização conseguiu dar combate. Assim funcionou, até que a Sudene fosse dragada de tudo que dela se poderia tirar. Esvaziada, não conseguiu resistir à investida final, do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que em 2001 decretou sua extinção.


Mas um vício verdadeiro não é fácil de combater. E foi assim que, mesmo tendo nas mãos apenas o cadáver da Sudene, alguns candidatos ainda conseguiram tirar proveito eleitoral dele, prometendo a sua ressurreição e o reencontro com a glória. Independente de partidos, todos pareciam ser favoráveis à reconstrução da entidade.


Na campanha presidencial de 2002, o tema chegou às raias da ironia quando José Serra, candidato do PSDB apoiado por FHC, defendeu a plenos pulmões a reabertura da Sudene, fingindo não notar o carrasco da extinção bem ali atrás dele, no mesmo palanque.


E Lula? Nada bobo, o candidato do PT retomou o discurso de nordestino expulso para o sul pela miséria e, claro, fez o link com a Sudene. Prometeu reestruturá-la de forma a garantir projetos e investimentos suficientes para segurar o homem do campo na região. De quebra, lamentou que na sua época não existisse nada igual à Sudene.


Após tomar posse, porém, Lula preferiu se debruçar sobre temas mais emergenciais para o País, como as relações internacionais. As questões mais importantes estavam no exterior. E quem não lembra a quantidade de viagens oficiais empreendidas pelo presidente nos primeiros quatro anos de gestão? Os problemas internos ficavam para outra hora.


E veio a disputa de 2006. Pronto para tentar a reeleição, Lula tratou de desenterrar a questão da Sudene, sem sequer se dar ao trabalho de renovar as promessas. Repetiu as mesmas da campanha anterior, fazendo coro com o tucano Geraldo Alckmin, presidenciável da vez, que na primeira visita ao Nordeste já empunhou a bandeira. E, assim como fez Serra, Alckmin ignorou solenemente o fato de o autor da extinção estar no seu palanque.


Em janeiro de 2007, o presidente reeleito finalmente sancionou a lei que recriou a Sudene. Mas a festa só durou até que os novos dirigentes da entidade descobriram os cofres vazios, o quadro de pessoal desestruturado e a absoluta falta de poder político. Era apenas um esqueleto. Uma mera lembrança da entidade concebida por JK, o presidente que Lula, vez por outra, admitia admirar.


Assim é, hoje, a Sudene que Serra quer reformular, nos moldes do projeto original de Celso Furtado, de quem disse ter sido "discípulo e colega". É a mesma Sudene que, com certeza, dentro de alguns dias será abordada por Dilma Rousseff em uma passagem pelo Nordeste. E que pode até mesmo, quem sabe, ser usada por Marina Silva como mote para projetos de desenvolvimento sustentável na região.

Afinal, prometer é sempre muito fácil. Principalmente para gente como o sofrido homem do campo do Nordeste, que diante de tantas dificuldades - quer impostas pela natureza, quer pela mente humana - jamais perde a esperança.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Eleitor ficha limpa












Triste do país que precisa de uma lei como a do ficha limpa. Não sou contra a proposta, aprovada pelo Congresso Nacional esta semana. Pelo contrário, confesso ter ficado surpreso com a celeridade da decisão dos senhores deputados e senadores.


Quando falo em infelicidade, é porque imagino como tudo seria limpo e transparente se a ética e a correção prevalecessem na política desde a origem. Por exemplo, o fulano que desejasse simplesmente se filiar a um partido, já seria obrigado, de saída, a apresentar uma "folha corrida" que o abonasse. Caso contrário, não teria o direito sequer de militar numa legenda.

É claro, esse seria um país dos sonhos. Uma ilha da utopia, bem ao gosto de Thomas Morus, onde a corrupção seria cortada pela raiz antes que as ervas daninhas nascessem - e se proliferassem - nos parlamentos e executivos por aí afora. Em vez de remediar, faríamos uma prevenção, evitando a situação limite à qual chegamos.

Enfim, temos no Brasil uma lei proibindo a candidatura de políticos condenados em instâncias colegiadas da Justiça. Agora, magistrados e parlamentares discutem a sua aplicação. Se valerá ou não para os candidatos às eleições de outubro próximo. Quem de nós - excetuando-se, claro, os próprios candidatos - não gostaria de vê-la vigorar de imediato? Quem não está cheio da corrupção, e da passividade de quem deveria puni-la?

Mas é preciso seguir o bom direito, como alertou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ricardo Lewandowski. Qualquer lei aprovada está impedida de retroagir para prejudicar alguém, por mais culpado que seja. E por essa norma, somente políticos condenados após a sanção presidencial da nova regra estariam sujeitos à proibição da candidatura. Ou seja, quem foi punido antes, está livre para disputar mandato.

Se essa for a interpretação correta da nova lei, paciência. Ao menos terá dificultado o surgimento de uma nova geração de corruptos para herdar as mamatas e benesses usufruídas atualmente pelos políticos desonestos. É um primeiro passo para mudar o cenário dantesco que vemos hoje nas rodas de comando da Nação.

Para quem aguentou desmandos e corrupção por décadas, esperar um pouco mais não deve ser tão difícil. É só ficar atento para impedir qualquer desvio nesse novo rumo que a sociedade começa a impingir à classe política.

Quanto à atual geração de raposas, elas ainda terão licença para disputar eleições. Mas cabe ao eleitor se conscientizar e entrar na guerra. Porque somente ele tem nas mãos o intrumento mais legítimo para expurgar da vida pública os corruptos, mensaleiros, estelionatários e outros criminosos: o voto.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Como criar um monstro












O processo de isolamento imposto pelo PT pernambucano ao ex-prefeito do Recife, João Paulo, após ele ter sido derrotado na disputa pela vaga de senador, pode surtir um efeito colateral complicado para os próprios petistas. Por mais inquieto ou indomável que seja, por mais que incomode o comando partidário, João Paulo construiu uma liderança exponencial não só no Recife, mas em boa parte do Estado. Que deve ficar clara na disputa pela Câmara dos Deputados, em outubro.


A iniciativa de isolamento ficou explícita durante a visita de Lula ao Estado, na sexta-feira, para a qual o ex-prefeito sequer foi convidado. Mesmo sendo ele o autor do projeto habitacional Via Mangue, posteriormente executado pelo prefeito João da Costa (PT) e inaugurado na semana passada pelo presidente.


No momento em que o PT desiste do diálogo – por mais difícil que seja – e passa a ignorar o peso político de João Paulo, colabora para pavimentar um caminho que começou a ser aberto no início da década, e que pode levá-lo direto para os braços do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). A aproximação começou quando um era governador e o outro, prefeito. E foi tão evidente que incomodou a campanha de Humberto Costa ao governo, em 2002.


Não que os dois estejam prestes a se unir oficialmente. Mas qualquer observador atento é capaz de imaginar o estrago que uma eventual aliança Jarbas-João Paulo, num futuro próximo, poderia causar no front governista. E depois da atitude da cúpula petista, já tem gente na oposição se movimentando para fazer o meio de campo, de olho em 2012 e 2014.


* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 11/05/2010