segunda-feira, 2 de maio de 2011

O terror está vivo

















Não pretendo, aqui, fazer juízo de valor sobre o tratamento que os Estados Unidos dão ao resto do mundo. Nem tampouco condenar o discurso anti-americanista formulado, sobretudo, pelas esquerdas. O que me preocupou mais do que tudo – ao assistir nesta madrugada de domingo para segunda-feira, ao noticiário em tempo real sobre a morte do chefe maior da Al Qaeda, Osama Bin Laden – foi a absoluta falta de reflexão do povo norte-americano.

Ao tomar conhecimento da morte do terrorista – responsabilizado pela morte de milhares de pessoas no atentado às torres gêmeas, em setembro de 2001 – muitos americanos correram às ruas para festejar, de bandeiras em punho. Concentrações em frente à Casa Branca e em outros pontos do país foram transmitidas ao vivo pelas redes de TV dos EUA. Para o mundo todo. O que inclui o mundo árabe.

Os muçulmanos são pessoas tão pacíficas quanto os seguidores de qualquer outra religião. O que preocupa são as exceções. Aqueles que preferem interpretar o Corão pelo ângulo da violência, baseados apenas em trechos de algumas suras.

Essas pessoas, que vivem para difundir o ódio, certamente assistiram às cenas transmitidas pela televisão americana. No exato momento em que lamentavam a morte do seu líder maior – para eles, um herói – viam seus grandes inimigos comemorarem em praça pública. Se isso não é combustível para alimentar mais a raiva, nada mais é.

Em vez de se comportarem como se ninguém mais existisse no planeta, indo às ruas bradar como torcida organizada de futebol, s americanos deveriam engolir esse sentimento de vitória e comemorar de uma forma menos ostensiva.

O problema é que a maior parte da população dos EUA não entende, por exemplo, que enquanto a questão palestina não for resolvida, o ódio e o terror permanecerão. Culpa dos formuladores da política externa dos EUA, que não deixam claro ao povo que o apoio integral do país a Israel custa caro, acirra os ânimos e avoluma os problemas.

Não tiro a razão dos que perderam alguém nos atentados. Ou dos que se sentiram ultrajados com um ataque tão atrevido, dentro das suas fronteiras. Mas para combinar com o discurso feito pelo presidente Barack Obama ainda na madrugada – destacando que a morte de Bin Laden representava uma busca pela paz e liberdade para todo o mundo – não seria melhor manter um comportamento mais low profile?

Afinal, vibrar nas ruas como se a guerra contra o terror tivesse simplesmente ganha é como tapar o sol com a peneira. É ignorar solenemente os efeitos adversos que a morte de Bin Laden pode desfechar sobre os Estados Unidos.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tábua de salvação















O Brasil de hoje tem 28 partidos inscritos formalmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sem falar nos outros que aguardam a apreciação do seu pedido de registro. De todos estes, seis ou sete podem ser realmente levados a sério. Os demais, ou são verdadeiros balcões de negócios ou não representam nenhum grupo ou setor da sociedade. São blocos do "eu sozinho".


A permissividade da atual legislação é a grande responsável por esse excesso que, ao contrário de ajudar, só atrapalha a construção de uma democracia séria no País. A regulamentação de uma nova lei dos partidos políticos é um dos itens mais urgentes e necessários na pauta de uma eventual reforma política. Digo eventual porque, por mais que seus defensores se esforcem, ainda não acredito que ela venha a se concretizar. Pelo menos não da forma como a sociedade deseja.

Mas independente de qualquer reforma que venha a ser votada no Legislativo, um outro tipo de mudança está sendo negociada, e se consolidada, terá um impacto razoável no cenário político. É a fusão do PSDB com o DEM. Os dois partidos governaram juntos o País por oito anos, e há oito anos dividem a oposição ao governo petista.

Essa condição de opositor enfraqueceu as duas legendas, mas machucou muito mais os demistas que os tucanos. Descendente de uma árvore genealógica totalmente adversa ao modelo de centro-esquerda adotado pelo PSDB, o DEM traz no sangue sinais genéticos da Arena, do PDS e do PFL, ainda que tenha deixado pelo caminho parte do conservadorismo dos ancestrais.


Historicamente falando, também não ajudou o fato de o DEM - ou seu antecessor PFL - ter se colocado como coadjuvante do poder. À exceção do ex-vice-presidente Aureliano Chaves, o partido nunca encabeçou uma chapa na disputa presidencial, optando pela vice do PSDB em 1994 e 1998. Em 2002, o PFL sequer esteve representado em alguma chapa. Simplesmente apoiou a dobradinha PSDB-PMDB.

Em 2006, o DEM reassumiu seu papel tradicional, na vice da chapa do tucano Geraldo Alckmin. Em paralelo foi, aos poucos, perdendo também o domínio político nos Estados.


Aquele PFL que na primeira eleição direta pós-golpe militar, em 1982, elegeu quase todos os governadores brasileiros - inclusive os dos nove Estados do Nordeste - em 2006 só conquistou o governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda. Aí veio o escândalo do mensalão, Arruda renunciou e o partido perdeu o único comando estadual que tinha.

Em 2010, num esboço de reação, o DEM elegeu dois governadores: Rosalba Ciarlini (RN) e Raimundo Colombo (SC). Mas hoje o catarinense está de malas afiveladas para cair fora. Isso sem falar na redução significativa das bancadas parlamentares na Câmara dos Deputados - que já foi a mais numerosa -, no Senado e nas assembleias estaduais.


Diante desse retrato cruel, mas realista, a proposta de fusão com o PSDB pode até não ser tão vantajosa para os tucanos. Mas com certeza seria o caminho da salvação para os ex-pefelistas.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O PMB de Eduardo













A política é feita de ciclos, alguns muito semelhantes, ainda que décadas os separem. É o caso do Partido Social Democrático (PSD), fundado há cerca de um mês pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e avalizado de pronto pelo presidente nacional do PSB, governador Eduardo Campos.


Em Pernambuco, o PSD deverá representar para Eduardo o que o extinto Partido Municipalista Brasileiro (PMB) significou para o seu avô, Miguel Arraes. Em 1988, ainda ligado ao PMDB, o governador Arraes recebia inúmeros pedidos de filiação ao partido de pretensos candidatos a prefeito e vereador em todo o Estado. Visando evitar o inchaço do PMDB local, ele direcionou essas filiações para o PMB, comandado pelo senador Antônio Farias, seu companheiro de chapa em 1986.

Um quadro bem parecido se desenha agora para Eduardo Campos. É no PSD que o governador deve posicionar boa parte dos seus candidatos a prefeito e vereador em 2012, evitando crescimento exagerado do PSB. Não é à toa que, assim como Arraes fez com Farias e o PMB, Eduardo apadrinhou a filiação do ex-deputado André de Paula (ex-DEM) ao PSD, e ainda lhe entregou a presidência local do partido. Tudo muito semelhante...


* Texto publicado na coluna Cena Política, em 25/04/2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

Pessedismo de roupa nova













Certa vez, li uma definição interessante para a expressão "pessedismo": o exercício da moderação e do equilíbrio, que gera a capacidade de sobreviver sempre, tão perto do poder quanto possível. Na ocasião, estava sendo descrito o velho pessedismo, linha política da qual foram adeptos vários personagens históricos, a exemplo dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Eurico Gaspar Dutra, e em Pernambuco, os ex-governadores Agamenon Magalhães e Miguel Arraes.


O velho Partido Social Democrático (PSD) foi fundado em 1945, sob os auspícios do então presidente Getúlio Vargas, que queria ampliar sua base de sustentação e garantir proteção contra os ataques da conservadora UDN. Para isso, tratou de solidificar no PSD o apoio das elites municipais, os chamados "coronéis", interessados em se manter dentro do círculo de poder. Anos depois, quando o golpe militar de 64 extinguiu a legenda, expôs seu "ecletismo". Enquanto parte dos filiados migrou para o MDB - de oposição aos generais - outra parte buscou abrigo sob o guarda-chuva da Arena governista.

Quase 70 anos depois, o fantasma do pessedismo é invocado das profundezas pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Embora com raízes fincadas no DEM, ex-PFL, ex-PDS e ex-Arena, Kassab revelou um jogo de cintura bem pessedista logo nas primeiras costuras do novo partido. Com a tradicional simplicidade com que os políticos costumam justificar seus atos, explicou que pretende fazer uma "oposição responsável" à presidente Dilma Rousseff (PT), "criticando o que considerar errado e elogiando o que for correto".

Curioso é como o discurso pessedista ainda tem o poder de "abrandar" o fogo das oposições. Hoje, Kassab tem como principal aliado e conselheiro o presidente nacional do PSB, Eduardo Campos. Mas o respaldo do governador de Pernambuco não é gratuito. Muito pelo contrário. Raposa política, Eduardo já joga com a hipótese de fundir o PSD ao PSB, ampliando sua força política no País para o projeto maior dos socialistas em 2014.

Mais curiosos ainda são alguns nomes que poderão vir a cerrar fileiras com Kassab e, por consequência, com Eduardo Campos. Já estão de malas prontas para ingressar no PSD figuras como a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) - líder da bancada ruralista e duríssima adversária de DIlma e do MST -, o vice-governador baiano Otto Alencar (PP), eleito na chapa do petista Jaques Wagner, e o vice-governador de São Paulo Guilherme Afif Domingos (DEM), companheiro do governador tucano Geraldo Alckmin.

E Pernambuco não poderia ficar ausente do novo pessedismo. O comando local do partido será entregue ao ex-deputado federal André de Paula, que por longos 17 anos presidiu o PFL estadual e atuou no alto comando da oposição a Miguel Arraes e ao seu neto, o atual governador. Eduardo Campos, agora, tornou-se padrinho da filiação do ex-adversário ao PSD, deixando claro, mais uma vez, o dote pessedista que herdou do avô.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

No bolso do paletó










Quem é mesmo esse povo que os deputados estaduais representam no poder? Seria aquele cidadão que acorda cedo, chacoalha pendurado em ônibus invariavelmente lotados e dá duro seis dias por semana para garantir um salário mínimo no fim do mês?


Ou seria aquele cidadão usuário de um sistema de saúde pública precário - para dizer o mínimo - com longas filas nas emergências e consultas médicas marcadas às vezes com até um ano de antecedência?

Poderia ser ainda aquele cidadão dependente de um sistema de educação pública capenga, ultrapassado, com professores pouco capacitados e mal-remunerados, e sem condições de sequer sonhar com seus filhos na universidade?

Quem, na classe média, ousaria bater no peito e se dizer representado por esses senhores, que legislam diuturnamente em causa própria, criando dispositivos que lhes permitam embolsar mais e mais recursos públicos, quando praticamente a metade dos cidadãos que pagam impostos não têm dinheiro que sobre no final do mês?

Você se sentiria representado por um político que, para aprovar um projeto de interesse do Estado, precisa ser bajulado pelo Executivo e ter uma série de exigências atendidas, sob a ameaça de simplesmente "desaparecer" na hora da votação?

Pois bem. Esse é o retrato da atual Assembleia Legislativa de Pernambuco. Como de resto, de outras tantas casas legislativas pelo País afora. A situação chegou a um ponto de insustentabilidade que está levando entidades da sociedade civil a se mobilizarem para interferir, na tentativa de deter a voracidade dos parlamentares e fazê-los enxergar que nem tudo é mordomia no Poder.

No momento, a seccional pernambucana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE) decidiu dar combate a um antigo absurdo cometido pelos deputados com o dinheiro do imposto nosso de cada dia: o "auxílio-paletó".

O benefício - que consome cerca de R$ 2 milhões anuais dos cofres públicos - foi assim apelidado porque inicialmente previa uma ajuda de custo para que cada um dos 49 deputados pudesse se vestir condignamente para o trabalho de representar o povo.
Porém, como tudo o mais no Legislativo, o auxílio-paletó foi distorcido. Passou a ser pago indistintamente - inclusive aos suplentes que porventura assumam a vaga durante apenas alguns meses - e sem a necessidade de prestação de contas pelo beneficiário.

Hoje, o auxílio-paletó garante a cada parlamentar pernambucano pelo menos mais dois salários mensais ao ano, um no início e outro ano final de cada período legislativo. E é sempre bom lembrar o valor do salário de um deputado estadual - calculado em 75% da remuneração de um deputado federal: R$ 20 mil.

O 14º e o 15º salários dos senhores deputados, pagos sob o título de auxílio-paletó, é mais uma mordomia acrescida a uma lista que já não é pequena, que inclui outros tantos "vales", "verbas" e "auxílios".

Se mesmo diante de tudo isso, uma parte da sociedade consegue enxergar identidade entre um deputado estadual e o cidadão que ele supostamente representa no poder, a outra parte - ainda capaz de se indignar - deve estar precisando usar óculos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Um vice nada figurativo











Diz a regra que, depois que um sujeito morre, só se deve falar bem dele. Pois então que se cumpra a regra.


Sobre o bem-sucedido empresário têxtil José Alencar - aquele proprietário da poderosa Coteminas - não me atrevo a comentar. Não é minha praia. Prefiro focar no José Alencar político, ex-senador, ex-vice-presidente da República e um impressionante conciliador, qualidade reconhecida em vida, mas que vale a pena relembrar após sua morte.


É inegável a importância de Alencar na construção da candidatura vitoriosa de Lula em 2002. Não fosse sua participação, é quase certo que não teria havido a aproximação necessária dos petistas com o empresariado brasileiro, elite mandatária que define, de fato, quem chega e quem sai do poder. Que o diga o ex-presidente Fernando Collor.


Também é fato que a mineirice de Alencar ajudou a construir o diálogo com esse setor. Corajoso, ele aceitou o convite dos artífices da candidatura Lula para assumir a vice absolutamente ciente de que ali estava não por uma questão de simpatia dos petistas. Longe disso.


O senador foi escolhido vice como parte de uma estratégia bem montada pelos caciques do PT nos quatro anos que sucederam a última derrota de Lula. Estratégia que incluiu uma guinada no discurso e a flexibilização de várias teses de origem marxista.

As mudanças ficaram bem claras na Carta ao Povo Brasileiro, divulgada pelo próprio Lula em junho de 2002, pouco antes de assumir a quarta candidatura.
Após três quedas sucessivas nas urnas, mesmo contando com a simpatia das classes menos favorecidas, os petistas sabiam que caminhariam para um quarto fracasso, se não conseguissem o apoio de alguém com real penetração na poderosa casta que define os destinos da política nacional.

O mineiro de Curiaé sabia muito bem o papel que lhe caberia, e o cumpriu com afinco e competência. Ao ponto de, ao final de algumas palestras - como fopi possível testemunhar na Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe) - despertar surpreendentes declarações de apoio a Lula por parte de empresários que antes demonizavam o ex-líder sindical, considerado um verdadeiro bicho-papão pela elite financeira.


Mas Alencar era tão envolvente que a aliança, em princípio meramente eleitoral, terminou descambando para o lado afetivo. Em 2006, pronto para disputar a reeleição, Lula foi instado por alguns auxiliares a substituir seu companheiro de chapa. Para esses petistas, pela boa aceitação que a gestão recebia, já era possível dispensar Alencar para buscar um nome que agregasse mais politicamente. Talvez no interesseiro PMDB.


Lula rejeitou a tese e bateu o pé. Ali, já admitia abertamente, sua relação com Alencar extrapolara o caráter político. Sem desmerecer a competência do vice-presidente, ele enxergava em Alencar uma espécie de figura paterna. Mais quatro anos e essa relação de confiança se consolidou de uma forma pouco provável para quem lembra das origens do PT.


José Alencar detonou a tese do vice figurativo. Mesmo primando pela discrição - e nisso a sua mineirice ajudou - fez questão de manifestar opinião própria sobre as questões de governo. Opiniões às vezes meio incômodas. Algumas até incendiárias. Mas foi assim, na marra, que ele conquistou seu lugar no núcleo do poder e ganhou o respeito não apenas dos políticos, mas de muita gente que já nem acredita tanto na política.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Partindo para a ofensiva












Quem assistiu à TV em horário nobre no fim de semana passado testemunhou o início da ofensiva montada pelo prefeito do Recife, João da Costa (PT), na tentativa de pavimentar a própria reeleição, em 2012. A propaganda institucional da Prefeitura, veiculada nos meios de comunicação, passou por uma reformulação, ficou mais dinâmica e agressiva. Mas o ponto alto dessa "repaginada" foi a mudança do slogan. Agora, o prefeito avisa: "Primeiro a gente faz, depois a gente mostra".


Além do cidadão-eleitor recifense, a mensagem de João da Costa tem dois destinatários certos: A oposição, com suas denúncias sobre obras inacabadas e acusações de paralisia da gestão, e os aliados - ou ex-aliados, no caso do ex-prefeito João Paulo (PT) - que nos bastidores já vinham discutindo "alternativas" para a disputa de 2012 no Recife, diante das várias dificuldades políticas e administrativas enfrentadas pelo prefeito na capital.

No caso de João Paulo, aliás, a alfinetada é direta. Não foram poucas as vezes em que o ex-prefeito fez festa para inaugurar obras da sua gestão que ainda não estavam totalmente concluídas, quer fosse uma simples rua ou um gigantesco parque em Boa Viagem.

Na época, como aliado, secretário e candidato preferido à sucessão, João da Costa não deu um pio contra o comportamento do padrinho político. Só falou depois do rompimento.


Vale lembrar que a nova estratégia - que pretende dar mais visibilidade ao mandato do prefeito - foi deflagrada logo após suas aparições públicas ao lado do marqueteiro Antônio Lavareda, durante o Carnaval. E antes que alguém fale em coincidências, é bom advertir: em política, elas não existem. Simples assim. Tudo é sempre pensado, calculado, negociado.

É claro que Lavareda pode não ter nada a ver com a ofensiva da PCR. Mas também pode ter tudo a ver com ela. O "mago" das pesquisas - como ele gosta de ser tratado - não foi contratado pelo prefeito, ao menos formalmente.

Lavareda pode, no máximo, ter dado um conselho ou outro. E se assim foi, funcionou. Afinal, há pelo menos seis meses a Prefeitura do Recife não aparecia com tanta força nos meios de comunicação. Mesmo dispondo de um razoável orçamento, de R$ 16 milhões, para gastos com publicidade institucional no ano passado, a imagem da gestão passou longe do eleitor e a do prefeito continuou em queda livre nas avaliações dos institutos de pesquisa.


Com a nova estratégia de marketing - que pretende massificar a divulgação das obras e colocar o prefeito nas ruas, em contato direto com as comunidades - o núcleo duro da PCR espera ver o ponteiro da popularidade se mover. Para cima, claro.

Até porque, se os indicadores não melhorarem até outubro - ou seja, um ano antes das eleições - a situação pode ficar bem mais complicada e ameaçar de verdade os planos de reeleição de João da Costa. Que dessa vez depende exclusivamente dos seus próprios esforços para garantir um novo mandato.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O sujo e o mal lavado












Achei que já tinha visto "de um tudo" na política e no futebol. Mas errei feio.
Jamais imaginei, por exemplo, que iria assistir a essa interessante queda de braço entre duas figurinhas carimbadas como o deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

É, literalmente, o sujo falando do mal lavado.

Pois não é que o ex-governador fluminense - do alto das suas denúncias e processos por corrupção - decidiu levar a cabo o pedido de abertura de uma CPI na Câmara dos Deputados para investigar os desmandos de Teixeira nos preparativos da Copa de 2014?

É o fim do mundo!


O presidente da CBF poderia ser classificado como a figura mais repugnante, descarada e esquiva que já surgiu na moderna onda de cartolagens e negociatas que feriram de morte o futebol brasileiro. O deputado Garotinho, por sua vez, ganhou notoriedade pela forma, digamos, pouco ortodoxa com que administrou as finanças públicas quando prefeito de Campos (RJ) e, posteriormente, como governador do Rio de Janeiro.


No entanto, por incrível que pareça, dessa vez Garotinho acertou a mão. Investigar Ricardo Teixeira é algo que muitos já tentaram fazer, sem sucesso. O homem tem costas mais quentes que ferro em brasa, seja pela família, entre os amigos e no poder. Esse é um primeiro motivo pelo qual não acredito no sucesso da empreitada do parlamentar fluminense.


O outro motivo é que desconfio das reais intenções de Garotinho ao propor uma CPI como essa. Ou ele tem - ou tinha - "negócios" com Ricardo Teixeira e foi, de alguma forma, passado para trás, engabelado pelo presidente da CBF, o que não seria surpresa. Ou então está aproveitando a onda da Copa do Mundo para se promover e tentar reaver o governo do Rio de Janeiro, cujo eleitorado que fez dele o deputado campeão no Estado, com quase 700 mil votos.

Certo mesmo é que esse pedido de CPI não foi motivado pela intenção do nobre congressista de preservar o bem público.


Já Ricardo Teixeira se antecipou em proteger seu bem privado, a CBF. Esteve no Congresso conversando com deputados e senadores e mobilizou os presidentes de federações estaduais de futebol, seus aliados, para pressionar as bancadas parlamentares em seus Estados e barrar a investigação.

Coisa de quem, absolutamente, tem culpa no cartório.

segunda-feira, 14 de março de 2011

E o prefeito se move...












O prefeito do Recife, João da Costa (PT), está, de fato, longe de ter a unanimidade no bloco governista. Sua candidatura à reeleição – que deveria ser pensada como natural – tem sido questionada, embora em reserva, por setores do palanque liderado pelo governador Eduardo Campos (PSB). O rompimento com o ex-padrinho político João Paulo (PT) também ajudou a criar uma certa desconfiança entre os aliados.


Mas ninguém se engane: o prefeito está disposto a ir à luta. Depois da licença médica de 101 dias, ele parece ter despertado para a necessidade de pavimentar a própria reeleição, e dá vários sinais nesse sentido. Seja no empenho em fazer um bom Carnaval no Recife, seja na busca de mais diálogo com líderes do bloco governista, inclusive o próprio Eduardo Campos.

O fato é que João está se movendo. E alguns desses movimentos, até pelo caráter inesperado, atraem atenções e geram polêmica, jogando o prefeito no foco das discussões. Funciona.


Só os mais inocentes, por exemplo, acreditariam que as sucessivas aparições ao lado do marqueteiro Antônio Lavareda têm apenas caráter “social”. Os dois passaram a semana pré e o Carnaval inteiro se encontrando. No sábado ainda foram ao Rio de Janeiro assistir ao desfile das escolas de samba campeãs.

Dono de baixos índices de popularidade, se o prefeito estiver buscando aconselhamento, Lavareda é um nome bem adequado. Muito embora tenha sido demonizado pelo PT por muitos anos, quando cuidava das campanhas de Jarbas Vasconcelos & cia.

Enfim, se o projeto de João da Costa é chacoalhar o cenário pré-eleitoral no Recife para tentar marcar presença, até agora tudo está seguindo dentro dos conformes.

* Texto publicado na coluna Cena Política - JC, 14/03/2011

Novo espaço para debates políticos



Retomando as atividades do blog, após longas e merecidas férias. E hoje comemorando o lançamento de um novo blog coletivo, com grandes cabeças pensantes da política pernambucana. É o PE na política


Muito me honra o convite para participar dessa novidade, comandada pelo competente jornalista Cristiano Ramos, com quem tive o prazer de travar bons debates políticos, no saudoso programa Opinião Pernambuco, na TVU.


Prestigiem o PE na política

www.penapolitica.com.br

Saudações cordiais

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

E Lula quebrou o tabu...















Após oito anos no poder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixa, amanhã, o Palácio do Planalto. E sairá levando debaixo do braço um índice recorde de 87% de aprovação e um lugar garantido no pódio da história política contemporânea do Brasil.


Mas é preciso admitir - parafraseando o próprio Lula - que nunca antes na história deste País se viu tanta polêmica em torno de uma única pessoa. Embora tenha estabelecido uma relação de absoluta confiança com as classes menos favorecidas, Lula ainda desperta o descrédito - e até algum ódio - em muita gente. Sobretudo nas elites.


É fácil explicar a aprovação ao petista. Difícil é justificar sua rejeição. Afinal, beneficiado com a política econômica que herdou dos tucanos, Lula consolidou a estabilidade financeira, tirou mais de 20 milhões de pessoas da linha de miséria, transformou o tsunami da crise mundial em uma marolinha e ampliou nossas fronteiras internacionais. Entre outros feitos que muita gente jamais pensou que pudessem acontecer.


É verdade que houve o mensalão. Também houve uma relação suspeitíssima com velhos caciques políticos do País. Houve loteamento de cargos, aparelhamento do Estado e, para coroar, a indução de uma candidatura presidencial com a força da máquina pública.


Mesmo assim, Lula conseguiu contrariar a tradição de que presidentes do Brasil só deixam o cargo desgastados e sem prestígio popular. A dúvida que resta, porém, é se Dilma Rousseff (PT), com toda a estrutura que herdará do padrinho político, conseguirá repetir a quebra desse tabu.

Dilma não é Lula, não fala como Lula, não age como ele. Os mais próximos garantem, porém, que Dilma pensa como Lula. Se assim for, já é um bom começo. Não custa dar à nova presidente um voto de confiança, e desejar a ela - e a todos os brasileiros - felizes 2011, 2012, 2013 e 2014.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Segredos públicos











Transparência é uma palavra longa e bonita, e muita gente enche a boca para pronunciá-la. Mas na hora de seguir à risca seu significado, termina deixando a desejar. Alguns políticos, por exemplo, quando questionados sobre assuntos que demandam transparência, costumam tegiversar. E poucos são os mandatários conscientes de quem é seu verdadeiro chefe.


É o povo. A sociedade. O eleitor. E é a eles - acima de qualquer outra instância - que esses políticos devem satisfações sobre suas ações. Principalmente quando envolvem dinheiro público, arrecadado com impostos suados pagos pelo contribuinte.


Hoje à tarde, o presidente estadual do PSB, Milton Coelho, confirmou esse exemplo, ao recusar-se novamente a revelar quanto o partido gastou com a organização, produção e divulgação da festa oferecida ao presidente Lula ontem, no Recife antigo. Festa encomendada, é bom que se diga, pelo governador Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, para agradecer pela atenção do aliado petista a Pernambuco nos seus oito anos de mandato.


No entendimento de Milton Coelho - prefeito do Recife em exercício, substituindo João da Costa (PT), licenciado - o PSB só tem obrigação de prestar contas ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), e tem prazo até abril de 2011 para tanto.


Está certíssimo, prefeito! Pela lei, é da competência exclusiva da Justiça Eleitoral analisar e julgar as contas dos partidos políticos com gastos do Fundo Partidário. Mas essa é apenas a questão legal. Não se pode, porém, jogar o aspecto do mérito na lata de lixo. Se um político ou uma agremiação política primam, verdadeiramente, pela transparência - e não apenas a utilizam como peça de retórica - deveriam exercê-la com plenitude.


Fala-se em um custo de R$ 162 mil. Há algum mistério nesse orçamento? Algum gasto foi irregular? É provável que não, afinal, como partido líder da aliança que governa o Estado, o PSB deve, e tem dado exemplo de retidão nas suas prestações de contas.


A mega-festa para o presidente Lula, no Marco Zero, é bom frisar, foi justa e merecida. Até porque, nunca antes na história deste Estado se viu tanto investimento e apoio do governo federal a obras e ações que beneficiam a população. Foi uma bela noite de forró e muita emoção, tanto para o homenageado como para quem compareceu. Muitos artistas populares, muita animação, música excelente.


Será que vale mesmo a pena arranhar esse cenário por tão pouco, com essa inexplicável resistência em informar ao povo quanto ele - o povo - pagou pela festa?

*
Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quem precisa de terapia?















Final de mandato, para muitos políticos, costuma representar um alívio. Mas para o presidente Lula, a expectativa de passar a faixa adiante parece estar se transformando num elemento de desequilíbrio profundo. Só isso poderia explicar o destempero e o comportamento bipolar a cada aparição pública.


Hoje cedo, no Maranhão, Lula voltou a protagonizar cenas no mínimo indignas do cargo. Questionado por um jornalista se seria grato pelo apoio que recebeu da "oligarquia dos Sarney" ao longo do seu governo, o presidente descompensou: além de classificar a pergunta de "preconceituosa", ainda mandou o repórter "se tratar, fazer psicanálise".

Na realidade, é o presidente quem parece estar sofrendo de algum transtorno psíquico. Amnésia, para dizer o mínimo. De que outra maneira ele poderia justificar a veemente defesa que faz agora dos Sarney, depois de tantas denúncias e escândalos envolvendo todo o clã?

Lula parece ter esquecido, por exemplo, dos indiciamentos do filho mais velho do coronel maranhense, o empresário Fernando Sarney. Seja por formação de quadrilha, tráfico de influência e falsificação de documentos, seja por envio de dinheiro ilegal ao exterior.

E o que dizer dos outros filhos do coronel? Será que Lula esqueceu da condenação do deputado federal Zequinha Sarney pela Justiça Eleitoral por propaganda antecipada em 2006? Ele virou ficha-suja e foi proibido de disputar a reeleição este ano, mas misteriosamente o TRE do Maranhão voltou atrás alguns dias depois, liberando o registro da candidatura.

Ah, presidente, o senhor também não lembra do escândalo Lunus? Aquele que detonou a candidatura de Roseana Sarney à Presidência da República, em 2002, e ainda terminou por causar sua derrota na disputa pelo governo do Maranhão quatro anos depois.

Seria bom relembrar a Lula que, atendendo a um pedido de Fernando Sarney, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo de publicar notícias sobre seu indiciamento, restabelecendo no Brasil uma prática de censura que não se via desde o regime militar. Embora medidas dessa natureza pareçam contar hoje com a simpatia de alguns setores petistas.

Mas ao defender José Sarney, presidente Lula, o senhor parece que esqueceu mesmo de uma famosa frase: "Ademar de Barros e Paulo Maluf podiam até ser ladrão, mas eles eram trombadinha perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que faz”.

A ausência de plurais dá uma pista sobre quem fez a declaração, não? Se você disse Lula, acertou. O desabafo aconteceu em 1987, num improvisado discurso em Aracajú, quando o então presidenciável petista não escondia o "ódio" pelo clã dos Sarney.

Mas hoje cedo, no Maranhão, a declaração foi bem outra. A um mês de desembarcar na planície, e certo de que já não precisa mais das atenções da imprensa como em 1987, Lula afagou publicamente os Sarney, agradecendo pelo apoio à sua administração. E vociferou contra o repórter que o questionou:

"Sua pergunta preconceituosa é grave para quem está há oito anos comigo em Brasília. Significa que você não evoluiu nada do ponto de vista do preconceito, que é uma doença. Sarney é o presidente do Senado. E colaborou muito para que a institucionalidade fosse cumprida. Você devia se tratar, quem sabe fazer psicanálise, para diminuir um pouco esse preconceito".


Depois dessa, só resta à imprensa brasileira despedir-se e agradecer a atenção dispensada, presidente Lula.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os leões de Dilma












Deve começar bem agitada a semana da presidente eleita Dilma Rousseff (PT), que voltou da Coréia do Sul no sábado passado. Ao retomar os trabalhos de transição e as costuras para compor sua futura equipe, ela terá que matar o primeiro leão antes mesmo de assumir o poder. Trata-se da acirrada disputa por cargos entre o PMDB – que não abre mão dos seis ministérios que ocupa hoje no governo Lula – e o PT, que cobiça pelo menos dois deles: Saúde e Comunicações.


E este é só o começo. Depois do crescimento vertical nas urnas, o PSB do governador Eduardo Campos também pleiteia ministérios de peso. Embora oficialmente os socialistas insistam que não condicionam apoio a cargos, nos bastidores já mandaram o recado: não vão mais se contentar com pastas de pouca evidência, como a da Ciência e Tecnologia.


No alvo do PSB estão, no mínimo, dois ministérios importantes: Integração Nacional e Cidades. O primeiro está atualmente na cota dos peemedebistas. O outro, nas mãos do PP, que não só deseja mantê-lo como sonha em ampliar seus espaços.


Além dos leões mais vorazes, Dilma ainda terá que afagar os menos famintos, como o PDT, o PCdoB e o PR, com bancadas parlamentares expressivas. Mas com um padrinho político experiente como o presidente Lula, é provável que ela tenha sido bem preparada para isso. Afinal, ninguém melhor que Lula para advertir que depois de cada eleição os leões podem até demorar, mas sempre aparecem para cobrar a fatura.

* Texto publicado na coluna Cena Política, do JC, em 15/11/2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em bom português...














Francisco Everardo Oliveira Silva sabe ler e escrever. Bem ou mal, não importa. Importa o fato de que ele não é analfabeto e, portanto, está apto a receber o diploma de deputado federal, mandato que lhe foi conferido, em outubro passado, por cerca de 1,3 milhão de eleitores de São Paulo.


Hoje pela manhã, no Tribunal Regional Eleitoral, Francisco Everardo leu dois títulos e dois subtítulos de um jornal. Depois, escreveu uma frase com 18 palavras, ditada por um juiz e retirada do livro "Justiça Eleitoral, uma retrospectiva". O teste levou pouco mais de três horas para ser realizado. Mas, é daí? Fez o que pediram. Comprovou que sabe ler e escrever, conforme afirmou em sua inscrição no pleito de outubro.

Famoso por seu desempenho artístico, Francisco Everardo recebeu 1.353.820 votos. Na história eleitoral de São Paulo, ficou atrás apenas do já falecido Enéas Carneiro (Prona), que abocanhou quase 1,5 milhão de votos.

O detalhe é que o doutor Enéas era figurinha carimbada na política, com três candidaturas presidenciais nas costas quando disputou a Câmara dos Deputados, e com sua votação - graças à matemática eleitoral perversa adotada pela legislação brasileira - arrastou consigo mais cinco deputados do Prona. Todos com menos de mil votos nas urnas.

Francisco Everardo, por sua vez, não sabia sequer o que vinha a ser filiação partidária quando, em setembro de 2009, foi convidado a ingressar no PR para ser candidato a deputado federal.

A estratégia dos caciques funcionou bem: eleito, Francisco Everardo arrastou consigo outros três novos parlamentares. Entre eles, o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz (PCdoB). Que mesmo com a notoriedade nacional do comando da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas e outros acusados de fraude, só obteve 94.906 votos nas urnas. Sua sorte foi o PCdoB estar coligado ao PR do campeão de votos.


Com todos esses detalhes, ainda não sabe de quem estamos falando? Então, vai a última pista. O slogan de Francisco Everardo virou notícia no País inteiro: "Vote no Tiririca, porque pior que tá, não fica!" Pois é, trata-se do palhaço, malabarista, cantor, compositor, humorista e, agora, deputado federal Tiririca. Que depois de receber os votos de mais de 1,3 milhões de eleitores, enfrentava a ameaça de cassação sob suspeita de ser analfabeto, o que é proibido por lei aos candidatos a cargos públicos.

Na realidade, o problema não está no candidato, mas na lei que rege as eleições. Que de tão frouxa e cheia de brechas, permite a inscrição de postulantes como Tiririca. Não concordo que ele seja a cara do nosso Congresso Nacional, como andam dizendo por aí. De fato, nem todos são palhaços ali. Mas se Tiririca teve a candidatura homologada pelo TRE, fez campanha livremente e foi sufragado nas urnas, tem o mesmo direito de assumir o mandato que os demais 512 colegas deputados.

Principalmente agora, quando a Justiça Eleitoral constata que ele, bem ou mal, sabe ler e escrever. Sem falar que a manutenção do mandato de Tiririca respeita a vontade soberana do eleitor. Não interessa se votou bem ou mal. Votou nele.


Resta esperar, portanto, que o mais novo político brasileiro cumpra a promessa repetida tantas vezes nos programas do guia eleitoral de TV, quando, com ar humilde, dizia: "O que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto". Então conta, Tiririca.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Enem aí!



















Na época em que prestei vestibular, o exame era unificado. O estudante fazia apenas uma prova para disputar as vagas nas universidades Federal e Católica. Foi um suplício.

Não que não estivesse preparado, mas o clima de terror que se cria em torno do vestibular sugere que virar noites, frequentar aulas dirigidas e estudo em grupo, quebrar a munheca de tanto repetir testes, perder o lazer e as festas com família e amigos não vale de nada na hora da prova.
O "fera" fica nervoso, gelado. Uma sensação de insegurança que, na maioria das vezes, passa nos primeiros minutos. Mas para outros, infelizmente, só piora.

Por isso fiquei feliz em ver o "unificado" ser substituído pelo formato "peneirão", seguido das provas específicas.
Mas mudou o governo, e como sempre acontece neste País, tinham que mexer em alguma coisa. Quando inventaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), foi como se tivessem ressuscitado o danado do "unificado". Só que num grau bem maior de incompetência por parte de quem formula e de quem aplica as provas.

Não fosse assim, o Enem não frequentaria as manchetes negativas dos jornais todo ano. E dá pena ver a expressão de ansiedade dos "feras". Não por se sentirem despreparados, mas por não ter a certeza de que seu esforço vai dar em algo. Simplesmente pagam o pato pelos vacilos dos organizadores. E mais uma vez, o que se viu foram vacilos. Na logística, na impressão das provas e na repetição de erros menores que há muito deveriam ter sido corrigidos.

Aliás, o processo de seleção das universidades há muito já deveria ter sido radicalmente modificado, com o fim dos vestibulares e a aceitação de alunos mediante a avaliação de notas recebidas ao longo da sua vida estudantil. Esse sim, seria um processo estimulante desde o tenro início e, de fato, selecionaria as melhores cabeças para as melhores universidades.

Nos últimos anos, o Brasil deu passos largos em vários aspectos da vida social. Mas nesse caso específico do Enem, lamentavelmente continua andando para trás.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O rei não está morto












Mesmo faltando apenas dois meses para deixar o cargo, o presidente Lula ainda provoca polêmica. No começo da semana, ao comentar a eleição de Dilma Rousseff, ele deixou todo mundo tonto. Primeiro, garantiu que Dilma governará de fato e de direito, sem interferências suas na gestão. "Rei posto, rei morto!", disparou. No dia seguinte, porém, em conversa com jornalistas, já estava sugerindo que a futura presidente deveria manter os atuais comandantes da equipe econômica, Guido Mantega (Fazenda) e Henrique Meirelles (Banco Central).


Se isso não é dar pitaco no governo alheio, o que é? Uma sugestãozinha à toa?


Para completar, no fim da semana o "Cara" extrapolou de novo. Voltou a afirmar que a partir de janeiro todo poder será conferido exclusivamente a Dilma. Para, em seguida, anunciar sua "total disposição" de viajar pelo País em busca de apoio para aprovar uma reforma política o mais ampla possível.

Diante do exposto, duas perguntas surgem de imediato. Primeiro: por que somente em 2011, na condição de ex-presidente, Lula decide lutar por uma reforma política que durante dois mandatos não conseguiu aprovar no Congresso Nacional? Não conseguiu ou não teve interesse. Afinal, é fato sabido que pelo menos 80% dos senadores e deputados não tinham o menor interesse em tocar tal proposta, que mexeria no confortável status quo político-eleitoral de muitos deles.


Mas, e Lula? Qual o interesse dele em aprovar a reforma política depois de ter deixado o cargo? Conhecendo o estilo do ainda presidente, é possível levantar ao menos uma tese: Vários esboços de reforma que dormem nas gavetas do Legislativo incluem a proposta de ampliação dos mandatos dos prefeitos, governadores e presidentes da República, de quatro para cinco anos. Em compensação, prevêem a extinção do dispositivo que permite a reeleição dos governantes. E uma vez enterrado esse instrumento, Dilma Rousseff não poderia mais ser candidata do PT em 2014.


Pensando nessa perspectiva, Lula poderia estar imaginando voltar ao poder nos braços do povo. Será que oito anos no Palácio do Planalto não foram o bastante para ele? Parece que não, embora alguns aliados assegurem que não passa pela sua cabeça a intenção de retomar o poder, nem em 2014 nem em 2018.


Pode ser. Mas após a posse de Dilma haverá tempo para avaliar se Lula está mesmo disposto a levar adiante a ideia de se "aposentar". Por enquanto, foram apenas umas poucas intromissões, sem maiores consequências, nas declarações que deu sobre o governo da sucessora. Resta esperar para avaliar seu comportamento a partir de janeiro, quando estiver, enfim, na planície. Há quem aposte que ele não vai conseguir se acostumar...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Abrindo o bico














Nos Estados Unidos, quando um presidente conclui seu segundo mandato não pode mais concorrer a cargos eletivos. Mais que isso, é praxe naquele país o ex-presidente se ocupar com fundações, diplomacia, caridade ou qualquer outro assunto que não a política eleitoral vigente.


No Brasil, a coisa acontece ao contrário. Oito anos depois de ter deixado o cargo, Fernando Henrique Cardoso continua falante. Durante os dois mandatos de Lula, não foram poucas as ocasiões em que o tucano ocupou a mídia nacional para polemizar com seu principal adversário.


Agora, encerrado o processo eleitoral, ei-lo de volta ao noticiário. Desta vez, porém, embora mantendo o estilo polêmico, FHC partiu para cima do seu próprio partido. Em entrevista à Folha de S. Paulo, na terça-feira, o ex-presidente resolveu revelar toda a insatisfação que sentiu ao longo da campanha com o candidato José Serra e o PSDB.


Um descontentamento, é bom que se diga, que tem algum fundamento. Entre outros pontos, FHC reclamou que seu governo ficou refém dos ataques petistas, sem ninguém que o defendesse. Sobretudo com relação às privatizações, alvo de duras críticas por parte de Dilma Rousseff.


Mas FHC foi duro, também, com o setor de comunicação da campanha tucana, que segundo ele ateve-se ao trinômio comum “saúde, educação, segurança”. Para o ex-presidente, tais assuntos são redundantes para o eleitor. “A verdadeira questão é como você transforma em problema algo que a população não percebeu ainda como problema. Liderar é isso. Abrir um caminho”, disparou.


A revanche de FHC, porém, ficou mais clara quando ele acusou o PSDB de ficar “enrolando” demais para anunciar a candidatura Serra. E estipulou um prazo que considera adequado para definir o nome para a sucessão de Dilma: 2012.


É claro que, ao pensar num prazo tão longo, o ex-presidente - que está longe da ingenuidade - sabe que está enterrando uma eventual candidatura do governador eleito Geraldo Alckmin, que jamais deixaria o mandato em São Paulo faltando mais de dois anos para a eleição.

FHC também sabe que sua sugestão fortalece o mineiro Aécio Neves, que como senador não teria impedimentos maiores para se colocar no páreo presidencial mesmo dois anos antes.


Mas o que FHC deixou transparecer mais claramente na entrevista foi o clima de divisão interna que cerca os tucanos neste pós-eleições. Principalmente quando ele próprio, como presidente de honra do PSDB, e depois de ter ocupado o maior posto a que um partido pode chegar no País, procura - com o tom crítico - se desvencilhar de qualquer culpa pela derrota do seu partido nas urnas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Intolerância fratricida












Um dia depois de proclamado o resultado oficial do segundo turno, alguns serristas decidiram chamar a atenção para si, após a derrota do seu candidato a presidente. Invadiram o twitter com uma tentativa de campanha ao estilo Ku Klux Klan, depreciando os nordestinos. O motivo da diversão? Culpar os eleitores da região - donos de 28% dos votos do País - pela vitória da petista Dilma Rousseff.


Uma iniciativa como essa, longe de merecer uma discussão mais profunda, deve ser vista como um mero surto de "jus esperneandi". O esperneio de quem não sabe perder e precisa culpar alguém, que não seu próprio candidato, pelo fracasso nas urnas. Atacar os nordestinos foi a via mais fácil encontrada. Afinal, Dilma venceu José Serra nos nove Estados da região, e em alguns deles, ficou com mais de 70% dos votos.

Mas a matemática, ainda bem, é uma ciência exata. E na ponta do lápis, é possível constatar que os nordestinos apenas aumentaram a vantagem que Dilma obteve no resto do País. Nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, ela recebeu 1.873.507 votos a mais do que José Serra. E se o tucano venceu a disputa no Sul, no vizinho Sudeste ele foi derrotado por Dilma com uma vantagem de 1.630.614 votos.

Não é a primeira vez que gente "instruída" do Sul Maravilha prega contra o Nordeste. É fácil, porque sempre foi a região mais carente do Brasil. Que somente no governo Lula passou a receber um pouco mais atenção, embora isso ainda se traduza em ações meramente assistenciais. Mas ao contrário do que pregam, de barriga cheia, alguns setores da suposta intelectualidade nacional, a mesada do Bolsa-Família ainda é melhor que a fome e a miséria.

Independente do que se pense de Lula, Dilma ou mesmo Serra, o importante é não alimentar a tentativa irresponsável de sectarizar ainda mais uma eleição que, de tão baixo nível, criou no Brasil duas facções praticamente inimigas. Uma ferida que vai demandar tempo e muito esforço político para cicatrizar.

Idiotice é jogar combustível nessa fogueira, sem medir as consequências. Já houve no Brasil uma campanha no sentido inverso. Um grupo defendia que o Nordeste fosse declarado independente do restante do País. Não havia internet, mas era outra iniciativa sem pé nem cabeça, tal qual essa a que assistimos agora.

Seria bom, portanto, desmontar os palanques, reconhecer a derrota e aprender a conviver com ela. Afinal de contas, acima de todas as diferenças, quem votou em José Serra, Marina Silva, Plínio de Arruda Sampaio ou qualquer outro candidato - e mesmo aqueles que, insatisfeitos com a falta de melhores opções, anularam o voto - vive e mora no Brasil. E até onde a história mostra, a briga entre irmãos sempre acabou em tragédia.

domingo, 31 de outubro de 2010

O nordeste de Dilma















Continuidade é a palavra que deve nortear o futuro governo Dilma Rousseff (PT). Eleita sob as bençãos - e esforços - do presidente Lula, agora cabe exclusivamente a ela, a partir de janeiro, cumprir os compromissos assumidos em seu nome pelo padrinho político nos palanques e fora deles.


E isso inclui, sobremaneira, o Nordeste. Não foi a toa que Lula rearrumou a geografia política do País, migrando para cá o PT que até então estava acostumado aos redutos operários do ABC paulista e dos Estados do Sul. Desbancou, com isso, os coronéis da indústria da miséria que trocavam votos por dentaduras e sapatos e implantou aqui uma política assistencial que, se não é a melhor de todas - e não é mesmo - serviu ao menos para garantir uma das suas promessas de campanha: três refeições diárias para quem às vezes não tinha nem uma.


Agora, porém, virão as cobranças. Dilma ouviu e aprovou os compromissos assumidos por Lula em seu nome. Terá que zelar por um Nordeste que acreditou nela e lhe garantiu total hegemonia. Foram 78% dos votos no Maranhão, 77% no Ceará e 76% em Pernambuco, só para citar os principais. Mas ela venceu nos nove Estados.


Está claro que Dilma não é Lula, e e que é praticamente impossível igualar os índices de popularidade do padrinho. Mas se quiser assegurar um mínimo de aprovação ao seu governo, é aconselhável conquistar a simpatia de quem nela apostou suas fichas.


Afinal, nunca na história deste país o sofrido Nordeste brasileiro recebeu tanta atenção por parte do governo central como nos últimos oito anos. Fica difícil até mesmo à oposição negar isso. É tanto que a região terminou se revelando, reconhecidamente, um calcanhar de aquiles da campanha do candidato derrotado José Serra (PSDB).


O povo nordestino jogou alto na eleição da "candidata de Lula". E vai cobrar. As obras - independente do discurso de campanha dos tucanos - estão em andamento. Se estão no prazo, é outra discussão, mas o fato é que deixá-las de lado, depois de tantas promessas, já não é uma alternativa.

A presidente Dilma Rousseff forçosamente vai ter que olhar do Planalto Central na direção do Nordeste, no mesmo ângulo que lhe ensinou seu padrinho político. É claro que ela terá outros 19 Estados para atender. Não se trata de renegá-los. Mas se ela preza pela continuidade que tanto defendeu na campanha, espera-se que mantenha a atenção especial à nossa região.